A Capela Sistina, com as pinturas majestosas e a luz suave que entra pelas janelas, é o cenário perfeito para o mistério. Na votação, o silêncio envolve a sala, interrompido pelo som das respirações que ecoam nas pedras frias. Todos gostamos do mistério, porque dele vem a surpresa. Quando somos surpreendidos, é como se uma porta se abrisse para um novo mundo desconhecido. Essa sensação de descoberta é o que torna a vida vibrante.
A sociedade gosta dos mistérios, mas gosta ainda mais dos vencedores. Venera Aquiles e despreza Heitores. Neste Conclave, pouco me importa quem será o vencedor. Ouvimos falar em resiliência, recuperação, e nunca ouvimos falar em saber perder ou dar a outra face. Este discurso não poderá manter-se indefinidamente. Chegará a altura em que a conclusão se tornará inevitável: as coisas não vão funcionar. A carreira política não irá vingar. A candidatura ao emprego será ignorada. O canal de youtube nunca passará dos cem subscritores. Onde reside a responsabilidade? A resposta tende a ser: diretamente no indivíduo. Não há consolo metafísico, não há azar, nem ninguém para culpar a não ser a si mesmo. As meritocracias fizeram do fracasso o veredito da natureza.
Na Grécia Antiga, desenvolveu-se a arte do drama trágico, em que festivais encenavam histórias de fracassos atribuídos ao destino. Era a maneira poética dos gregos dizerem que as coisas funcionam de forma aleatória. Os judeus expressaram essa ideia no livro de Job. Apresentado como um homem justo e fiel, Job perde tudo: família, bens e saúde. O seu sofrimento é a consequência de um desígnio que permanece oculto à razão.
Vivemos num mundo repleto de injustiças que não podemos controlar, mas isto não é uma carta branca para cruzarmos os braços. Resta saber se, neste Conclave, algum Cardeal encontrará a coragem de questionar se o cristianismo tem algo a dar àqueles que fracassaram neste jogo económico, além de oração e palmadinhas nas costas. Até o momento, repete-se o refrão de que tudo depende da força de vontade e do esforço, apesar da realidade demonstrar o contrário.
O valor do trabalho e a justiça social foram reinterpretadas na teologia católica. Várias encíclicas têm complementado a proteção do trabalho e o combate às desigualdades, sendo importante destacar as seguintes: Rerum Novarum (1891), Quadragesimo Anno (1931), Mater et Magistra (1961), Pacem in Terris (1963), Laborem Exercens (1981), Sollicitudo Rei Socialis (1988), Centesimus Annus (1991), Caritas in Veritate (2009),
Laudato Si (2015) e Fratelli Tutti (2020). Esta matriz foi reiterada pela doutrina no Concílio do Vaticano II, conferindo no catecismo nº1705 e nº 1730: a pessoa situada na história e não fora dela, vive no seu tempo em conjunto das suas necessidades económicas. A pessoa generosa porque homo homini persona, não é desatenta às desigualdades sociais.
Parece pouco provável que o Conclave se decline sobre as desigualdades. O foco recai mais sobre a mise-en-scène e o fausto, elementos que contrastam com a simplicidade de Jesus Cristo. A atenção está na escolha de uma figura que atenda às expectativas das fações progressistas ou conservadoras. A discussão gira em torno da projeção de personalidades, seja mais pacífica ou austera. Isso é o que interessa à malta.
Para muitos, a igualdade económica não é vista como um alicerce da fé, mas uma preocupação periférica, distante de outras questões morais. Parece que se esqueceram da crítica a Mamon, o dinheiro elevado à categoria de deus. Jesus Cristo reconhece a importância da moderação e alerta para os perigos do apego à riqueza. Segundo Aristóteles, a polis bem governada é aquela onde a classe média é numerosa e influente, porque os ricos tendem à indiferença e os pobres à cobiça. As classes médias têm um papel importante na análise económica do crime. O comportamento humano é uma questão de custo de oportunidade, entendido como aquilo que a pessoa deixa de ganhar ao optar por uma atividade ilícita. O custo de cometer um delito é quase inexistente, desde que as oportunidades de benefício sejam atrativas. Esse custo é muito baixo para os pobres. Entre os super-ricos, os crimes de colarinho branco compensam, visto que a probabilidade de sanção esperada é mínima.
Quem está no convento é que sabe o que lhe vai dentro. De fora, pouco sabemos, mas uma coisa é certa: a Igreja que não se omite diante das desigualdades económicas assemelha-se àquela que constrói a sua casa sobre pedra firme. Independentemente de quem venha a ser eleito neste Conclave, o novo Papa terá a oportunidade de marcar o seu pontificado valorizando o trabalho e as classes médias face aos desafios económicos. É uma oportunidade de revisitar, aprofundar e expandir a Doutrina Social da Igreja.