A felicidade do reencontro não é uma alegria que se impõe de imediato, mas uma claridade oblíqua que se insinua devagar no interior de quem a recebe, como se, num quarto onde se julgava desabitado, alguém abrisse uma janela esquecida. Nesse instante, a surpresa não se manifesta como sobressalto, mas como lentidão que estende o tempo, permitindo que o que regressa venha ocupar, com litúrgica delicadeza, o espaço de espanto onde a memória, até então, só sabia arquivar perdas.

Há reencontros que parecem fazer vibrar cordas que nunca tinham sido tocadas ou que pensávamos já esgaçadas, e é nesse tremor prolongado –  nesse tremor indeciso entre alegria e melancolia – que se revela a bênção de reencontrar: não porque devolva intacto o que um dia foi, mas porque transforma a própria ferida da ausência numa espécie de vaso interior, frágil e luminoso, capaz de acolher, com gratidão e temor, aquilo que regressa com a discreta grandeza do que poderia nunca ter voltado.

No dia em que Jum’a e o seu primo, Mohammed ed-Dhib, pastores beduínos da tribo Taamireh, estavam prestes a fazer a descoberta mais importante das suas vidas, tinham passado a manhã a partilhar os seus sonhos. Corria aquele Fevereiro de 1947, e o sol sobre o Mar Morto cintilava nas esculturas de sal ao longo das suas margens. Jum’a sonhara que os frutos de Jericó eram os melhores do mundo; Mohammed, que um tesouro jazia nas nuvens, escolhendo que chuvas trazer à terra, percorrendo o horizonte e voltando a subir. Os pastores adoram exagerar, especialmente quando atravessam uma paisagem tão seca e acidentada como um queijo feito de pedra bordejado de ervas medicinais. Os jovens sabiam os nomes das suas cabras e nem sempre apreciavam a sua natureza arisca e fugidia. Naquela manhã, uma delas perdera-se num wadi. Chamaram-na repetidamente, e o eco provocou um desprendimento de pedras. Jum’a comentou que talvez alguma cabra selvagem daqueles arredores estivesse com o cio, e a sua lhe tivesse seguido o encalço. O ar do meio-dia transportava um persistente aroma sulfuroso vindo do mar, e, nas proximidades, corvos disputavam um qualquer animal morto.

Atiraram pedras para as cavernas, nas quais tinham sempre medo de entrar. Corriam rumores de que os judeus as tinham enfeitiçado e que bastava entrar na sua penumbra para desaparecer. Nenhum dos rapazes sabia que, em 217 d.C., Orígenes tinha descoberto um vaso nas proximidades contendo cópias dos salmos. O estudioso alexandrino relatou que não havia maior prazer do que desenterrar parábolas, nem alegria maior do que redescobrir o que se tinha perdido. Afirmava que cada viagem ao passado aproximava a humanidade do primeiro Adão e que cada revelação presente lhe permitia entrar na luz do segundo. De facto, pensou Orígenes no dia da sua descoberta, os ensinamentos e as parábolas do livro sagrado nunca desapareciam. À semelhança de larvas de cigarras, podiam adormecer durante décadas sob a terra até a chuva as despertar para um novo canto. Jesus dissera que Ele passaria, mas não as suas palavras; que a sombra que o seu corpo projectava seria reabsorvida, mas que era inextinguível a luz do seu coração. Orígenes memorizara essa sentença num livro perdido, εὐαγγέλιον κατά Συμεών (evangelho segundo Simeão), obra de um discípulo com este nome que morreu aos cento e dois anos na Tebaida.

Uma das pedras atiradas pelos primos devolveu-lhes um som oco, quase musical. Encheram-se de coragem e entraram na gruta de onde viera o ruído. A cabra não estava ali, mas antes, quebrado, um grande vaso contendo os manuscritos hebraicos e aramaicos que nenhum deles sabia ler. Os pergaminhos escritos, embora não tivessem forma de o saber, faziam parte da biblioteca dos essénios – os Manuscritos do Mar Morto.

Cheios de excitação, os primos foram ter com o sapateiro da aldeia. O couro da encadernação parecia suficientemente forte para fazer solas. O contacto dos signos escritos com o solo neutralizaria o seu poder e, de caminho, brindá-los-ia com algumas moedas para satisfazer os seus desejos.

