Sou, título indesejado, muito provavelmente o único cidadão no país e suas diásporas capaz de um assaz peculiar pleno: ser ameaçado de morte por adeptos dos 3 ‘grandes’. Penso que até já terei recebido uns mimos semelhantes de um par de ‘guerreiros’ do Minho (cada vez menos gente de se deixar ficar para trás, e ainda bem). Note-se que, quando digo “semelhantes”, não exagero. Há pouquíssima criatividade cá pelo burgo no que diz respeito ao desejo expresso do falecimento alheio, um sinal quanto a mim claro do falhanço da Educação. Num país verdadeiramente civilizado, acredito que já teria sido desafiado para duelos de mosquete ou espadachim, ou que no mínimo alguém rogaria de mãos juntas aos deuses mais profanos que sobre mim se abatesse pelo menos um par de pragas do Egipto.

Vem a que propósito este inicial relambório? Apenas para explicar ao leitor que pessoa conhecida (ou vagamente, como é o caso do presente escriba) que se meta a tecer comentários online sobre o desporto-rei (vai nu), é certo e sabido que ganha direito a ter representações suas – via bonecos voodoo e respectivas agulhas – disseminadas um pouco por todo o país.

Portanto, não tenho rigorosamente nada a ganhar por escrever, com as letrinhas todas, que João Diogo Manteigas é o futuro do Sport Lisboa e Benfica. Nem euros, nem público (muito pelo contrário), nem cargos, nem sequer pagamento simbólico por este texto. Faço-o por imperativo categórico.

E acrescento que Manteigas não é a melhor opção, é a única. Lamentavelmente, sou adepto do clube com o maior número de idiotas do país. Comentário que já – claro – me valeu ameaças de morte. Renovadas decerto agora, e muito provavelmente nesta mesma caixa de comentários. As contas, contudo, deveriam ser simples de entender: em proporção, é evidente que o clube com mais sócios e adeptos naturalmente também será o clube com maior taxa de iliteracia militante e grunhismo terminal. Mas tentem lá explicar isto a quem ainda oferece oportunidades reais, segundas vidas e sondagens fortes a seres como Vieira ou Costa. O Benfica não precisa de inimigos, é o seu maior. Escrevo estas linhas enquanto ouço o relato do Newcastle-SLB, mais um testemunho claro e óbvio, o enésimo, de um gigante a definhar. Uma morte lenta que se arrasta desde o Vieirismo galopante e a sequela proporcionada por esse inenarrável sucessor – que não viu, não leu, não soube, não testemunhou, não quis, não escolheu, “só” assinou. É – para quem aprendeu a amar o Glorioso desde a tenra infância – o equivalente ao colapso do Império Romano, a decadência, a negação da identidade, o atentado aos valores fundacionais, tão cristalino que chega a ser chocante como ainda subsistem tantos negacionistas (ainda que alimentados por um exército de bots pagos com o dinheiro do clube, refém de personagens sem escrúpulos).

Estive com João Diogo Manteigas em Setembro do ano passado – quando se chegou à frente muito antes de todos os outros. Tive a honra de apresentá-lo como candidato aos órgãos de comunicação social, o orgulho de vê-lo responder – sem hesitar – a todo e qualquer dossier ao longo desta campanha, a alegria de ler um programa eleitoral com o eco claro dos muitíssimos encontros que manteve com sócios um pouco por todo o território.

Declaração de interesses: nas últimas eleições, apoiei Noronha e não me arrependo. O que veio depois (imediatamente depois) é que é inaceitável. Passar uma borracha sobre urnas desaparecidas e Casas do Benfica instrumentalizadas, e a seguir desaparecer durante anos, deixou-o apresentado para estas eleições – as mais decisivas da História nascida do sonho de Cosme Damião. João Diogo Manteigas tem 43 anos, menos 5 do que este escriba, mas não precisa de lições de ninguém e tolera muitos, mas muitos mais insultos e ameaças do que eu. As muitas horas que passámos juntos, o seu domínio sobre todo e qualquer tópico relacionado com o nosso amor de infância, a paixão que demonstra a cada passo é a única susceptível de reanimar a minha. Sim, porque estes anos todos têm sido tão penosos que limitei-me a ouvir o relato de um jogo de Champions (e a dedilhar em simultâneo), algo absolutamente impensável durante a esmagadora maioria do meu quase meio século de vida.

Se João Diogo Manteigas não vencer agora, está imediatamente hipotecado o futuro. Perde-se a oportunidade de ter um dos nossos, com tudo o que o SLB precisa, ao leme – para enfim conduzir-nos no rumo certo.

Basta do Benfiquinha 03. Devolvam-nos o mais antigo amor das nossas vidas. #OUTubro

Não deixem para amanhã o que podem começar a recuperar hoje. O Benfica é nosso e há-de ser.