A filosofia política atual revela uma imperfeição evidente no modo como analisa e classifica os vários fenómenos políticos. Os instrumentos mais usados para esse efeito, em especial o eixo esquerda-direita, não só se mostram desatualizados, como falham no momento em que são confrontados com a realidade político-filosófica dos movimentos, regimes, governos ou acontecimentos de natureza política. O problema não está apenas no diagnóstico errado a que muitas vezes conduzem, mas no próprio método de análise que adotam. Em vez de procurarem compreender os fenómenos políticos a partir da sua natureza e do seu fim, acabam por enquadrá-los segundo categorias comparativas, parciais e frequentemente dependentes da oposição ideológica de quem observa. Deste modo, a análise política deixa de assentar na realidade do objeto estudado e passa, demasiadas vezes, a refletir os preconceitos, os limites e os instrumentos de interpretação do próprio analista.

Seguindo a lógica da leitura assente na dicotomia esquerda-direita, chegamos a um diagnóstico em que os fenómenos políticos são classificados mais pela oposição do que pela sua verdadeira comparação e definição. Esta leitura acaba por revelar mais sobre a qualidade ideológica de quem avalia do que sobre a realidade do objeto que se propõe ao estudo. Assim, mesmo quando estamos perante uma realidade que se afirma dentro de um determinado campo ideológico, essa mesma realidade pode ser revista e reinterpretada não segundo a sua essência declarativa e normativa, mas antes segundo a base ideológica do próprio analista. É precisamente daqui que resulta o erro de colocar rótulos e qualificar algo, quando o próprio movimento indica ter uma outra natureza.

Por essa razão, a realidade política nunca deve, nem pode, ser analisada por contradição. A oposição revela conflito, mas não define identidade. Um movimento não é aquilo a que se opõe, é aquilo que afirma. Quando assim acontece, perde-se a sua veracidade, tanto na análise como na sua caracterização. A realidade de um fenómeno político deve resultar da sua própria conceção enquanto objeto de estudo, passando a contar, para esse efeito, a sua própria conceptualização, com foco na sua ontologia e na sua teleologia. É precisamente aí que se encontra a sua essência ideológica e a razão da sua verdadeira qualificação. Revela-se, portanto, uma nova realidade de estudo, mais apta a concretizar a realidade científica e a afirmar uma nova teoria dentro da filosofia política.

Se abandonarmos o eixo esquerda-direita e procurarmos compreender as ideologias a partir dos seus  princípios, compreendemos a sua verdadeira essência.

Debruço-me agora sobre o plano concreto, fazendo referência aos três principais campos ideológicos da filosofia política: o socialismo, o liberalismo e o conservadorismo. Refiro-me concretamente a estas porque são as três grandes realidades ideológicas que, ainda hoje, estruturam a construção política das sociedades modernas enquanto ideais de sociedade. Afasto, nesse sentido, outras formulações desatualizadas ou sem verdadeira expressão prática no tempo presente.

O socialismo, enquanto ideal primário, assenta na perceção de que a transformação e consciência social deve ser conduzida pelo poder político, entendido como principal garante da justiça e ordem social e política. É essa a sua realidade central. Enquanto denominação ideológica, o socialismo tem como fim a criação de uma estrutura política organizada capaz de interpretar, organizar e responder aos desafios da sociedade, através de uma entidade que se pretende justa, racional e orientadora. Nesta lógica, a sociedade, estruturada e pensada por uma entidade política organizada e dirigida, consegue alcançar uma ordem mais equilibrada e mais uniforme.

O liberalismo, por sua vez, tem como sentido ontológico a emancipação do indivíduo de qualquer vontade ou condicionamento externo, seja político, social ou moral. Nesse sentido, toda a interferência que limite essa liberdade deve ser entendida como um obstáculo ao seu fim político, que é precisamente a realização autónoma do indivíduo. A estrutura política e a própria realidade social passam, assim, a ser vistas sobretudo na medida em que condicionam ou restringem essa emancipação. Deste modo, a vontade individual afirma-se como expressão máxima da realização política, partindo do pressuposto de que o indivíduo, libertado das interferências e pressões que o limitam, estará em melhores condições para alcançar a sua própria satisfação e plenitude.

Com o conservadorismo, a política não se afasta da realidade social, antes resulta dela, remetendo para a prática política a própria consciência cultural, moral e civilizacional da sociedade. O conservadorismo, enquanto ideal político-filosófico, pretende conservar a interpretação do processo histórico da sociedade, consolidada na sua realidade cultural, nos seus valores morais e nos seus ideais civilizacionais, interpretando-se segundo a sua continuidade. Está, portanto, sujeito à sua própria realidade e consciência histórica. Esta, pela sua complexidade, apenas pode ser plenamente alcançada numa realidade de Nação, sendo isso apenas possível quando existe uma comunidade política e social madura, fruto de uma experiência partilhada em sociedade e de um chão comum.

