Durante anos ouvimos previsões confiantes de que os preços das casas em Portugal acabariam inevitavelmente por estabilizar. Afinal, diziam-nos, preços elevados reduzem a procura e os mercados tendem naturalmente para o equilíbrio. Era uma questão de tempo, de paciência, de deixar a economia fazer o seu trabalho.

Mas foi exactamente o contrário que aconteceu.

À medida que os preços subiam, mais pessoas acreditavam que continuariam a subir. Famílias aceleraram decisões de compra por receio de ficarem permanentemente excluídas do mercado. Investidores nacionais e estrangeiros compraram porque esperavam valorizações futuras. A própria expectativa de subida passou a alimentar novas subidas.

O futuro começou a influenciar o presente. E o equilíbrio prometido foi-se adiando indefinidamente.

Esta aparente contradição com o que nos ensinaram não é uma anomalia portuguesa nem um acidente conjuntural. É uma das questões mais antigas e mais incómodas de toda a teoria económica. E é precisamente ela que um trabalho recente de dois dos economistas mais influentes da actualidade procura finalmente resolver.

Em 1954, Kenneth Arrow e Gérard Debreu resolveram um dos maiores problemas intelectuais da história da economia. Demonstraram matematicamente que uma economia de mercado pode possuir um equilíbrio geral: um ponto onde milhões de decisões individuais de consumidores, empresas e investidores se tornam compatíveis entre si.

Foi um feito extraordinário. Tão extraordinário que muitos passaram a acreditar que a questão fundamental estava resolvida.

Mas não estava.

Demonstrar que um equilíbrio existe não é o mesmo que demonstrar que uma economia consegue lá chegar.

A diferença parece subtil. Não é.

Imagine que alguém lhe mostra um mapa e assinala uma cidade. Saber que a cidade existe não significa saber qual o caminho para a alcançar. Muito menos significa que todas as estradas conduzem inevitavelmente até ela.

Durante mais de um século, a economia conviveu com essa incómoda lacuna.

Léon Walras, um dos fundadores da teoria económica moderna, acreditava que os mercados possuíam mecanismos internos capazes de ajustar os preços até atingirem o equilíbrio. A ideia parecia intuitiva. Se um bem está demasiado caro, a procura diminui. Se está demasiado barato, a procura aumenta. Os preços ajustam-se e o mercado estabiliza.

O problema é que a realidade raramente se revelou tão elegante.

Ao longo das décadas, inúmeros economistas demonstraram que a simples existência de um equilíbrio não garante a sua estabilidade. Em muitos modelos, pequenas perturbações podiam amplificar-se. Em vez de regressar ao equilíbrio, os mercados podiam oscilar, divergir ou tornar-se imprevisíveis. Foi esta a questão que permaneceu em aberto durante gerações.

É precisamente aqui que surge um trabalho recente de Iván Werning, do MIT, e Guido Lorenzoni, da Chicago Booth School of Business, intitulado Tâtonnement and Price Setting in General Equilibrium.

A ambição do artigo é notável.

Se Arrow e Debreu fizeram pela existência do equilíbrio aquilo que Euclides fez pela geometria, demonstrando que o objecto existe, Werning e Lorenzoni procuram responder à pergunta seguinte: como é que uma economia real encontra esse equilíbrio?

A resposta que encontram é simultaneamente técnica na sua formulação e profunda nas suas implicações: os mercados estabilizam não apesar de os seus participantes serem antecipatórios, mas precisamente por isso. Quando compradores e vendedores olham para o futuro, quando incorporam nas suas decisões de hoje aquilo que esperam que aconteça amanhã, criam forças que tendem a corrigir as oscilações antes que se tornem incontroláveis.

É uma ideia que inverte décadas de cepticismo académico sobre a estabilidade dos mercados. E que reabilita, num sentido inesperado, o próprio Walras: a instabilidade dos mercados não é, afinal, o seu estado natural inevitável.

A teoria económica moderna reconhece cada vez mais uma realidade que os modelos mais antigos sistematicamente ignoravam: os mercados não são apenas mecanismos de oferta e procura. São sistemas compostos por seres humanos que observam, aprendem, antecipam e reagem.

Quando um consumidor acredita que um preço irá subir amanhã, altera o seu comportamento hoje. Quando milhares de pessoas fazem a mesma previsão, essa crença torna-se uma força económica real. É precisamente por isso que a estabilidade dos mercados é uma questão tão complexa — e por isso que o trabalho de Werning e Lorenzoni importa para além dos departamentos de economia.

Os planetas seguem leis físicas indiferentes às opiniões dos astrónomos. Os mercados são influenciados pelas expectativas dos próprios participantes. A previsão pode alterar o resultado. A crença pode modificar a realidade.

Talvez tenha sido esse o maior erro de muitas correntes económicas ao longo do último século: tentar transformar a economia numa espécie de física social.

As partículas não têm medo. Os electrões não lêem jornais. Os átomos não especulam sobre o futuro.

As pessoas fazem tudo isso.

E é essa característica profundamente humana que torna os mercados simultaneamente fascinantes e difíceis de compreender. Difíceis de prever, de regular e, muitas vezes, de habitar — como qualquer família de Lisboa que tentou comprar casa nos últimos dez anos sabe melhor do que qualquer modelo matemático.

O trabalho de Werning e Lorenzoni não resolve todos os mistérios da economia. Nenhum artigo o poderia fazer. Mas representa algo raro: uma tentativa séria de responder a uma das perguntas fundadoras da disciplina, com rigor técnico suficiente para satisfazer os pares e implicações amplas o suficiente para importar fora da academia.

Walras mostrou-nos o destino.

Arrow e Debreu demonstraram que o destino existe.

Werning e Lorenzoni procuram explicar o caminho.

E talvez essa seja a questão mais importante de todas. Porque na economia, como na vida, saber para onde queremos ir é apenas metade do problema. A outra metade consiste em compreender como lá chegar sem nos perdermos pelo caminho.