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Frequentemente – e não apenas por parte de homens – ouvimos dizer que a batalha pela igualdade de género já está ganha. Esta é uma falácia perigosa, porque abre caminho à indiferença e inação perante problemas bem atuais. E que não existem apenas em países mais retrógrados, noutros pontos do mundo, mas entre nós.

A igualdade no mercado laboral não existe em Portugal, nem na maioria dos países da União Europeia. E continuará a não existir até que o trabalho igual seja retribuído com salário igual, até que as mulheres não sejam penalizadas na sua progressão na carreira pelo facto de continuarem, na maioria dos casos, a assumir uma fatia desigual das responsabilidades domésticas, e até que as funções de liderança comecem a refletir a realidade do mercado de trabalho.

Pensando no caso de Portugal, se as mulheres representam cerca de metade dos trabalhadores, e se já ultrapassaram há mais de uma década os homens em termos de qualificações académicas, como se explica que continuem a ser uma pequena minoria nos conselhos de administração das principais sociedades cotadas do país?

Será que, como também alguns defendem, existe uma maior predisposição de género para o exercício destas funções? Não creio. Apesar de, recentemente, ter sido publicado um estudo na “Harvard Business Review”, realizado já em contexto de pandemia, cujos autores (homens) concluíram que “as mulheres são melhores líderes durante a crise”.

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É claro que podemos sempre encontrar sinais de mudança. Olhando para o setor da Ciência, uma área com a qual tenho particular ligação, vemos que hoje Portugal tem Leonor Beleza à frente da Fundação Champalimaud, Isabel Mota na Fundação Gulbenkian, Helena Pereira na Fundação para a Ciência e a Tecnologia. E todos estes casos são importantes. Até por servirem de exemplo. Mas a regra, mesmo em setores onde as mulheres já são maioritárias, continua a não ser esta.

Pelo contrário – existem até alguns sinais de retrocesso. Nesta crise pandémica, confirmaram-no indicadores oficiais, as mulheres da União Europeia foram mais afetadas do que os homens ao nível da perda de rendimentos, do desemprego e da precariedade. Foram ainda expostas a riscos de saúde acrescidos, por representarem a esmagadora maioria dos cuidadores, formais e informais.

Mesmo ao nível dos direitos liberdades e garantias, temos assistido, em alguns países europeus, a retrocessos preocupantes em matéria de direitos das mulheres.

A estas realidades somam-se outros motivos de preocupação, como o posicionamento das mulheres em algumas das grandes transformações dos nossos tempos. O fosso de género na economia digital é um exemplo paradigmático. As tecnologias de informação e comunicação representam atualmente o setor de atividade em maior expansão, oferecendo as melhores perspetivas de remuneração e de progressão profissional. Mas as mulheres continuam fortemente sub-representadas nestas áreas, desde os bancos de escola ao mercado laboral, com consequências não apenas em termos de igualdade de género, mas de competitividade das nossas economias, que estão a desperdiçar um enorme reservatório de talento.

Talvez, daqui a algum tempo, deixe de fazer sentido termos um Dia Internacional da Mulher. Talvez lhe possamos mudar o nome para: “Dia Internacional do Ser Humano”. Mas esse dia ainda não chegou, porque esta batalha ainda está a ser travada.