Compreendendo a substância de cada pensamento ideológico, conseguimos verdadeiramente entender as expressões políticas e a sua correta caracterização. É aqui que se encontra o verdadeiro avanço para a filosofia política. Em vez da antiquada fórmula da dicotomia esquerda-direita, assente numa base lógica implícita e numa realidade histórica própria de um determinado tempo e contexto, importa substituí-la por um critério mais adequado ao estudo do fenómeno político. Se, nesse momento histórico, essa divisão podia ser suficiente para distinguir entre a rutura e a continuação de uma determinada ordem política, hoje revela-se claramente insuficiente. Neste novo entendimento, a realidade ideológica e a sua caracterização passam a assentar na própria essência do objeto político, substituindo a lógica de uma linha ou de um eixo por um sistema de análise que procura revelar a verdade ontológica e teleológica do movimento político. Definindo-se pela sua própria essência e natureza.

Neste sentido, a caracterização de um fenómeno político deixa de resultar da análise entre campos ideológicos opostos, passando antes a depender da correspondência entre a sua prática, a sua formulação política e a essência ideológica que afirma. Não se trata, por isso, de o situar entre a esquerda e a direita, mas de verificar a sua interpretação relativa à ontologia e a teleologia da realidade política a que pertence. Cada objeto político deve assim ser analisado dentro da sua própria família ideológica, segundo um critério interno de maior ou menor fidelidade ao seu princípio ideológico.

Deste modo, um movimento socialista não deixa de o ser apenas porque adota formas mitigadas ou não radicais da sua própria doutrina, tal como um movimento liberal ou conservador não abandona necessariamente a sua natureza por acomodar circunstâncias concretas num momento político. O que importa não é a distância que separa de ideologias rivais, mas o grau em que permanece fiel à sua própria essência. A análise correta deixa, assim, de procurar rótulos por oposição e passa a medir a continuidade interna de cada fenómeno político.

Assim, torna-se possível fazer uma avaliação mais concreta dos vários objetos políticos em estudo. O caso do Partido Socialista é revelador disso mesmo. Não deve ser enquadrado como partido de centro ou de centro-esquerda, mas como um partido claramente socialista, na medida em que entende que a dinâmica social e a consciência política podem ser orientadas e transformadas pelo Estado. O que o distingue de outras expressões do socialismo não é a sua natureza, mas a forma e a intensidade com que admite essa transformação. A sua autodefinição como social-democracia revela precisamente essa diferença ao não recusar o fim socialista, antes o procura através de meios menos absolutos e mais moderados. Por isso, o seu contraste principal não está em partidos de natureza ideológica distinta, mas noutras expressões do mesmo campo, como o Bloco de Esquerda ou o PCP, com os quais partilha a mesma família ideológica, ainda que exista  uma divergência quanto ao grau e método da intervenção política.

Num outro plano, o conservadorismo admite igualmente diferentes expressões dentro da mesma realidade ideológica. Se o seu propósito é a conservação da consciência histórica e a manutenção dos valores morais, culturais e civilizacionais de uma comunidade, então é possível identificar formas mais intensas dessa mesma lógica. O tradicionalismo pode, nesse sentido, ser entendido como uma expressão mais extremada do conservadorismo, por assentar numa ideia mais fechada, mais delimitada e mais exclusiva da comunidade histórica. Já, por exemplo, o CDS representa uma forma conservadora distinta, fundada sobretudo na preservação de valores tradicionais cristãos. Continua, por isso, a situar-se no campo conservador, embora o faça a partir de uma base mais universalista, ou internacional, do que propriamente identitária e nacional, como é o caso do CHEGA. O que importa, mais uma vez, não é colocar exemplos em campos opostos, mas reconhecer que ambos pertencem à mesma família ideológica, diferenciando-se pela forma como interpretam e concretizam o fim conservador.

A insuficiência da divisão entre esquerda e direita não resulta apenas do desgaste histórico de um pensamento político antigo, mas da sua incapacidade para captar a realidade própria dos fenómenos que pretende classificar. Um objeto político não se define pela oposição que estabelece com outro, nem pela posição relativa que ocupa num eixo comparativo, mas pela sua própria essência, isto é, pelo entendimento que possui acerca do ser (político) e pelo fim político-social que procura realizar. É nesse plano ontológico e teleológico que se encontra a sua verdadeira natureza ideológica. Só assim se torna possível distinguir com rigor aquilo que pertence ao socialismo, ao liberalismo ou ao conservadorismo, não segundo a aparência ou interpretações externas, mas segundo a fidelidade interna ao princípio que os constitui. A moderação ou o extremismo deixam, deste modo, de indicar uma mudança de família política, passando antes a revelar o maior ou menor grau de conformidade de um movimento com o ideal que afirma.

É por isso que a filosofia política precisa de abandonar as classificações assentes na contradição e recuperar um método de análise fundado na verdade própria de cada realidade ou objeto político. Dessa forma, passamos a concretizar uma análise mais próxima da realidade. Não fazendo das nossas próprias vontades ou identidade política uma característica que force a formulação ideológica de um objeto político.

Finalizo, não com uma continuação desta teoria , mas com o seguinte corolário: assim, como qualquer outra área científica, os seus instrumentos não ficam parados no tempo. A sua atualização tem de ser concretizada para conquistar o progresso.