François Heisbourg, conselheiro sénior do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, escreveu em fevereiro que, no início do milénio, a guerra tinha-se tornado para os europeus algo que apenas acontecia aos outros. Se participássemos nela, era por opção. Debates sobre autonomia estratégia já existiam, mas de modo geral não saíam das tertúlias. A NATO (leia-se, os Estados Unidos) permaneceu até agora responsável pela segurança e defesa do continente europeu. Como é sabido, a sobrevivência desse entendimento é cada vez mais incerta.

Numa entrevista ao Die Welt, Donald Tusk, primeiro-ministro polaco, afirmou que a invasão em grande escala da Ucrânia pela Rússia deu lugar a um período de pré-guerra, uma situação não vista em solo europeu desde 1945. A Polónia apresenta-se a médio e longo prazo como a principal força militar da NATO na Europa, não só por investir 4% do PIB em defesa, mas através do recrutamento de 150 mil efetivos até ao final da década – duplicando as suas forças – e da compra massiva de hardware militar (um total aproximado de 20 a 30 mil milhões de euros em tanques, artilharia pesada, caças, etc.) norte-americano e sul-coreano. A este esforço hercúleo acresce o apelo do presidente Andrzej Duda em aumentar o compromisso atlântico de 2 para 3%, embora cerca de metade dos aliados falhem em atingir o limite atual, Portugal inclusive. Um investimento deste calibre, no entanto, levanta questões sobre a capacidade da economia polaca em aguentá-lo. Por agora, quer o público quer os governos mantém-se otimistas.

O ex-presidente da Comissão Europeia tem nas suas mãos, assim, continuar o investimento na defesa e remendar os danos do ex-partido de governo, o nacional-conservador Lei e Justiça, tanto a nível das instituições democráticas internas como das relações com a União Europeia. É neste contexto que Tusk se deslocou a Berlim para a ressurreição do “Triângulo de Weimar”. O Triângulo surgiu em 1991, fruto do então MNE alemão, Hans-Dietrich Genscher. O seu fim era continuar a política alemã de aproximação a Leste e reenquadrá-la com a implosão do império soviético. À tradicional parceria franco-alemã somava-se um terceiro membro, a Polónia, dando voz à Europa pós-comunista na sua aproximação ao projeto comunitário. Findo o recreio populista de 2015-2019 e a tentativa de captura do poder judicial e da comunicação social pelo Lei e Justiça, Donald Tusk surge como o “adulto na sala”. Contudo, a sua cedência aos protestos de agricultores contra as políticas ambientais europeias e a importação de cereais ucranianos pouco agradará a Bruxelas e muito menos a Kyiv, tendo em conta os meses de bloqueio da fronteira com este país e a destruição de toneladas de cereais pelos protestantes. Em contexto de guerra existencial, a memória do Holodomor permanece viva nos ucranianos.

A urgência dos governos polacos tem eco na ação de Ursula von der Leyen. A apresentação da primeira Estratégia Industrial de Defesa Europeia pela Comissão e pelo alto representante visa responder a uma das maiores prioridades para a defesa e segurança comunitária: o desenvolvimento e aquisição de armas na Europa e para a Europa, identificando projetos de interesse comum aos Estados-membros da UE e reduzindo a dependência de atores externos como os Estados Unidos. Os maiores obstáculos desta iniciativa, escreve Sophia Besch para o Carnegie Endowment for International Peace, são a habitual falta de unanimidade e as incertezas sobre como irá Bruxelas angariar os fundos necessários, dependendo quer da composição futura do Parlamento Europeu, quer dos caprichos dos Estados-membros.

Um recém-converso à causa da vitória sobre a Rússia é o presidente francês Emmanuel Macron, que parece finalmente reconhecer a futilidade de apaziguar e manter canais diplomáticos com a Rússia de Putin. Na conferência internacional organizada em Paris a 26 de fevereiro, Macron frisou a imperatividade da derrota russa na Ucrânia para o futuro da segurança europeia e não excluiu a hipótese futura de tropas ocidentais em solo ucraniano. As declarações do presidente francês, por muito temor que causem a países mais receosos de escalar as tensões com Moscovo, como a Alemanha, foram bem recebidas pelos aliados a Leste, sobretudo a primeira-ministra estónia Kaja Kallas e o MNE lituano Gabrielius Landsbergis. O especialista do Center for European Policy Analysis, Edward Lucas, elogia a coragem de Macron em quebrar tabus mediante ao esforço de guerra e responder à premissa de vitória russa assente na perpétua fraqueza e divisão interna do Ocidente. Com este volte-face, Paris procura reivindicar para si o papel de potência líder de uma União Europeia cada vez mais entranhada na geopolítica futura, procurando evitar ser suplantada não só pela já mencionada Polónia, mas também pela Alemanha.

Esta última situa-se numa posição curiosa. Por um lado, a Alemanha é a maior fonte na União Europeia de apoio a Kyiv, contribuindo cerca de 56 mil milhões de euros em apoio financeiro total, segundo fontes oficiais (12 mil milhões em apoio militar, 26 em apoio humanitário, ambiental, cultural, etc.). Por outro, aponta o especialista do Conselho Alemão em Relações Externas, Benjamin Tallis, a hesitação de Olaf Scholz em comprometer-se para com a vitória da Ucrânia levou a que o PSD alemão não fosse visto como parceiro de confiança no exterior e na sua coligação de governo. Não é difícil encontrar exemplos, desde a relutância em enviar equipamento militar essencial, nomeadamente mísseis Taurus e, até recentemente, tanques Leopard. Não menosprezando a magnitude do esforço prestado até agora, Scholz precisa de deixar claro, como já o fez Macron, Tusk, von der Leyen e outros, que é no seu interesse que a Ucrânia vença, custe o que custar.

Podia terminar a minha pequena reflexão aqui. Podia também realçar o papel de outros Estados, como a Roménia, a República Checa ou os países dos Bálticos. Fica para outra altura. Não posso é deixar de opinar sobre o mais recente discurso em voga sobre um putativo regresso do Serviço Militar Obrigatório em Portugal. Dos países aqui mencionados, à data, só a Estónia, a Lituânia e a Ucrânia o possuem. Não foi, de forma alguma, mencionado durante a campanha eleitoral. Não é, de forma alguma, uma componente imperativa à reforma das capacidades de defesa da Europa. Não mitiga, de forma alguma, a lista de dilemas a resolver relativamente às capacidades das Forças Armadas de Portugal. Muito menos contribui para cumprir a promessa feita a todas as gerações e que à minha é sistematicamente negada: uma vida melhor que a dos nossos pais como recompensa do nosso trabalho e estudo. Numa altura em que a confiança nas instituições públicas está muito fragilizada, não temos meios nem necessidade de hipotecar o futuro dos jovens portugueses.

A Europa é muitas vezes usada como argumento de autoridade para propostas nacionais. A política externa de Portugal, ao longo dos séculos procurou equilibrar as identidades atlântica e europeia. Se quisermos um compromisso ativo na defesa destas – ênfase forte no “se” – não nos faltam exemplos.