1964 foi o ano da publicação da Lei dos Direitos Civis, uma das maiores conquistas da história americana, proibindo qualquer discriminação entre pessoas, com base em preconceitos raciais, religiosos ou identitários. Simbolicamente, é também o “número” do endereço de um dos memoriais mais notáveis que já visitei, situado na Independence Avenue, em Washington DC.

Extraído de uma maciça “montanha” de pedra, destaca-se um enorme bloco da mesma, no qual irrompe um enorme Martin Luther King de braços cruzados e olhar triunfante. Uma imagem forte e poderosa que não precisa de mais explicação para além da frase gravada: “Out of the mountain of despair, a stone of hope”.

Dou por mim a pensar em como a sociedade perdeu a crença em líderes carismáticos inspiradores para se deixar seduzir por líderes vazios e populistas. Em como isso nos torna indignos do legado daqueles que deram a vida pela humanidade e ousaram Esperançar, em tempos não menos sombrios, para construir um mundo de paz, justiça  e prosperidade, que julgávamos estar a consolidar-se e a perdurar.

Acabado de regressar de Washington, depois de uma semana de formação da Academia de Líderes Ubuntu para o Banco Mundial, o contraste com a América que encontrei é total. A “montanha do desespero” agiganta-se e parece impenetrável, rodeada por uma multidão de braços caídos e olhos incrédulos, impotente perante tamanho assombro.

Pessoalmente, recuso juntar-me à multidão paralisada e resignada diante deste lito-desespero. Acredito que com o nosso trabalho, no IPAV, pertencemos àqueles que, em tempos de assombro, preferem pegar no martelo e no cinzel para afrontar a montanha, confiando que dela extrairão um bloco de pedra, de onde possa brotar um Martin Luther King desafiador e inspirador, capaz de assombrar a humanidade pela coragem e não pelo medo.

E temos a história como aliada, para nos mostrar que para o mal e para o bem, nenhuma realidade se cristaliza.

É das montanhas de desespero que se extraem as pedras da Esperança!