1 Devia talvez falar do novo Governador do BdP; da meditação a que o Governo deveria obrigatoriamente entregar-se nas suas férias; da liderança de José Luís Carneiro, a “dar de si” mais cedo do que previsto; da mudança de tom e registo de André Ventura (que deve valsar entre o que fazer de si ou não fazer, como líder da oposição).
Mas não, estamos no defeso. Ficará para depois. Até lá, entre praias e campos, acodem-me antes breves notas de que guardei apontamento.
2 Na semana passada tive de ir a Cascais: lembrou-me o inferno. Entrar na vila e atravessá-la exige um sistema nervoso equilibrado que ampare até o suor da impaciência: é um carro-a-carro como se podia dizer um corpo-a-corpo, por entre uma gigantesca massa de lata. A massa desloca-se penosamente a passo de caracol por vias e avenidas que já não a comportam: o asfalto é infinitamente menos amplo que as incontáveis “viaturas” que a cada segundo o percorrem, sobem, descem ou cruzam. Também não me lembro de tanta gente ao mesmo tempo, em tantas ruas: o centro – e arredores – desta vila à beira mar plantada, rica de história e outrora tão especial e acolhedora, é um amontoado desorganizado de automóveis, gente, restaurantes, lojas, esplanadas, comércio de rua, sortido de bugigangas, vendedores ambulantes, tudo em cima umas coisas das outras. Não fora o bom motivo que lá me levava e teria sido uma tarde fora da racionalidade do que deve ser o quotidiano de uma comunidade. Não só pelo caos do trânsito – que um dia talvez venha a ser domesticado – mas pior, pela desfiguração de Cascais, hoje roída por uma construção avassaladora, em grandes perímetros e zonas, em ritmo de cimento non-stop a crescer entalado entre mais cimento.
Uma pena, grande e sentida, para quem ali passou verões compridos, diversas largas temporadas e tem Cascais ancorada na memória.
Podem evocar-me o progresso, falar em crescimento, apontar melhorias, mencionar o desenvolvimento. Eu só pergunto: este?
3 O Patriarca de Lisboa, consciente do seu papel na sociedade portuguesa, escreveu há dias aqui mesmo um notabilíssimo texto sobre o que nos tem sido politicamente acenado como prioridade ou urgência, e falo obviamente da imigração. D. Rui Valério, homem de sabedoria, ponderação, seriedade, critério, disse que “é essencial que a integração não signifique renúncia à própria identidade.”
E citando Papa Francisco na encíclica Fratelli Tutti: “Só posso acolher quem é diferente e perceber a sua contribuição original, se estiver firmemente ancorado ao meu povo com a sua cultura».
Julgo não haver outro ponto de princípio, se não este.
4 Oh surpresa um novo livro de António Sousa Homem, meu – desde há muito – candidato ao Prémio Nobel de literatura. Não que eu me comova particularmente com o Prémio – suspeito que o autor ainda menos –, mas era uma forma de sinalizar patamares altos. O livro caiu-me do céu sem que eu saiba como, precipitei-me, achei que seria uma reedição, oh maravilha, não era: Chama-se “Uma Vida Fora de Moda – Crónicas de um Reacionário Minhoto” (Porto Editora) e acabou de sair.
Não há que definir ou sequer descrever (Deus nos livre) o seu autor, nem tropeçar no “reacionário minhoto”, que só lendo. Há que festejar o continuado deleite, o puro encanto, a certeza da delícia, com que corremos de novo ao seu encontro. Renovando uma ideia fixa e antiga: a de que precisamos sempre de passar umas páginas com António Sousa Homem. Como quem antecipa o sabor de um vinho de uma colheita especialíssima, dessas, quase únicas, que ficam com nome gravado na vida de castas e uvas. António Sousa Homem é em si mesmo uma colheita única. O autor vive em Moledo, pouco saindo de lá, e quando o faz é para voltar ao que já conhece do seu Alto Minho a que tanto se afeiçoou: a “floração das mimosas”, o Monte de Santa Tecla, a maresia da Ínsua, o oceano enraivecido, as espécies botânicas de que tudo sabe, uma paragem em Caminha, a passagem por algumas minúsculas povoações que elegeu com maior devoção no seu mapa sentimental. Trocando ao acaso dos dias meia dúzia de palavras com a meia dúzia de personagens, as mesmas desde o início destas crónicas: são “os seus”. E nós que não somos, ficamos com o dom do seu poder de observação, maravilhoso de finura e lucidez; e com a ironia ora enternecida, ora condescendente, como observa, divaga e depois “conclui” sobre cada um desses seres impressos no seu mural privativo.
