Porque é que os comentadores dos media regimentais europeus e americanos não conseguem compreender o que Donald Trump está verdadeiramente a fazer? Não é incompetência e muito menos o caos anunciado, nem a excêntrica imprevisibilidade de um populista sem bússola.
O que Donald John Trump está a fazer é a dar baile. É estratégia, e é muito antiga e americana até à medula, que os analistas não reconhecem porque nunca a estudaram pois a narrativa nunca foi deliberadamente ensinada.
A estratégia tem nome e chama-se de Sistema Americano. E tem um pedigree que vai até à sua fundação como nação: Alexander Hamilton e Henry Clay garantiram a Independência económica Americana do inimigo inglês, exemplarmente replicado 100 anos depois por Lincoln e que lhe permitiu garantir a integridade territorial americana com a vitória sobre os separatistas apoiados por Londres e finalmente exponencialmente expandida por William McKinley que transformou a América no verdadeiro colosso industrial e financeiro no final do século XIX. Com este sistema emergiram os Elon Musk e Jeff Bezos da altura em Thomas Edison, George Westinghouse e Nikola Tesla. Homens ilustres que construíram e consolidaram os alicerces da maior potência industrial da história. Homens convenientemente esquecidos quando, a partir dos anos 1970 e com aceleração nos anos 1990, Washington decidiu que a América tinha feito o suficiente e que o futuro era a globalização gerida pelos serviços financeiros de Wall Street e pelos contratos de outsourcing com o Partido Comunista Chinês.
Isso é exatamente o modelo que Trump está agora a demolir. E os comentadores, em Lisboa, em Paris, em Berlim, em Bruxelas, e um pouco por todo o lado não conseguem sequer descrever corretamente o que estão a ver.
Os números, que os comentadores nem procuram saber: No primeiro trimestre de 2026, a produção industrial americana atingiu o nível mais alto desde 2019. O ISM Manufacturing PMI registou 52,7 em março de 2026, terceiro mês consecutivo de expansão, depois de dois anos de contração. A produtividade no sector produtivo cresceu 1,9% em 2025, o maior aumento anual desde 2010, e 3,2% no primeiro trimestre de 2026 em termos anualizados. As encomendas de bens duráveis subiram 8,2% em 2025, sinal de antecipação de investimento produtivo. O índice de produção industrial está 2% acima do nível de 2024, depois de anos de contração.
Na balança comercial, o Bureau of Economic Analysis (BEA) registou que o défice acumulado de bens e serviços caiu $213,5 biliões de USD (192 mil milhões de euros) nos primeiros quatro meses de 2026, uma redução de 49,1% face ao mesmo período de 2025. As exportações americanas subiram 11,3% e as importações recuaram 5,5%. O défice mensal em abril de 2026 foi de $55,9 biliões de USD (50,3 mil milhões de euros), significativamente abaixo dos picos de 2024 e do início de 2025. O Investimento Direto Estrangeiro nos Estados Unidos totalizou $232,2 biliões de USD (209 mil milhões de euros) em 2025, um aumento de 49,5% face a 2024. E o PIB real cresceu 1,6% em taxa anualizada no primeiro trimestre de 2026, com as exportações, o investimento e o consumo como principais contributos. Estes não são números de um império em declínio. São números de uma economia a (re)industrializar-se.
O Orçamento da Defesa (Guerra) que não é um Orçamento da Defesa (Guerra)
Quando o Presidente propôs um orçamento de defesa de $1,5 triliões de USD (1,35 biliões de euros), um aumento de 42%, o maior desde a Segunda Guerra Mundial, a resposta imediata dos analistas foi: mais imperialismo, mais militarismo, mais evidência de um Estado imperial a entrar em colapso sob o peso dos seus próprios excessos. A tese do declínio imperial, citando Tácito e a queda de Roma, instalou-se confortavelmente nas colunas de opinião de meio mundo.
Análises recentes, produzidas fora dos circuitos académicos convencionais e fundamentadas pela legislação em discussão no Congresso, articulam com precisão o que está de fato a acontecer: de $1,5 triliões de USD (1,35 biliões de euros), $750 biliões de USD (675 mil milhões de euros) destinam-se a reconstruir o ecossistema industrial americano e assim ajudar a reconstruir a capacidade produtiva americana que a globalização destruiu. Um verdadeiro Banco de Fomento que o novo Governador da Reserva Federal e o Secretário do Tesouro vão trabalhar em tandem para assegurar que seja executado.