Alguns dos sete pergaminhos foram trinchados em pedaços e limpos com sumo de limão diluído. Quatro foram posteriormente vendidos pelo sapateiro ao arquimandrita do Mosteiro Ortodoxo Sírio de São Marcos, em Jerusalém. Outros acabaram nas mãos do arqueólogo Eleazar Sukenik, professor da Universidade Hebraica, que foi o primeiro a identificar a cópia do pergaminho de Isaías e também o primeiro a sofrer de insónias e angústia pela importância da descoberta. Rastreando os pormenores do achado, chegou ao sapateiro e, por intermédio dele, aos pastores, que se recusaram a revelar o local exacto onde tinham atirado a pedra.

Não tardou a compreender que onde Isaías escreveu, nos textos canónicos: “Desperta e canta, tu que habitas no pó! Porque o teu orvalho é como o orvalho da manhã, e a terra devolverá os seus mortos!”, um dos pergaminhos encontrados pelos beduínos registava exactamente o mesmo, tudo isto no preciso momento em que centenas de milhares de seres humanos, profanados, feridos, torturados e numerados, chegavam às margens da sua terra ancestral para iniciarem uma existência que jamais curaria as suas feridas. Seriam eles os mortos devolvidos, aqueles que tinham habitado o pó dos campos de morte? Seriam estes sobreviventes, como as letras dos manuscritos, parte da música melancólica das antigas profecias? No momento em que os académicos apresentaram à imprensa em Jerusalém o documento denominado A Guerra dos Filhos das Trevas contra os Filhos da Luz, que integrava os Manuscritos do Mar Morto, o fluxo da conversa suspendeu-se e o silêncio envolveu os presentes com o manto sombrio da tragédia. Não muito longe dali, pastores beduínos, passeando por Jericó, viram um homem que levava sandálias de couro com inscrições gravadas. Ninguém é, certamente, culpado daquilo que ignora. Mas ninguém pode impedir que os antigos conflitos, as guerras ancestrais e as tristes ofensas cheguem aos seus ouvidos.

No fim, a felicidade do reencontro não apaga a escuridão atravessada, nem apazigua, de todo, o peso das perdas e das catástrofes que nos trouxeram até àquele instante; ela deposita apenas, sobre a superfície da experiência, uma camada de luz muito fina, quase imperceptível, que não nega o que doeu, mas o envolve, como uma mão pousada com cuidado sobre um ombro cansado, alterando ligeiramente o seu peso. Aquilo que regressa – um rosto, uma palavra, um gesto, um sorriso desigual, uma respiração que reconhecemos no meio do ruído – não vem corrigir o passado nem prometer um futuro imune ao desastre, mas acrescenta à nossa consciência uma tonalidade nova, onde a alegria e a tristeza deixam de ser opostas e passam a entrelaçar-se, como dois fios de cor diferente que se unem num mesmo tecido, e é talvez esse entrelaçamento que nos faz pressentir, com uma lucidez quase dócil, que o que julgávamos perdido continuou, em segredo, a agir dentro de nós.

Talvez a verdadeira surpresa não resida no retorno, mas na descoberta de que, durante o tempo da separação, o desejo se exerceu em silêncio, aprendendo a ler sinais, a escutar ruídos indistintos, a seguir rastos quase apagados, e que é precisamente esse exercício secreto que, no momento do reencontro, faz com que o coração reconheça, com uma nitidez pungente, aquilo que jamais deixou verdadeiramente de esperar, como se a memória fosse não um repositório de imagens, mas um animal nocturno que, há tanto, reconhecia passos familiares na escuridão.

O reencontro não é, por isso, um fecho, mas uma espécie de dobra no tempo, um ponto em que o antes e o depois se encostam um ao outro e permitem que, durante alguns momentos, sintamos que a nossa vida foi copiada com uma paciência invisível em páginas que desconhecíamos, e que agora se voltam, uma por uma, diante de nós, não para nos explicar o sentido do que aconteceu, mas para nos oferecer a graça discreta de sabermos que nada do que amámos se dissipou.