Nas últimas crónicas, tenho escrito sobre o impacto que a IA está a ter na forma como pensamos, escrevemos e nos relacionamos com o conhecimento. Argumentei que a IA generativa está a produzir uma geração de “meta-autores” que usam a tecnologia não para densificar o seu próprio pensamento, mas para o contornar, produzindo rapidamente textos que, na sua larga maioria, simulam profundidade, já que o conteúdo é validado apenas superficialmente, o que pode quase ser visto como uma fraude de autoria ou como a destruição da singularidade da escrita.
Este padrão de atuação está a ter consequências coletivas que ainda não foram devidamente avaliadas. A verdade é que, ao nível empresarial, todos os dias constato a existência de uma enorme frustração com o grau de execução e incorporação da IA nos processos corporativos, que contrasta, quer com o buzz que lemos por aí sobre como a IA está em força, quer com a efetiva adoção que a IA generativa começa a ter, nem sempre pelas melhores razões, ao nível da adesão individual. Os orçamentos em IA, em 2026, diga-se, aumentaram exponencialmente, e não falta quem esteja a “atirar” literalmente IA para a organização. O problema é que não é viável obter resultados consistentes quando as pessoas que deveriam operar, supervisionar e integrar sistemas de IA não estão preparadas para isso. Sobre isto, vale a pena ler um post no LinkedIn da consultora Clare Kitching, que cita, de forma particularmente pertinente, diversos estudos que corroboram precisamente estas dificuldades. Entre eles, um relatório da EY indica que 78% dos líderes entrevistados num survey admitem que as suas organizações não conseguem acompanhar o ritmo do deployment de IA que realizaram. Já segundo a QuantumBlack, da consultora McKinsey, 90% dos melhores casos de uso de IA suportada por agentes nunca saem da fase piloto. Se há problemas com a tecnologia em si que, a seu tempo, serão – ou não – corrigidos e ultrapassados, o que é, por estes dias, evidente é que a compreensão humana sobre o que fazer com a tecnologia escasseia, sendo uma barreira que está a travar, de sobremaneira, o aproveitamento do potencial que a IA, mesmo no atual estado de maturidade, poderia já proporcionar.
Não tendo números para apresentar, o que verifico em Portugal é consistente com o padrão descrito nos diversos estudos internacionais que, amiúde, têm vindo a ser divulgados nos últimos meses: as empresas investem em tecnologia, contratam consultoras, lançam projetos, mas na hora da verdade, continuam a não escalar. Há uma vontade genuína de querer aderir à nova vaga, mas o problema está em que, na sua larga maioria, são poucas as pessoas nas organizações, capazes de conseguir sequer compreender como funciona a IA, pressuposto essencial para poder liderar uma transformação que é, em si, tão profunda. Como escrevi em novembro, a IA pede novas linguagens, novas formas de raciocínio, enfim, novas competências que estão longe de estar disseminadas entre a maioria de nós. E se a IA, na sua dimensão tecnológica, ainda tem problemas que dificultam a sua escalabilidade, o que é certo é que sem uma disseminação em larga escala das literacias junto das pessoas, a IA, por melhor que seja, estará sempre limitada no seu potencial.
Isto deveria ser óbvio se tivéssemos consciência de que a principal disrupção que a IA está a provocar tem natureza epistemológica. A base da epistemologia – a relação entre o sujeito que conhece e o objeto conhecido – está a ser, talvez mais do que nunca, radicalmente perturbada. Os sistemas de IA não são ferramentas passivas, mas agentes ativos na geração e na mediação do conhecimento, confundindo o sujeito com o objeto. Esta mudança exige que o próprio sujeito humano evolua, desenvolvendo novas capacidades para conhecer, questionar e assumir responsabilidade intelectual. Sem esta transformação radical nas literacias humanas, ou seja, na capacidade de conhecer e criar conhecimento, de nada adianta reorganizar processos ou adquirir ferramentas com elevadíssimo poder computacional.
Uma revolução como a da IA, liderada apenas por uma visão tecnocrática, não vai funcionar. Por isso, se queremos ser eficazes, para lá do que está a ser – e bem – feito ao nível do melhoramento das tecnologias e das infraestruturas necessárias para a suportar, temos de redesenhar a nossa relação com o conhecimento, mas sem cair no facilitismo: quem acha que a solução passa por eliminar o valor do processo humano no ato de conhecer, que se evolui eliminando a demora, a fricção, o confronto com a dificuldade, no ato de aprender, não se surpreenda por gastar muito, e não ter resultados. Não vamos criar riqueza para todos se não compreendermos o que se perde quando se delega o pensamento a uma máquina, e o que se ganha quando se subordina a tecnologia a uma intenção intelectual exigente. Porque, até prova em contrário, dos três fatores clássicos de produção, é no capital humano que continua a residir o maior potencial por explorar – e desperdiçá-lo, delegando à máquina o que a pessoa sabe fazer, melhor do que “algo”, é a forma mais segura de não obter os retornos que se esperam da IA.
Por isso, acompanho o Pedro Santa Clara no seu esforço para sinalizar que a principal disrupção que ainda está por fazer é educativa. Mas vou até mais longe. Falo da educação formal, indispensável, mas também, da informal – a que acontece nas organizações, nas equipas, nas decisões do dia-a-dia, na forma como cada um de nós aprende a usar as tecnologias.
Os grandes vencedores num mundo com IA – sejam empresas ou entidades públicas, seja cada um de nós a título individual – serão os que souberem perceber que precisamos de ter o máximo de pessoas preparadas para usar as ferramentas disponíveis.
Alvin Toffler, futurista norte-americano e um dos principais visionários sobre o impacto da tecnologia na sociedade, argumentou, na sua obra “Future Shock” (1970), que a aceleração da mudança tecnológica e social operada à época estava a produzir uma forma de desorientação coletiva, em que as pessoas e as instituições simplesmente não conseguiam adaptar-se ao ritmo das transformações. O que Toffler publicou, em larga medida, pode ser lido à luz do que vivemos hoje, pelo que vale a pena parafrasear a sua máxima principal, para defender que o analfabeto do século XXI não será quem não sabe ler nem escrever, porque isso qualquer IA grátis já está a fazer por nós, mas quem não souber aprender, desaprender e voltar a reaprender tudo de novo. Quantos de nós estamos, afinal, preparados para voltar a ser crianças?