No dia 18 de maio Portugal vai outra vez a votos. Mais uma vez ouvimos promessas repetidas e acusações fáceis. Assistimos a uma campanha centrada em culpados, promessas eleitoralistas e cultos de personalidade. Faltam ideias estruturantes, coragem reformista e pensamento estratégico para responder aos desafios do país.
A extrema-esquerda escolheu os “ricos” como inimigo de estimação. Numa campanha agressiva, o Bloco apostou tudo na retórica da inveja: taxar fortunas, penalizar património e diabolizar os lucros. Como se o crescimento económico fosse um jogo de soma zero.
O verdadeiro desafio não é tirar a quem cria riqueza. É criar condições para que mais pessoas possam fazê-lo. Empreender, inovar, investir. O foco deveria estar em fazer crescer o bolo e não apenas em distribuir as migalhas.
Do outro lado, a extrema-direita canaliza o descontentamento para os imigrantes. E fá-lo com perigosas insinuações sobre nacionalidades específicas. Explora o medo, alimenta o preconceito e ignora dados e realidades sociais.
Num país que envelhece a cada ano, os imigrantes podem ser parte da solução. Trabalham, pagam impostos, ocupam funções essenciais, muitas vezes invisíveis. Trata-se por isso de apresentar uma política de imigração inteligente e moderada, compatível com o fluxo de imigrantes e a capacidade do Pais em os acolher, e não apontar o dedo aos Paquistaneses.
Entretanto, o centrão procura agradar a todos com promessas redistributivas. Mais para os pensionistas. Mais para os jovens. Mais para todos. Mas sem mudar verdadeiramente o modelo de governação. Sem fazer reformas estruturais. Sem pensar a longo prazo.
Esta campanha não é nova. Já vimos isto no passado e sabemos onde leva: a uma escalada de impostos para tentar contentar as massas, à custa de quem investe, produz ou trabalha. Muitas vezes à custa das futuras gerações.
Sem crescimento real, a redistribuição transforma-se em ilusão. Falta-nos o essencial: visão, pensamento estratégico, coragem para inovar e capacidade para executar.
Na saúde, por exemplo, está tudo por fazer. Podemos evoluir para um modelo de medicina preventiva baseada em dados. Check-ups automáticos, marcados consoante o histórico clínico e estilo de vida de cada cidadão. Mais acesso à fisioterapia, à saúde dentária e à nutrição, desde os centros de saúde até às escolas. Mais desporto escolar, com planos de movimento adaptados e integrados no currículo. Menos doença e mais qualidade de vida, produtividade e felicidade.
Na inovação, é preciso deixar os discursos e passar à ação. Apoios reais à aquisição de equipamentos de ponta pelas empresas, para que possam competir internacionalmente. Fomentar tecnologias aplicadas à saúde, ao envelhecimento, à sustentabilidade.
Na administração pública podemos transformar completamente os serviços públicos com base em dados, inteligência artificial e design centrado no cidadão. Serviços mais eficientes, mais próximos, mais humanos.
Vários países demonstraram como se pode inovar na educação, requalificar a população, regenerar cidades, promover a natalidade e fazer a transição ecológica com inteligência económica, em vez de distribuir migalhas ou culpar minorias.
O futuro constrói-se com políticas transversais, modernas e corajosas. É possível. Já há tecnologia. Já há conhecimento. Já há bons exemplos no mundo inteiro.
Não duvido que existam ideias válidas nos programas eleitorais. Mas, na prática, o que chega à maioria da população durante a campanha são narrativas simplistas, trocas de acusações, promessas eleitoralistas e muita demagogia. Tudo isso mina a qualidade do debate político, quiçá contribuindo para a abstenção, certamente degenerando em tribalismo e populismo.
Mais uma vez, faz falta quem pense Portugal como um todo e tenha a coragem de apontar caminhos, em vez de continuar a apontar o dedo a culpados ou simplesmente contentar os pensionistas.