O conceito de adaptabilidade está diretamente relacionado à mudança e como lidamos com ela: ser capaz de se adaptar, de acordo com as necessidades, a situações e circunstâncias. às disrupções – como a Covid-19. É tempo de quebrar paradigmas, abandonar métodos, desafiar limites e questionar.

Adaptabilidade nas organizações e comunidades

As organizações e comunidades, há muito que advogavam a gestão da mudança para o futuro do trabalho impulsionado pela constante inovação e tecnologia, num paradigma de adaptação para a incerteza, novos mercados e novos perfis de consumidores. Mas arrisco dizer que, nenhuma estava preparada para uma disrupção como a Covid-19.

O futuro do trabalho é agora. A disrupção aconteceu. E todos nós somos testemunhas que a adaptabilidade das organizações acontece melhor em tempos de urgência e com poucos recursos. Porquê?

As únicas constantes no futuro dos negócios são a mudança, a agilidade e a capacidade de resposta às mudanças do mercado e a tecnologia é o driver, mas não a solução mágica para a sobrevivência dos negócios.

Temos observado uma proliferação de conteúdos sociais a mostrar um mundo (quase) perfeito em que o trabalho remoto é a solução para a manutenção dos negócios em tempos de Covid-19. É uma resposta às imposições de afastamento social físico para a continuidade da entrega, mas as organizações que atempadamente não se adaptaram para esta mudança de paradigma, encontram dificuldades na entrega de valor ao cliente.

Um caso prático e muito próximo da realidade que vivemos, são as grandes cadeias de supermercados que mantinham o negócio tradicional como grande fatia de sustentação, caminhando lentamente para um mercado digital. O contexto mudou, o perfil de cliente mudou, a procura pelos serviços aumentou exponencialmente e, a entrega de valor – o benefício, ficou aquém. E esta resposta à procura, ao novo perfil de cliente, ainda tarda em se adaptar.

Por outro lado, os pequenos produtores, empresas com menos recursos com uma pegada pequena no digital, facilmente fizeram a transição para o digital conseguindo posicionar-se neste mercado, criando oportunidades e espaço para crescimento em tempos de crise.

Agilidade nos negócios é a capacidade de uma organização de detetar mudanças interna ou externamente e responder de acordo, a fim de agregar valor aos seus clientes. Existe uma receita, um manual? Não. Nem existe uma receita fácil, nem uma resposta única. Esta agilidade, não é uma receita que se compra, é uma mentalidade de crescimento que se incorpora na organização.

A adaptabilidade para os benefícios acontece quando, se removem os constrangimentos e impedimentos das melhores práticas e, se transformam o ecossistema num fluxo constante de capacidade de entrega de valor financeiro e intelectual.

Por outro lado, em muitos dos negócios em Portugal, esta adaptabilidade é forçada para segundo plano quando, a prioridade são as pessoas. Tudo aponta que estamos a viver à beira de uma crise económica mais acentuada que a de 2008. As empresas por mais reinvenção, transformação digital ou gestão de mudança aplicadas, para cuidar dos recursos mais importantes – as pessoas, estão impedidas de continuar e a tomar decisão de deixar de laborar. Há 10 anos, reduziram-se quadros e produção face à redução da procura, mas não se fecharam portas.

E neste contexto, entra a adaptabilidade das entidades governamentais com medidas para mitigar os impactos económicos do Covid-19.

Adaptabilidade nas instituições governamentais e a comunidade

Na incerteza do futuro próximo, as instituições governamentais adaptaram-se na resposta e comunicação imediata da gestão da crise focando-se na saúde e, em segundo lugar, preparando medidas para que este tsunami económico não arrase o tecido empresarial reconstruido após a crise de 2008.

A adaptação da resposta e das acções surgem com o estudo dos dados, dia-a-dia, tomando medidas de acordo com estes. Nenhum país está preparado para um embate desta natureza, mas a diferença entre o sucesso ou insucesso nesta guerra, está na adaptação das respostas. Um dos exemplos está na evolução dos estados de emergência, feita com base na análise dos dados internos e externos, fatores de decisão e adaptando a resposta e próximos passos com as soluções existentes.

A comunidade tecnológica em Portugal, uniu-se para fornecer respostas em tempo de crise em que mais de 600 pessoas de 120 empresas se juntaram para criar soluções para ajudar a população a enfrentar a Covid-19 – #tech4COVID19, em contacto e alinhados com entidades governamentais e de saúde, por forma a mitigarem o risco de criarem obstáculos às operações oficiais em curso.

Tem-se assistido à adaptabilidade do conhecimento cientifico, indústria e tecnologia em prol do bem comum num reaproveitamento dos recursos do país: análise de dados e estatísticas, criação de testes de diagnósticos com reagentes exclusivamente produzidos em Portugal diminuindo dependências, reconversão de linhas de montagem de fabricas de moldes para o fabrico de zaragatoas em massa e em tempo recorde, desenvolvimento de ventiladores invasivos e a indústria têxtil a reorientar a sua actividade para o desenvolvimento e produção de equipamentos de protecção individual.

