Perder Jorge Palma é perder o último reduto de uma geração que entendia a liberdade como um exercício de intransigência pessoal. Homem sem amarras ou gavetas institucionais, foi o bardo irredutível que navegou entre a erudição e a calçada, viajante, poeta maldito e lúcido criador de abismos.

Há artistas que cumprem a função burocrática de entreter. E depois há raríssimos eleitos que transcendem o ofício para se tornarem a própria banda sonora da alma de um país. Jorge Palma pertencia por inteiro a esta segunda categoria… um génio absoluto cuja facilidade de escrita roçava o assombro e cuja obra constitui um dos tratados poéticos mais lúcidos da nossa modernidade urbana.

O segredo do seu talento transbordante assentava numa contradição fascinante… a disciplina rigorosa da erudição clássica,  lapidada desde a infância ao piano e nos corredores do Conservatório, cruzada com a crueza visceral da boémia e do asfalto. Palma não escrevia canções… desentranhava histórias do quotidiano. Com a mestria cirúrgica que aprendeu a afinar na métrica das palavras, transformou o banal, um copo de vinho, um bilhar, uma nódoa negra sentimental ou a solidão de um banco de praça, em alta literatura.

Talvez seja precisamente por isso que Jorge Palma tenha sido tão difícil de domesticar. Não cabia inteiramente na esquerda nem na direita, na alta cultura nem na cultura popular, no músico erudito nem no boémio. A sua liberdade não era uma bandeira política: era uma prática. Palma parecia pertencer àquela rara espécie de homens que não precisam de pedir licença para existir. Num tempo em que quase tudo é transformado em identidade, posicionamento ou pertença, havia nele uma coisa cada vez mais rara: a possibilidade de simplesmente ser. E talvez seja essa a forma mais radical de liberdade que nos deixa.

Longe dos pedestais da pose académica, a sua escrita despida de artifícios lembrava-nos implacavelmente da nossa condição… “Podes armar-te em forte, podes tentar a tua sorte… mas és frágil.”

Num país tantas vezes enamorado de discursos ocos, Jorge Palma tinha a coragem intelectual de cantar a vulnerabilidade sem pieguice, unindo gerações inteiras à volta de um piano de cauda ou de uma guitarra sem rede.

Palma atravessou um país que mudou radicalmente sem nunca deixar de carregar as suas próprias contradições. Conheceu a pobreza e a abundância, a ditadura e a democracia, a estrada e a instituição, o reconhecimento e a marginalidade. Mas nunca pareceu interessado em transformar a sua vida numa narrativa edificante. Não precisava de ser exemplo. Bastava-lhe ser verdadeiro. É talvez por isso que as suas canções envelheçam tão bem: porque não foram escritas para ensinar ninguém a viver. Foram escritas por alguém que viveu.

O homem partiu, mas há artistas cuja morte não encerra uma obra, apenas muda o lugar onde ela passa a existir. Jorge Palma deixa de estar sentado ao piano e passa a estar na memória de quem o ouviu, nas palavras que alguém ainda vai descobrir, numa noite qualquer, quando precisar de uma canção que diga aquilo que não consegue dizer sozinho.

Talvez seja essa a verdadeira posteridade: não ser lembrado como um monumento, mas continuar a ser necessário.

Jorge Palma foi necessário.

E continuará a sê-lo.

Como ele próprio nos ensinou, a gente vai continuar.

Até sempre, Jorge.