O mecanismo é hamiltoniano na sua arquitetura. O Office of Strategic Capital, um organismo que a maioria dos comentadores nunca ouviu sequer falar, passa de um orçamento de 2 biliões de USD (1,8 mil milhões de euros) para 20 biliões de USD (18 mil milhões de euros) anuais, com capacidade para emprestar até $200 biliões de USD (180 mil milhões de euros) a pequenas e médias empresas de alto valor acrescentado americanas. O Defense Production Act, que dá ao governo o poder de dirigir empresas privadas para prioridades nacionais, recebe $30 biliões de USD (27 mil milhões de euros), cem vezes mais do que no ano anterior, com foco em minerais críticos, terras raras, fundição e energia nuclear. A construção naval recebe $65 biliões de USD (59 mil milhões de euros), o maior investimento desde 1962.
Nada disto é invenção de Trump. FDR fez exatamente o mesmo entre 1941 e 1945, mas com um grau de sigilo pouco enfatizado. A War Production Board reconverteu silenciosamente fábricas de automóveis em linhas de produção de tanques e bombardeiros. Os estaleiros multiplicaram os Liberty Ships a um ritmo que o inimigo só começou a compreender quando já era demasiado tarde. A dimensão real do que os americanos tinham construído, a verdadeira escala da máquina industrial que os havia derrotado, só ficou visível depois de vencida a guerra. Trump conhece a história. E está a usá-la: o único orçamento que Washington aprova sem demasiadas perguntas serve hoje, como serviu então, para reconstruir em silêncio aquilo que os adversários só entenderão quando já for tarde.
Isto não é um programa de armamento. É replantar o pomar que a globalização esquartejou e vendeu, fruta a fruta, durante cinquenta anos. É Paterson, a cidade em Nova Jersey, a cidade que Hamilton e os seus parceiros construíram do zero para ser um cluster da indústria têxtil e que acabou, sem que ninguém o tivesse planeado, a fabricar os motores que alimentaram os B-17 que ajudaram a vencer a Segunda Guerra Mundial.
Porque é isso que um ecossistema produtivo faz, um verdadeiro cluster: não é um produto, é capacidade, uma vez que tens os artífices, as fundições, os engenheiros e o know-how coletivo para resolver problemas em escala. É essa capacidade que a globalização destruiu. Não perdemos a capacidade de fabricar uma peça. Exportámos o pomar para importar a fruta. Os economistas chamaram-lhe eficiência, mas na realidade foi deliberado e uma verdadeira amputação de saber fazer e de destruição de valor a uma escala nunca dantes vista, como se fez em Portugal a partir do final dos anos 80 como “prémio” por termos entrado na CEE.
Afinal do que é que se trata? É a reconquista da soberania produtiva. É o que McKinley fez. É o que FDR fez quando converteu a economia americana em arsenal da democracia durante a Segunda Guerra Mundial, a uma velocidade e escala que deixou aliados e adversários em estado de choque, depois de terem perdido a Guerra. O Almirante Yamamoto bem o disse depois do feito do Porto das Pérolas: “temo que tenhamos despertado um monstro adormecido”.
E Xi melhor que ninguém sabe bem o significado das palavras do almirante japonês, porque estudou a fundo o tema e teme que o monstro possa ter despertado de novo.
O Eclipse Europeu não é uma Hipótese. É um Facto Consumado
Enquanto Washington está a arquitetar a maior reconversão industrial desde os anos quarenta, a Europa está a debater percentagens do PIB em contribuições para a NATO e a tentar perceber se a Alemanha se pode rearmar sem assustar os vizinhos. O contraste é confrangedor.
A Europa perdeu a janela. Perdeu-a quando decidiu que a energia barata russa era dispensável e que as cadeias de valor asiáticas eram vantagem competitiva e enviou todo o seu know how para ser copiado pelos chineses que agora nos suplantam precisamente no saber fazer. Perdeu-a quando escolheu a regulação como substituto da produção e a burocracia de Bruxelas como horizonte civilizacional. Perdeu-a quando os seus melhores economistas convenceram os governos de que a reindustrialização era retrocesso e que o futuro estava nos serviços de alto valor acrescentado, eufemismo para uma economia sem músculos que vive do turismo, da gestão de patrimónios, da exportação de marcas de luxo e da nostalgia de outros tempos, deixando-se ao mesmo tempo invadir por imigração indiferenciada e impreparada para se deixar assimilar nos valores europeus judaico-cristãos que nos identificam, e que nos custaram os olhos da cara de tanta luta e tanta privação.
