Pela primeira vez em democracia, um outro partido que não o PS ou o PSD / AD lidera as intenções de voto, o Chega. Esta até seria uma boa novidade, reveladora da vitalidade do sistema, se não se tratasse de um partido com uma agenda radical, recém-constituído e por isso sem quadros, muitas vezes com opiniões que se contradizem umas às outras.

Esta novidade, no entanto, não deveria surpreender, pois a tendência de crescimento do Chega é inequívoca. Feito nascer no início pelo PSD, o Chega ganhou lastro durante a geringonça, e o PS de então bem pode pôr a mão na consciência, em especial o seu líder de então, António Costa, que ignorou a verdadeira oposição e transformou André Ventura no centro do debate político.

O PS deu palco ao Chega, mas o Chega também foi crescendo pois não se vislumbrava uma verdadeira oposição nos outros partidos. Se acrescermos a isto uma ação governativa que não lançou uma obra ou uma reforma estrutural que fosse, entende-se a razão pela qual chegámos às legislativas de há um ano com mais de um milhão de fortemente descontentes, oriundos de todos os quadrantes.

E será que o crescimento do Chega está a estabilizar? Estou convencido que não, pois o Chega alimenta-se do descontentamento, e o (legítimo) descontentamento tem que ver com um país estagnado, liderado por políticos que não sabem ou não querem mudar.

O tema é pois se este governo tem capacidade para implementar as reformas estruturais necessárias para dar um novo ímpeto ao país, um pouco como Cavaco Silva fez nos anos 80, quando surgiram auto-estradas, hospitais, universidades, canais privados de televisão e por aí adiante, dotando o país de uma capacidade que não tinha até então.

É este atual governo, que na prática é como se gozasse de uma maioria absoluta, tal o estado do PS, capaz de ter uma agenda transformadora para o país, ou pelo contrário é a mera continuação da prática governativa de António Costa?

Gostava de poder dizer que estamos numa rampa de lançamento de alterações profundas, mas infelizmente, um ano e meio após a sua entrada em funções, existe discurso, mas não se vislumbram ações concretas, e o tempo continua a passar, inexorável, como passou nos 8 anos socialistas.

Vejamos um exemplo, o das Florestas, que ardem ano após ano, como se arder fosse uma fatalidade face à qual nada há a fazer. E porque ardem as florestas? O diagnóstico (sério) está mais do que feito, a floresta arde porque ninguém cuida dela, e ninguém cuida dela pois não existe interesse económico que justifique cuidar da floresta.

Com uma fragmentação absurda de terrenos rústicos a Norte do Tejo, e por isso sem dimensão economicamente rentável, donos muitas vezes desconhecidos, heranças indivisas, extremas ambíguas, donos longe, existe um caldo de condições para que os terrenos fiquem ao abandono, e que por isso ardam.

E como é que se inverte esta situação? Com uma reforma estrutural que coloque em causa a situação acima descrita, ou então, para ser mais claro, com uma verdadeira reforma agrária a norte do Tejo. Ter um terreno é um direito, mas também acarreta um dever, e o Estado deve exigir que os terrenos não sejam autênticos barris de pólvora.

Na sequência dos incêndios de 2017, o Estado determinou que quando os terrenos não estivessem limpos, o Estado substituir-se-ia aos proprietários e limparia os terrenos, imputando-lhes depois o custo. Ora, quantas vezes é que isso aconteceu? O Estado tem capacidade para implementar uma determinação desta envergadura? É evidente que não, se o Estado nem dos seus próprios terrenos cuida, como pode exigir que os privados façam melhor?

É evidente que tem de haver coragem política para pôr em causa o direito à propriedade, para nas zonas do país onde os partidos atualmente no governo mais peso têm. Este governo, para já, lançou um Plano de Intervenção Florestal, aliás, o governo PS, na sequência dos incêndios de 2017, também tinha lançado um grande plano florestal (“o maior desde D. Dinis”, de acordo com o ministro de então, Capoulas Santos), e estamos como estamos, ao nível dos planos, que são intenções.

É claro que têm de haver planos, mas ficar pelos planos é anunciar e não fazer, é faltar à verdade ao eleitorado, é dar votos aos partidos radicais que podem prometer o que quiserem pois nunca foram governo. E é neste ponto que estamos, temos um plano com 150 ações, generalista qb para todas as reividicações florestais estarem lá incluídas. Será que vai ser implementado ou vai ser como o referido plano de Capoulas Santos?

É evidente que governar é difícil, as ações envolvem capacidade para fazer ruturas e medidas legislativas que por vezes requerem compromissos quase impossíveis, mas ou as referidas ações começam a ser implementadas no terreno, ou o descrédito é total.

Este exemplo das florestas pode ser extrapolado para muitas outras áreas governativas, onde ainda não se percebe se as palavras (e os planos) são para levar a sério ou se são fait divers para entreter o povo.

No romance O Leopardo (1958), vem a lapidar frase se queremos que tudo continue como está, é preciso que tudo mude, e daí o anúncio de extraordinários planos e intenções que se consubstanciam em nada.

Estamos na encruzilhada, ou este governo é capaz de passar das palavras aos atos, dos planos às ações concretas, com implicação positiva na vida das pessoas, ou então a legislatura não é para 4 anos, e o futuro primeiro-ministro chama-se André Ventura.