O aumento da abstenção (cerca de 4%) confirma o cansaço geral dos espanhóis (a participação mais baixa da história da democracia espanhola). Há um realinhamento à direita, onde Cs perde votos para o PP. À esquerda, tudo fundamentalmente na mesma; Podemos falhou a sua aposta de repetir as eleições para ultrapassar o PSOE. A transferência de votos de Cs para PP assim como a coligação entre Podemos e os comunistas de Izquierda Unida sim alterou a composição do Congresso: PP ganha 14 deputados, Cs perde 8 deputados, PSOE perde 5 deputados, PNV perde 1 deputado (no País Basco) e os restantes partidos, incluindo Unidos Podemos, ficam exatamente na mesma.

Temos pois praticamente o mesmo Parlamento espanhol de há seis meses, com um ligeiro avanço do PP e perda de todas as outras forças políticas. Com este novo Congresso o bloqueio institucional não foi solucionado. Rajoy sobrevive com o voto útil à direita, avança em representação parlamentar, mas não tem parceiros suficientes para negociar uma investidura estável (com Cs apenas soma 169 deputados, sete menos que a maioria absoluta). PSOE sofre uma nova derrota eleitoral mas ao vencer as sondagens, Sánchez sobrevive (e o mau resultado na Andaluzia afasta a concorrência interna). Podemos e os comunistas não beneficiaram da coligação e viram a sua estratégia claramente derrotada. Cs foi claramente castigado pela sua aproximação aos socialistas durante a curta legislatura de 2016; uma vítima da polarização agressiva à direita. Alguma confusão na Catalunha e no País Basco (onde haverá eleições para o governo basco no outono) com perdas ligeiras das direitas nacionalistas (PNV e CDC).

Os espanhóis voltaram às urnas porque o Podemos recusou viabilizar um governo minoritário de Sánchez com Rivera. Iglesias jogou tudo em ultrapassar o PSOE. Perdeu de forma evidente: não ultrapassou o PSOE e acabou por beneficiar eleitoralmente o PP. Agora abrem-se cenários complicados. PSOE e Podemos somam apenas 156 deputados e precisam de Cs. Um enfraquecido Cs dificilmente pode tolerar a mesma solução tentada há três meses. E um Podemos derrotado estaria numa posição complicada ao juntar os seus deputados a uma solução PSOE-Cs que inviabilizou há meses. Do outro lado, PP, Cs e Coligação Canária somam 170 deputados, precisam do PNV (que enfrentará as eleições de outubro no País Basco e acaba de perder um deputado) e mais algum deputado da oposição. Não é completamente impossível, mas é muito complicado e certamente instável. Se nenhum partido ceder, haverá eleições outra vez dentro de seis meses. O bloqueio institucional segue dentro de momentos.