No fundo, o “reacionário” minhoto que habita Moledo talvez não encontre razão para sair do seu eremitério, a não ser breves rituais que cumpre por antecipadamente se saber livre de descobertas ou curiosidades que não lhe dizem respeito ou costumes que estranha. O progresso que não usa deixa-o indiferente e, desde a longínqua década de sessenta de um século já passado, não pratica nem aplaude o mundo, preferindo-lhe o que acabou “antes da Regeneração, dos Liberais da Foz ou da Democracia”.
No fundo António Sousa Homem não precisa, graças a Deus, de alimentar ilusões sobre a natureza humana nem sobre este pobre mundo. Constata uma e outro. Faz bem. O seu eremitério de Moledo, que um consumidor compulsivamente convicto da importância da actualidade ou um obsessivo “interventor” classificaria de demasiado quieto – permanecerá incólume. Como o seu eremita.
Reunidas em livro estas crónicas (Correio da Manhã) demoram a ler, sabem-nos melhor, encantam-nos mais. E podemos voltar atrás, marcar uma página, sublinhar imorredouras passagens, que o dr. António Sousa Homem tem de ser impreterivelmente lido com um lápis na mão.
Evoquei-lhes alguém de quem pouco tinham ouvido falar ou nunca lido? Um outsider no nosso universo literário? Quem sabe um extraterrestre?
Não. Melhor: o último sobrevivente de um mundo que já não há mas onde ele escolheu continuar a viver. Magnífico.
Mas depois digam-me.
5 Gostava muito do José Blanco. Uma partida que me apanhou longe de Lisboa e totalmente desprevenida, não o sabia nem tão doente, nem muito menos à beira da sua despedida. Tinha-me até pedido há poucos meses uma colaboração da qual, com algum atraso (mas quem conta com a morte?) eu conseguira finalmente satisfazer. E de repente… – mas é sempre como se fosse a primeira a vez – descobrimos que a morte faz como quer. Usando do seu devastador poder de substituir a condição do “vivido” ontem para a de “recordado” hoje. Guardarei a memória que é rica e vária – foi muito o que profissionalmente e humanamente vivi com o José Blanco
Despeço-me com o livro que lhe devo, ao tempo em que no Conselho de Administração da Fundação Gulbenkian, ele administrava o pelouro Internacional.
E foi assim que um dia , cruzando-me num avião com João Pedro Garcia – director do Serviço Internacional e número 2 de José Blanco – fiquei a par das espantosas empreitadas a que – entre outros dossiers – se entregava o Serviço Internacional da Fundação colaborando na reabilitação ou restauro de património português – fortes, igrejas, bibliotecas, praças, arte sacra, torres, arquivos – que quase agoniza em diversas geografias; e, claro, após aturados estudos e rigorosas apreciações dos pedidos que chegavam das autoridades de cada um desses tão longínquos países (não competia ao Serviço Internacional da Fundação, pelos seus estatutos, tomar a iniciativa mas sim poder acolher, estudar e decidir sobre os projectos que que lhe chegavam.)
Espantei-me com o que ouvia a João Pedro: e ninguém sabia? Essas histórias não eram contadas? Como era possível que o país não soubesse?
Brevíssimo segundo acto: semanas depois, certamente animado por João Pedro Garcia, que o contagiou com o meu entusiasmo, José Blanco deu-me uma guia marcha: que eu fosse pelas Áfricas, as Ásias e as Américas e visse, ouvisse, perguntasse e depois contasse. Foi o que fiz mas há poucas coisas na minha vida que eu tenha gostado tanto de contar como estas absolutamente extraordinárias descobertas de tanto Portugal tão longe. A soma de todas as reportagens frutificou num livro, “Portugal, as Sete Partidas para o Mundo” (Circulo de Leitores) com prefácio de João Lobo Antunes.
Durante meses fui um andarilho: ia e vinha pelas duas costas de África, por improváveis geografias do sudoeste asiático, por várias Índias do Sul; por mais de um Brasil e até por uma pequena jóia chamada Colónia do Sacramento, à beira do enfeitiçado Rio da Prata, no Uruguai. Devo inteira e muito gratamente tudo isto a José Blanco. Sem ele o andarilho que fui não teria percorrido – nem muito menos imaginado – o impacto e a força de tanto património, espalhado pelas sete partidas.
Rui Ochoa fotografou como ninguém esta tapeçaria portuguesa. E, a meu pedido, um lote de diplomatas, historiadores, poetas, políticos, intelectuais, arquitectos, “rematou” depois, com um texto seu, cada lugar onde esteve o andarilho.
Como esquecer esta dádiva de José Blanco – e obviamente também da Fundação Gulbenkian? Agradecendo e não esquecendo.
Não me ocorre despedida mais ternamente justa de um amigo a quem tanto devo do que, daqui para o céu, lhe lembrar estas páginas, mais suas do que minhas.