A 16 de fevereiro, o Kremlin anunciou a morte do seu principal opositor interno, Alexei Navalny, depois de o condenar, em 2021, a 19 anos de prisão por “incitação ao extremismo”. O local da sua morte, o campo penal IK-3, acima do Círculo Polar Ártico, é conhecido por extensos relatórios de tortura pelas autoridades. Um ano antes do seu regresso voluntário à Rússia, o político havia sido envenenado na Alemanha com o agente nervoso Novichok, a mesma arma química usada pelos serviços secretos russos para assassinar o ex-espião Sergei Skripal e a sua filha. Três dias depois, Yulia Navalnaya, viúva de Alexei, constatou o óbvio – Putin matou Navalny – e jurou continuar a sua obra. A coragem de Alexei Navalny é inquestionável e imensa. O seu trabalho de décadas, que consistiu em expor a corrupção endémica que alimenta o regime de Vladimir Putin e consciencializar a população russa em direção a uma plataforma de oposição concreta, é louvável. Porém, não venho louvar César, venho enterrá-lo.
O passado de Navalny é conveniente tanto para o Kremlin como para os seus idiotas úteis no Ocidente, que desde o início da invasão ilegal da Ucrânia se aproveitam do termo “nazi” para descrever todo e aquele que se levanta contra o imperialismo moscovita. Mas reconhecer tal deturpação não apaga o facto de que Alexei Navalny marchou três vezes lado a lado com ultranacionalistas contra a imigração de muçulmanos da Ásia Central e do Cáucaso. A bandeira negra, amarela e branca, que representou a Rússia czarista entre 1858 e 1883 e se tornou associada à extrema-direita, esteve omnipresente. Em 2007, Navalny foi expulso do partido liberal Yabloko e fundou o movimento etnonacionalista NAROD, em nome do qual participou num conhecido vídeo em que compara imigrantes do sul do Cáucaso a “moscas e baratas” cujo “remédio” é uma arma. Um ano depois, no seguimento da invasão da Geórgia, advogou a deportação de todos os georgianos e descreveu-os como “roedores”. Embora tenha pedido desculpas pelos seus a década seguinte Navalny teve oportunidades para renunciar ao seu ultranacionalismo. Ele não o fez.
No que diz respeito à guerra que a Rússia inflige à Ucrânia desde 2014, Alexei Navalny reconheceu publicamente que a anexação da Crimeia se realizou em flagrante violação das normas internacionais. Nessa mesma entrevista, admitiu que a península não iria regressar facilmente às mãos de Kyiv e que não era “uma sandes que se passa de uma mão para outra”. No seu blog, opositor e governo repetem o mesmo mito mediante à Crimeia, que esta era russa até Nikita Khrushchev a “entregar” à Ucrânia. Por outro lado, a presença militar russa no Donbas e a fabricação das “repúblicas populares” mereceram a sua condenação, comprometendo-se a honrar os acordos de Minsk caso eleito presidente. A invasão em grande escala que se viu em fevereiro de 2022 também foi alvo de repúdio e, no ano seguinte reconheceu, finalmente, as fronteiras ucranianas de 1991, Crimeia incluída. Mesmo assim, é mais que natural que para os ucranianos Navalny e a sua equipa sejam vistos com elevada suspeita, tendo em conta a quantidade de inconsistências que marcam a posição destes tanto sobre o futuro da Rússia como das relações russo-ucranianas.
Não sabemos o que seria Alexei Navalny como presidente da Federação Russa. Podíamos dizer que lideraria um esforço coletivo do povo russo em condenar o seu passado imperial e reconstruir as relações com os seus vizinhos. Podíamos, de igual modo, suspeitar que procederia a uma lavagem cosmética do aparelho de Estado russo e, enquanto reatava laços comerciais com o Ocidente, preparava-se para, novamente e de forma mais eficaz, tentar reconstruir o império pela força. Afinal, foi isto que sucedeu com Yeltsin e Putin.
Mas eis o que sabemos. Depois de cerca de 17 mil mortos e mais de 400 tanques e veículos blindados, a Rússia tomou a cidade de Avdiivka. Antes da guerra, a cidade tinha quase 32 mil habitantes, uma população semelhante a Espinho ou Odemira. Atualmente, estima-se que restem pouco mais de mil. Sabemos também que o avanço russo, embora bastante custoso, se deve principalmente ao bloqueio, por parte dos congressistas republicanos, do envio de munições de artilharia às forças ucranianas pelos EUA. Mais uma vez, a fraqueza ocidental (para não dizer sabotagem) convida a agressões futuras. Putin invadiu a Ucrânia porque pôde, Putin tomou Adviivka porque pôde, Putin matou Navalny, adivinharam, porque pôde. Em 2022, a contraofensiva ucraniana que retomou Kherson e Kharkiv demonstrou – ou devia ter demonstrado – de vez que, com as ferramentas certas, as forças ucranianas são capazes de defender o seu território. Contudo, no ano seguinte, a hesitação dos EUA e da Europa permitiram o reforço das linhas de defesa russas e à frustração da contraofensiva ucraniana nesse verão. Mesmo depois do caminho para a vitória se revelar de forma clara, o potencial regresso de Donald Trump e o crescimento em popularidade da ultradireita pró-russa na União Europeia ameaçam desfazer todos os ganhos até agora.
Com a morte de Alexei Navalny o futuro da oposição russa a Putin é incerto. Com sorte, o homem dará lugar ao mártir, que na morte dará mais vida à ideia de uma Rússia livre e pacífica. Mas o Ocidente não tem tempo para esperar por um muito improvável levantamento pró-democracia que magicamente lhe retirará o peso das costas. Se queremos honrar a memória de Navalny, é essencial manter-nos amarrados à verdade, reconhecer o seu passado e não o elevar à condição de santo. Ao mesmo tempo, como afirma Mikhail Khodorkovsky, é preciso endurecer a resposta a Vladimir Putin e negar qualquer legitimidade a ele e ao seu regime. Acima de tudo, o objetivo principal em mãos deve ser a derrota total e radical das forças russas na Ucrânia e, eventualmente, o derrube do regime russo. Diálogos sobre o futuro da Rússia vêm depois. Os cravos são hoje símbolos poderosos, mas foram as armas do MFA que derrubaram o Estado Novo.