Salvo os distintos tons de cinzento, existem duas formas de um responsável político exercer o poder. Uma delas prende-se com a ideia de utilizar a política, para agir na sociedade com vista à sua transformação para melhor, entrando estes políticos na categoria de estadistas. A outra forma, é a da gestão que o mordomo faz da casa do seu senhor. Não muda nada, não melhora nada, não transforma nada, apenas se resume a gerir o orçamento.

No pós 25 de Abril, todos os responsáveis políticos, sem exceção, perceberam a necessidade da efetuar profundas transformações na sociedade portuguesa. Nessa época, as ideias que congregaram mais vontades, foram as que levariam Portugal para a entrada na então CEE, tendo as negociações começado em 1977.

Em 1983, Mario Soares toma conta do governo numa situação de emergência financeira, o que o leva a pedir a ajuda do FMI. As duras reformas estruturais exigidas pelo Fundo e pelos Critérios de Copenhaga, criaram as condições para a transformação do país.

Em 1985, Cavaco Silva torna-se primeiro-ministro, numa situação mais favorável do que aquela que se vivera dois anos antes. Mas em vez de querer repor a situação em que o país estava antes de 1983, resolveu olhar para o futuro. Nos dez anos de Cavaco Silva como primeiro-ministro, Portugal beneficiou de condições políticas, sociais e económicas que levaram à transformação da sociedade portuguesa.

O que se passou nos consulados de Mário Soares e Cavaco Silva, deveria constar nos manuais de ciência política de como deve ser governado um país. Esta intervenção do FMI é um dos melhores exemplos que esta organização tem no seu curriculum. Isto porque depois da partida do Fundo Monetário Internacional, os governos não refizeram as asneiras que tinham conduzido o país para o desastre. Mário Soares e Cavaco Silva tiveram coragem política para fazer aquilo que era certo, mesmo que muitas vezes tivesse sido impopular.

Tal como em 1985, em 2015, estavam também reunidas as condições para se encetar um período de transformação da sociedade portuguesa. Depois de Passos Coelho ter arrumado a casa e levado acabo importantes reformas estruturais, com uma conjuntura externa muito favorável, Portugal tinha quase tudo para mudar de vida. O único problema, foi ter no PS alguém como António Costa. Derrotado nas eleições de 2015, o líder socialista resolveu ser primeiro-ministro apenas para salvar a sua carreira política. Dominado por uma fação de extrema-esquerda, o PS levou a cabo uma serie de políticas que destroçaram o país. O fracasso de António Costa deveu-se à reversão das reformas estruturais do tempo de Passos Coelho e à sua falta de espírito reformista. Chegou mesmo a dizer: “A expressão ‘reformas estruturais’ arrepia-me”. O primeiro-ministro socialista comportou-se como um mordomo. Fez apenas a gestão corrente da casa do patrão.

Passados todos estes anos e perante o fracasso socialista, era expectável que o governo do PSD tivesse a noção de que o país precisava de um governo com ambição. Mas não é nada disso que está a acontecer. Luís Montenegro ainda disse que o seu grande modelo de governação era Cavaco Silva, mas a realidade mostra outra coisa. O seu verdadeiro modelo de governação é António Costa.  O PSD está mais situacionista do que nunca. O único sector em que realmente está a querer mudar alguma coisa, é no controlo de fronteiras. Isto porque sabe que vai ganhar votos. Miranda Sarmento está a preparar-se, para tal como Mário Centeno, levar a cabo uma política de cativações da despesa pública. Tal como o ministro das finanças socialista, usou as folgas orçamentais para comprar os lóbis da administração pública.

Luis Montenegro constará nos manuais de ciência política como o criador do Montecostismo. Uma ideologia que consiste estar em campanha eleitoral permanente, anúncios inócuos sem adesão à realidade e que por esse motivo falharam ou vão falhar rotundamente. Esta ideologia caracteriza-se por um enorme aumento da despesa pública, sem que isso se transcreva num aumento da qualidade dos serviços prestados pelo estado. Em suma, Luis Montenegro é o António Costa da direita.

A redução exígua de impostos, é outro aspeto do Montecostismo. Não é possível uma efetiva redução de impostos, porque para isso seria necessária uma verdadeira reforma fiscal, abrangente e programada no tempo. Começam a ficar evidentes os truques que Miranda Sarmento está a fazer para encapotar os problemas orçamentais. Tal como Mário Centeno, o atual ministro das finanças espera que algum crescimento económico futuro e a inflação, dissimulem a falta de ambição do presente.

A saúde é talvez o melhor exemplo daquilo que é o Montecostismo. Marta Temido transtornada por ouvir demasiadas vezes o hino da Internacional, transformou o ministério da saúde num cemitério de ministros. O sistema está tão degradado que ninguém irá conseguir fazer um bom lugar, enquanto não forem implementadas medidas estruturais. É por isto que a atual ministra está num atoleiro. Como não reformou nada, o sistema continua no trilho do comboio descendente.  Dou um exemplo. Faz algum sentido que os médicos façam tão poucas cirurgias durante o horário de trabalho, quando comparadas com aquelas que são feitas com recurso ao SIGIC?  Só um sistema de saúde público, que obtém as suas receitas de forma coerciva (impostos), consegue trabalhar desta forma absurda. O Montecostismo fez muitas promessas (médicos de família, fim das listas de espera, etc.), mas só entregou aumento da despesa.

A educação é outro exemplo da continuidade de políticas entre António Costa e Montenegro. Será que ainda ninguém deu conta, que o sistema de colocação é o principal responsável pela falta de professores? Fernando Alexandre é talvez o mais competente ministro da educação das últimas décadas. Não tenho dúvida nenhuma, que sabe o que tem de fazer para levar a cabo importantes transformações no nosso sistema de ensino. Mas se não tiver respaldo do primeiro-ministro para enfrentar o PCP (Fenprof), vai ficar enredado nas teias de interesses necrófagos que sobrevoam o sistema de ensino público.

O que é que já foi feito na Segurança Social? O sistema de pensões caminha para uma situação em que irá ser a miséria das futuras gerações. O Montecostismo mercantilizou os votos dos reformados. Caberá aos jovens que servem de passe-partout a Montenegro nas ações de propaganda, a responsabilidade de pagar esta fatura. A pintura O Grande Dilúvio, de Joseph Désíré Court (1827), resume bem como o Montecostismo vê o país. Tal como o homem da pintura, que deixa morrer a mulher e o filho para salvar o pai, também o Montecostismo abdica do futuro para salvar o passado. O mesmo é dizer, para salvar as suas carreiras políticas.

A cereja no topo do bolo é o nado-morto Ministério da Reforma do Estado. Depois da tomada de posse nunca mais ninguém ouviu falar dele.

Se o atual primeiro-ministro continuar a mimetizar o seu antecessor, podemos vir a ter catorze anos de Montecostismo. A única mudança aceite por esta ideologia, é que foi proposta pelo príncipe de Falconeri, no livro O Leopardo, do escritor italiano Giuseppe Tomasi di Lampedusa: “Tudo deve mudar para que tudo fique como está”. Entretanto o tempo passou, a nossa vida passou, mas o país continua na mesma.  Perante a falta de anestesistas no SNS, o Montecostismo resolveu anestesiar o país inteiro.