O declínio do poder europeu não é ciclicamente reversível. É estrutural. As capacidades produtivas que se desmontaram em décadas não se reconstroem com legislaturas kafkianas de orçamentos deficitários em Bruxelas. Os ecossistemas industriais que se destruíram, da siderurgia ao automóvel, da eletrónica ao farmacêutico, não vão ressurgir por decreto. A Europa pode enunciar ambições industriais no papel mas deixou de ter o tecido humano de alto valor científico e tecnológico, que migra, com o capital, em números catastróficos para os Estados Unidos da América, para gaudio dos americanos que caminham à velocidade da nova ordem mundial de Inteligência Artificial.
E esta nova ordem está a definir-se agora, não daqui a dez anos.
Portugal, o Atlântico e a Oportunidade que não Podemos Desperdiçar
Portugal adquire aqui uma relevância que vai muito além do que o nosso peso demográfico ou económico justificaria de outra forma.
Portugal não é um país europeu que acontece por ter uma fachada atlântica. É um país atlântico que acontece estar à margem da Europa continental. E durante demasiado tempo, depois que perdemos a hegemonia geopolítica a partir do século XVII, e passamos a confundir as duas coisas, com o apogeu do esquecimento da nossa singularidade atlântica sempre que negociamos a agenda da integração europeia e esperamos pelas esmolas que Bruxelas se digna a nos devolver.
O 10 de Junho deste ano trouxe um sinal que o governo de Montenegro, fiel à sua habitual modéstia de ambição, não soube, ou não quis dar o devido ênfase, por querer manter a sua retórica pró Trump no limbo do crivo dos média do regime para não chamar atenção: tipo o jacaré do menino Zézinho que voa, mas baixinho:
A carta do Secretário de Estado Marco Rubio, partilhada publicamente pelo embaixador americano em Portugal, foi um gesto deliberado e incomum na praxis diplomática americana; Não é costume Washington fazer gestos públicos de reconhecimento a aliados mais pequenos, sobretudo em datas de cariz nacional simbólico; O facto de o ter feito, precisamente no Dia de Portugal, diz algo sobre como a administração Trump posiciona Lisboa no seu novo mapa estratégico; Dir-se-ia que Washington percebeu antes de Belém e de São Bento o que Portugal pode valer nesta nova geometria atlântica.
O Ministro Paulo Rangel tem sabido, com um pragmatismo que merece reconhecimento, independentemente das reservas que se possa ter face ao executivo que serve, manter as relações com Washington num registo de seriedade e proximidade que contrasta com a impostação que outros aliados europeus querem fazer valer; Portugal não jogou no populismo anti-Trump, e não se juntou ao coro reflexo de condenações que funcionou, nas capitais europeias, como substituto de política externa. Manteve canais abertos, manteve uma linguagem de aliança genuína, e está hoje em posição de capitalizar sobre isso, se houver vontade política à altura do momento.
O Hemisfério Ocidental está a reconfigurar-se. A América de Hamilton e McKinley, que Trump está a ressuscitar, precisará de parceiros que compreendam a lógica do projeto e que possam servir de ponte entre a nova ordem americana e a Europa que não quer perceber o que está a acontecer. Portugal é o candidato natural a esse papel.
Temos a localização. Temos as raízes atlânticas. Temos a CPLP como projeção no Sul Global. Temos os Açores como ativo geoestratégico que vale mais hoje do que em qualquer momento desde a Segunda Guerra Mundial. Temos uma relação histórica com os Estados Unidos que nenhum outro membro europeu da NATO reivindica com igual autenticidade, desde a sua fundação.
O que nos falta é a visão para o dizer em voz alta, e a ambição para o perseguir com determinação. Dentro da NATO, Portugal pode liderar o reposicionamento atlântico, não como periferia da Europa continental, mas como polo de uma geometria diferente, em que Lisboa é o nó que liga Washington a Bruxelas no novo desenho estratégico do Ocidente.
A história quase nunca oferece uma segunda oportunidade. O Ultimato de 1890 mostrou o que acontece quando não se têm alternativas construídas dentro de alianças bem alicerçadas. Desta vez, a janela está aberta. O Ministro Rangel tem as relações. O que falta é a decisão coletiva de perceber que estamos a assistir, em tempo real, à maior reconfiguração da ordem mundial desde 1945, e que Portugal pode estar do lado certo do novo mapa.
Trump não é a pessoa inculta, incapaz, impulsiva, e sem cérebro como os comentadores descrevem ad nauseam. É o homem que releu Hamilton, Clay, McKinley, FDR, JFK e que se rodeou de uma equipa que sabe muito bem o que está a fazer. E quem perceber isso primeiro tem os ases na mão.