Existe uma justiça para ricos e outra para pobres? Sim. Quem pode pagar a bons advogados e pagar as custas, tem melhor justiça.

E educação? Sim, obviamente.

E saúde? Nem se fala…

E na morte? Infelizmente a resposta é sim.

Há poucos meses, a pessoa que todos nós mais amamos, deixou-me. A minha Mãe.

As últimas três semanas da sua vida foram de autêntico sofrimento emocional para a família e de pouco – espero eu – sofrimento físico para a própria.

A minha Mãe viveu os seus últimos dias num hospital privado. No entanto, o longo calvário por que passou foi-o maioritariamente no SNS. Do SNS só podemos dizer bem, no que respeita aos seus profissionais. A questão que se colocou à família, quando o fim se tornou inevitável, era onde poderia ter a minha Mãe o melhor conforto possível. A decisão foi a de recorrer a um hospital privado, com uma boa unidade de cuidados paliativos.

Nesse hospital, foi possível a amigos e familiares visitar a doente durante todo o dia, sem limites. À noite, um de nós dormia no quarto, em cama apropriada. Durante três semanas, a minha Mãe não passou um minuto que fosse sem estar acompanhada por um filho, uma irmã, uma nora ou genro, um neto, um sobrinho, pelo marido.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

Durante aquelas aterradoras semanas ninguém falou, e estou convencido que ninguém pensou, em eutanásia. E não, na minha família não somos todos católicos practicantes. Nem a minha Mãe o era. O estarmos lá foi algo perfeitamente natural, tal como foi natural para a minha Mãe quando acompanhou em nossa casa os últimos dias da minha Avó, sua Mãe.

Também não se tratou de uma obrigação. Sentíamos, sabíamos, que tínhamos de lá estar.

A pergunta que coloco a mim próprio é outra e é simples: poderia eu dizer o mesmo, se a minha Mãe tivesse passado as suas últimas três semanas de vida num hospital civil?

Teríamos nós, os acompanhantes, direito a salas de espera confortáveis para as longas horas que se passam nos hospitais nesses dias de inferno? A dormir ao lado de quem nos embalou em criança? A um acompanhamento psicológico e religioso (se o quiséssemos)?

Obviamente que, a ser possível, mandávamos às malvas todas estas comodidades, se a alternativa fosse o restabelecimento da saúde de quem amamos. A questão é que, do ponto de vista médico, o inevitável era o prognóstico. E, quando assim é, não é melhor para todos – a começar no doente — que existam comodidades, valências?

Sempre fui contra a eutanásia. Depois desta devastadora experiência, continuo a sê-lo. A experiência que vivi é relativa aos doentes oncológicos, para os quais o fim é uma questão de dias ou semanas. Nestes casos, como foi o da minha Mãe, a solução não pode passar pela antecipação da morte. Tem de passar obrigatoriamente pela capacidade de o Estado dar a todos os doentes terminais a possibilidade de poderem estar rodeados dos seus entes queridos. De terem a comodidade de um quarto e de não serem abandonados num corredor ou numa enfermaria com cheiro a morte e a desespero.

Como estaria a minha família hoje se aquelas aterradoras três semanas tivessem sido passadas numa enfermaria sem que ninguém lá pudesse dormir? Como dormiríamos nós? Como dormiria a minha Mãe que, quando acordava a meio da noite, descansava sabendo que um filho ou uma irmã estavam à sua beira?

Não quero reduzir a morte a questões economicistas. O que eu quero – aliás exijo – é que todo e qualquer um de nós possa viver a morte dos seus entes queridos, como eu tive a graça de viver. Dói pensar que outras famílias, sem a capacidade económica da minha, passam por um inferno redobrado. Um inferno onde, se calhar, é mais fácil aceitar outras realidades, outras saídas.

O meu grito contra a eutanásia é tão alto quanto o grito para obrigar o Estado a dar a todos possibilidade de morrer com “conforto” e dignidade. Ou seja, tem de arranjar dinheiro para isso. Terá de cortar em alguma coisa? Pois que corte. Não corte é na vida, só porque optou por fazer mais uns quilómetros de autoestrada.