Adaptabilidade das famílias

Fechem os olhos por 5 segundos e pensem na quantidade de imagens perfeitas de famílias que viram na última semana. Famílias felizes à volta de um jogo de tabuleiro, casas imaculadamente arrumadas, pilhas de livros lidos, crianças acompanhadas pelos seus pais como jamais visto.

A casa de família é agora um polo de várias empresas e a escola das crianças. As famílias estão em adaptação a uma realidade de trabalho remoto e distanciamento físico social, assoberbadas por conteúdos digitais.

Bombardeadas pelas redes sociais para serem as famílias perfeitas em tempos de mudança de comportamental social quando, de um momento para outro, acumulam diversos chapéus que vão usando ao longo de 24horas: são os profissionais em actividade laboral, cuidadores, educadores, professores, professores das actividades extracurriculares.

Aliado ao “normal” dia-a-dia em tempos de anormalidade, há a incerteza da manutenção dos postos de trabalho, existe o pai ou a mãe empreendedor(a) que lutam pela reinvenção dos negócios, de forma a que, possam providenciar o sustento das suas famílias biológicas e das famílias que têm nas suas empresas.

Agora fechem os olhos por mais 5 segundos e imaginem o seguinte: pais sentados em frente a um computador a trabalhar das 9h-18h, as crianças em estado semi-auto-gestão na agora casa-escola-parque, a cozinha transformada em quartel-general. O pós-laboral a assumir um lufa-lufa na conquista do tempo no coração das crianças e vivido com sentimento de culpa, para além do acompanhamento da casa para que não vire um acampamento selvagem.

Alguém se revê? Arrisco a dizer que esta é esta a nossa realidade. Sem culpas, são tempos de adaptabilidade. 

Os livros que deve ler em tempos de quarentena, os cursos que deve fazer em quarentena, as refeições em tempo de quarenta, o exercício físico que pode fazer em quarentena, sugestões que proliferam numa tentativa de romantizar uma nova era que nada tem de romântico e quando se vive o medo de um inimigo invisível com sentimento de perda: da liberdade e de vidas humanas.

Da liberdade de coisas simples, como a liberdade do abraço dos familiares distantes ou de sorrir com som das gargalhadas de um grupo de crianças a brincar num parque infantil, alheios a qualquer adversidade. Do sentimento de perda das vidas que nos rodeiam e medo que nos toque de perto e atinja os que nos são mais queridos.

A proliferação de notícias, algumas com conteúdo falso e aterrador sobre o presente e o futuro, conjuntamente com as tarefas das diversas dimensões que chegam pelas diversas plataformas digitais, está a criar nas famílias um sentimento de angústia.

Porque estes, querem ser os melhores profissionais em trabalho remoto, porque querem ser os melhores cuidadores do espaço onde habitam, porque querem ser os melhores pais, porque querem ser os melhores professores e observadores das actividades escolares e extra-curriculares.

O direto com a escola (vezes o número dos filhos), a filmagem das tarefas escolares para avaliação pelos professores, o direto com a família, as respostas aos diversos grupos criados para o contato mais próximo à distância dos nossos olhos estão a criar uma antipatia e saturação ao digital.

No tempo de incerteza, a adaptabilidade da família tem sido como a velha máxima que os Portugueses adoptam quando se pergunta se está tudo bem. Não, não está. “Vai-se indo!”

Porque não há uma receita única para a adaptabilidade neste contexto, a resiliência tem um papel denominador.

Cuidar da saúde mental dos que nos rodeiam, tornou-se algo imprescindível. A necessidade de estarmos ligados em rede com todos, tornou-se avassalador. E todos, sem exceção, temos uma responsabilidade social para não bombardear as redes com assuntos que poderão exponenciar uma exigência interior maior aos que nos leiam ou vejam.

E o futuro próximo?

A ambiguidade e incerteza do futuro, pode ser combatida com a agilidade, comunicação e mobilização de todas as organizações para actuar sobre os imprevistos.

As entidades governamentais estão dia-a-dia a responder, conjuntamente, com a comunidade científica e tecnológica, com novas formas de apoio ao tecido empresarial, às famílias e à comunidade escolar por forma a sustentar o futuro pós crise.

Com este exemplo de união, na esperança e confiança que #tudovaificarbem, na incerteza de como será Portugal, Europa e Mundo pós Covid-19, deveremos todos aproveitar os momentos de crise para retirar lições para o futuro de como melhorar a nossa capacidade de adaptabilidade e, a partir delas, criar formas de proteção, inovação e reinvenção para o benefício de todos.

Porque o vírus, esse não descansa.

Cláudia Mendes Silva é Mestre em Engenharia Informática pela Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, com mais de 15 anos de experiência profissional na área de tecnologia, é atualmente PMO/Project Manager na Siemens.

Paralelamente, é Embaixadora da Comunidade Internacional Women in Tech®, uma organização sem fins lucrativos com o objetivo de reduzir o gap existente do género e ajudar as mulheres a envolverem-se com o mundo da tecnologia, mentora do Founder Institute Lisbon e membro residente do Business Agility Institute em Portugal.

O Observador associa-se à comunidade Portuguese Women in Tech para dar voz às mulheres que compõe o ecossistema tecnológico português. O artigo representa a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da comunidade.