Houvesse certeza e confiança naquilo que os líderes partidários dizem e na próxima quarta-feira seria apresentada e chumbada uma moção de confiança, o que levaria à queda do Governo. Escrevemos, porém, com as ressalvas que se impõem, porque o volte-face, não estando eminente, não será de descurar.

Com efeito, por muito que se tenha discutido a Spinumviva e o eventual contágio ao Primeiro Ministro, julgamos que ainda ninguém terá colocado a questão que verdadeiramente importa: a quem é que interessa esta crise política?

Já há muito se percebeu que não houve nada de ilegal, de irregular ou de errado na conduta de Montenegro. A questão situa-se, apenas, no plano político e de uma ética e moral que os paineleiros de serviço vão moldando a gosto, esticando ou encurtando os limites em função das conveniências e dos visados. É que, independentemente da opinião que possamos ter a este respeito, certo é que a informação era pública e tinha mais de 10 meses. Porquê, então, criar uma notícia agora?

Vamos a factos e o leitor logo tratará de ligar os pontos:

Facto 1: Pedro Nuno Santos jogaria a sua sobrevivência política nas próximas autárquicas e, é praticamente certo que perderá votos e mandatos face a 2021. E isso nem sequer terá directamente a ver com a sua liderança, mas decorre do facto do magistério de Costa ter representado os melhores resultados de sempre dos socialistas no que toca ao poder local. Restar-lhe-ia, pois, apresentar vitórias nas duas maiores cidades resgatando-as novamente para o eleitorado rosa, sem esquecer Coimbra e Aveiro – o que não se afigura, de todo, fácil. Há todo um PS dentro do próprio partido a aguardar, silente, pela derrota para que possa eleger um líder mais moderado e recentrar o partido. O mesmo PS que apoia António José Seguro…

Facto 2: 40% dos eleitos atingem o limite de mandatos, pelo que, forçosamente, os partidos terão que apresentar novos candidatos. No PS e no PSD essa mudança atingirá cerca de um terço dos actuais autarcas em funções. Já no PCP a percentagem quase que dobra, sendo que o cenário é tão mais problemático quanto é manifesta a falta de quadros nas estruturas comunistas…

Facto 3: O Chega tem vindo a estar debaixo de fogo nas últimas semanas por terem sido tornados públicos diversos problemas (com a justiça!) dos seus eleitos. Os casos acumulam-se e têm, sobretudo, o condão de ferirem o partido de Ventura naquilo que este mais defende: a seriedade. Ora, se, por um lado, se tem vindo a demonstrar que o Chega não é mais sério que qualquer um dos que critica, o caso de Miguel Arruda pôs a nu o que jamais se imaginaria – que, afinal, André Ventura não tem mão sobre os seus deputados; por outro lado, amplificou o que poucos desconfiavam – à excepção de cinco ou seis elementos, o resto do partido é de fraquíssima qualidade, lamentando os eleitores que seja gente deste calibre que os represente. Isto, aliado ao facto de o Governo ter cavalgado algumas das suas bandeiras com aparente sucesso, tem vindo a diminuir as intenções de voto, pelo que urgia tomar medidas…

Facto 4: Os partidos à esquerda, nomeadamente PCP e Bloco, têm as representações parlamentares mais fracas de há muitos anos a esta parte. Tal tem implicações directas e nefastas nas suas dotações orçamentais, sabendo-se que, em ambos os casos, as estruturas partidárias são pesadas, sendo a Assembleia da República a principal via para assegurar trabalho a grande parte dos seus assalariados. Aguentar este cenário por mais três anos, levaria a graves problemas de tesouraria e de gestão. Ambos os líderes estão convencidos que, dificilmente, terão piores resultados…

Facto 5: Mariana Mortágua vê-se a braços com diversas (e importantes) demissões dentro do Bloco. O episódio dos recibos verdes pouco ajudou e o anúncio da candidata a Lisboa não despertou qualquer interesse junto do eleitorado bloquista, pelo que líder enfrenta a mais séria contestação desde que o BE existe…

Facto 6: Gouveia e Melo será, quase seguramente, candidato à Presidência da República e, de acordo com as sondagens, ganhará, pelo que, mais do que nenhum partido poder reclamar vitória todo o processo de apoios ou escolhas de candidatos será penoso e trará profundas clivagens, sobretudo dentro do PS…

Facto 7: Marcelo só poderá exercer a prerrogativa de dissolver a Assembleia da República até Junho. Após essa data, tendo em conta que serão os últimos seis meses de mandato, a Constituição já não o permite…

