Quando, há três anos, escrevi aqui sobre os pacifistas cínicos, que alertavam para a inutilidade e até imoralidade da resistência ucraniana, cegos pelos seus preconceitos ideológicos, estava longe de imaginar que seriam eles, os primeiros, a reduzir a palavra “paz” a quase um sinónimo de rendição, porque se recusam a render-se à realidade.
Quando, pouco tempo depois, escrevi que Von der Leyen desdenhou da conhecida máxima de Jean Monnet de que “é melhor discutir à volta de uma mesa do que num campo de batalha”, ao virar as costas à bandeira branca levantada pelo presidente ucraniano em Istambul, estava longe de imaginar que, não tendo a UE forma institucional para se defender de ninguém, a guerra seria por si usada para construir realidades artificiais de emergência, tidas como axiomaticamente certas, a partir das quais todas as “acções” de governos, sociedade civil e indivíduos devem ser redesenhadas para responderem de maneira adequada.
Realidades artificiais acentuadas pela Comissão Europeia, a partir do momento em que se começou a vislumbrar a possibilidade de uma solução diplomática para o conflito russo-ucraniano. Desde então, para a propaganda da UE, a perspectiva de Putin cruzar os Alpes como Aníbal com os elefantes, tem sido apresentada como uma hipótese não só realista, mas até iminente, a ponto de justificar uma campanha imediata de “preparação” a todos os níveis.
Uma narrativa assustadoramente bipolar, tendo em conta que, até ontem, a narrativa oficial era aquela que nos dizia que “a Rússia não é invencível” e que Putin “falhou” porque ocupou apenas um quinto da Ucrânia. Como poderia invadir o resto da Europa em 2030? Talvez partindo do pressuposto de que Putin, para nos invadir, espere cinco anos até que estejamos prontos? Putin é certamente um carniceiro ditador, mas não parece estúpido. Então, das duas, uma: se nos disseram a verdade, não se entende por que nos deveríamos “preparar” para nos defender de um exército em frangalhos; se, pelo contrário, nos contaram um monte de mentiras, 27 exércitos descoordenados seriam derrotados facilmente.
Sim, porque não existe nem existirá, uma defesa comum, um exército comum, um uniforme comum, por muitas proclamações altissonantes para rearmar a UE até aos dentes, a menos que o Tratado de Maastricht seja abolido.
E apesar da retórica de urgência, nem mesmo o plano de financiamento concebido por Von der Leyen se baseia em um estado de emergência formalmente declarado, o que certamente coloca em causa a sua legitimidade e necessidade. Na verdade, parece mais um projecto político para favorecer os Estados-membros que se podem dar ao luxo de se endividar, assumindo enormes somas destinadas ao rearmamento, como é o caso da Alemanha, do que uma resposta a uma crise real. Desde logo pela meta utópica de transformar o Velho Continente em uma potência militar-industrial estrategicamente autónoma até 2030. Pouco importa, por isso, que o plano ReArm EU tenha sido renomeado para Readiness 2030. A terminologia alterada não muda a substância: o rearmamento europeu, no final, não será baseado na comunidade, mas apenas para aqueles que podem pagar por ele. Daqui resulta que, as decisões “europeias”, serão tomadas pelos mais fortes, em seu interesse exclusivo. Foi assim com o euro em tempos de paz, será assim com o exército alemão em tempos de guerra.
Mas nada disso atrapalha a performance teatral da UE, a sua compulsão para nos impor métodos (as “acções”, precisamente), para lidar com a “emergência” declarada como necessária e preponderante no momento. Métodos que, evidentemente, aos seus olhos, exigem, antes de tudo, a consolidação do poder num único local, que se investiu sub-repticiamente da autoridade não só para apresentar as necessidades de todos os cidadãos europeus, mas também para garantir a sua sobrevivência e as suas necessidades vitais e essenciais.
É disso exemplo, o kit de emergência apresentado pela Comissária Lahbib, num tom distópico e humor macabro. Mas, sobretudo, a resolução aprovada ontem com 399 votos a favor, 178 contra e 71 abstenções, no Parlamento Europeu. Praticamente um hino à manipulação coletiva: “os Estados são convidados a promover entre os cidadãos uma compreensão mais ampla das ameaças e riscos” ou a aterrorizar a opinião pública acenando fantasmas. Não só isso, “precisamos alinhar (leia-se, manipular) as percepções dos cidadãos com programas educativos e de sensibilização, em especial para os jovens”, com “debates sobre a segurança, a defesa e a importância das forças armadas”, para fortalecer a preparação e prontidão civil e militar, a resiliência psicológica dos indivíduos e a preparação das famílias”.
Um documento insano pejado de racismo, nacionalismo, militarismo e propaganda vil, ou seja, os elementos fundadores da doutrina fascista, desenterrados por uma elite burocrata para nos incutir medo.
Não espanta, por isso, que a resolução aponte a Rússia como “a ameaça mais séria e sem precedentes na história do mundo” (pior que as hordas bárbaras e Hitler) porque “declarou guerra aos países europeus” (quando?); compromete a UE a armar a Ucrânia até uma “vitória militar decisiva”, em plena negociação. Isto depois de Kaja Kallas ter pedido 40 mil milhões de euros de euros em ajuda militar para Zelensky aos chefes de Estado e de governo reunidos no Conselho Europeu, em 20 de Março, e ter recebido um sonoro não. Kallas desceu para 20 mil milhões, depois para 5 mil milhões, e se tivessem tido um pouco mais de paciência, ela teria descido para 1.5 mil milhões, até mesmo para alguns milhões para comprar alguns mísseis e um café. Em vão.
A rejeição do plano Kallas fornece informações importantes. Desde logo, que os países-membros da UE não têm mais dinheiro e armas suficientes para continuar a alimentar a guerra. Depois que a guerra está a destruir o Ocidente e não a Rússia. Parar a guerra agora significa salvar o Ocidente. Putin sabe disso. Então ele não tem pressa, porque à medida que o tempo passa, mais poderá exigir em troca do favor.
Resta, por isso, saber que alternativa propõem aqueles que temem e sabotam as negociações: além de continuar a financiar o suicídio assistido da Ucrânia e da UE. Ou seja, a jogar o jogo de Putin fingindo atacá-lo. Eles são os verdadeiros Putinianos.