Facto 8: A crer nas sondagens, o Governo estaria a fazer um bom trabalho e a coligação a distanciar-se, cada vez mais, do PS nas intenções de voto…

Daí que se pergunte, quem quis fazer um caso político de uma situação idêntica a tantas outras na nossa democracia? Independentemente de, num juízo de lógicas e probabilidades, podermos achar que foi A, B ou C, certo é que o mentor nunca terá imaginado as consequências da sua deriva. Primeiro, porque, ao contrário do expectável, Montenegro alimentou a narrativa, enredando-se em explicações que manifestamente não tinha que dar, mas fazendo com que as mesmas parecessem sempre insuficientes. Segundo, porque houve um amadorismo gritante na forma como o PSD e o Governo lidaram com esta questão. Terceiro, porque a comunicação social perdeu a noção, a decência e o decoro e cavalgou o caso muito para além do interesse jornalístico, pessoalizando-o, entrando em esferas privadas e atacando o carácter e idoneidade do Primeiro Ministro. Depois porque os restantes partidos, ainda que por motivos diversos, apadrinharam a narrativa, levando-a a extremos discursivos, primeiro, e regimentais, depois.

O PS, embora seguisse a narrativa, nunca pode (nem poderá!) sancionar uma moção de censura ao Governo, neste momento e por estes motivos, desde logo porque Pedro Nuno Santos esteve envolto em situações idênticas e até mais graves já que a empresa do seu pai (e do qual PNS foi sócio) beneficiou de apoios do Estado, através de fundos europeus, quando o agora secretário geral era governante. Esta e outras questões éticas que pairam sobre Pedro Nuno e outros insignes socialistas seriam (e serão, seguramente!) o centro da discussão nas legislativas, tornando muito difícil explicar aos portugueses porque é que se fez cair um Governo quando o caudilho socialista pratica os mesmos pecados. Por isso é que o PS votou contra a moção de censura e por isso é que pretende, à viva força, uma comissão parlamentar de inquérito. Não para esclarecer o que quer que seja – até porque tinha outros meios regimentais e procedimentais para o fazer – mas porque pretende ir cozinhando Montenegro em lume brando, sabendo que a comissão de inquérito estaria concluída em Junho e que poderia, juntamente com os restantes partidos, usar as suas conclusões como arma política para pressionar Marcelo a dissolver o Parlamento. Mais do que ganhar o tempo que hoje não tem para preparar uma estratégia e uma campanha, teria o argumento que tudo tentou fazer para evitar este desfecho e que o mesmo foi ditado pelo juízo e análise do Presidente relativamente ao prestígio e bom funcionamento das instituições democráticas.

Apesar das falhas comunicacionais e de explicações questionáveis, Montenegro percebeu que manter-se em funções permitindo que esta estória fosse uma sombra permanente sobre a actuação do Governo, seria suicidário e que ficaria refém de toda a oposição e dos períodos noticiosos, numa escalada impossível de conter ou de contrariar. Note-se, por exemplo, na desvirtuação que a comunicação social e Pedro Nuno Santos fazem ao referir que o Primeiro Ministro foi avençado de empresas privadas durante o seu mandato. Todos sabemos que isso não é verdade, mas o adjectivo encerra uma carga negativa tão pesada que dificilmente se deixará de colar à pele… Não foi uma expressão de acaso ou uma infelicidade de pena à falta de outros sinónimos. Foi estratégico, pensado e encomendado, bem se sabendo o soundbyte que isso constitui. Fez bem Montenegro em estancar aqui a questão, não permitindo que a mesma se perpetue nos jornais e numa comissão de meses. Jogou tudo, é certo, sendo que ao PSD é a quem menos interessaria ir a eleições hoje e, nomeadamente, numa situação em que o seu líder está sob suspeita. Mas tinha que o fazer. Tinha que sair da lama da politiquice e procurar um novo fôlego e uma nova legitimação junto do povo. E fê-lo, não apresentando a sua demissão, mas submetendo a decisão ao Parlamento.

Será quarta-feira. Mas o resultado é (ainda) incerto.

Importava desgastar o Governo, minar a opinião pública, perpetuar um ataque ao carácter, seriedade e probidade de Montenegro. Mas a estratégia apontava para outro calendário que não este. É que se a crise política e o clima de suspeição poderia interessar quer ao PS quer ao Chega, um cenário de eleições não é da conveniência de nenhum deles. Porque não era apenas o Governo que estava a ser cozinhado em lume brando, era também o povo até ficar em ponto rebuçado. E o povo esta gente (ainda) não controla…