O vírus que é dramaticamente interpretado como uma “guerra”, pelo menos é assim que em Portugal o tratam, desde o Presidente da República ao Governo, encharcando o discurso de grande parte da comunicação social, despertou em Portugal o espírito de boa vontade dos poderes públicos.

Sim, dos poderes públicos.

Do governo da República às autarquias locais, passando pelos governos regionais, entramos agora numa fase de concurso do quem dá mais, de quem consegue melhor notícia e de quem é até mais original naquilo que diz e naquilo que faz ou deixa de fazer.

Os portugueses nunca sentiram tanto altruísmo por parte de quem os governa. E agradecem, claro que sim. Ao jeitinho português o que é dado é bem vindo.

Depois de anos e anos na concretização da retórica de que não há dinheiro nem para isto, nem para aquilo, o célebre Covid-19, que  entre nós se instalou (e veremos por quanto tempo), parece que se tornou numa espécie de fada madrinha das famílias e das empresas.

O governo anunciou medidas de apoio ao tecido empresarial que garantem o aumento de liquidez em cerca de nove mil milhões de euros, às quais se juntarão o pacote de medidas dirigidas às famílias e as quais serão comunicadas mais adiante (estou ansioso por conhecê-las!), conforme explicou o ministro da Economia.

Em bom rigor, e vale a pena deixar claro, o recurso ao crédito dos agentes económicos será, como se está a ver, pago por eles próprios com juros acrescidos, embora bonificados. Também em bom rigor, já agora, quem beneficia, por último, é a própria banca que nesta “guerra”, parafraseando o inconstante e barricado Presidente da República (depois de se comportar com manifesta negligência no espaço público), não faz qualquer esforço adicional.

Mas não ficamos por aqui, e honra seja feita aos presidentes de Câmara pela capacidade proativa em tirar da sacola medidas de apoio aos seus munícipes. Não tenho dúvida da sua boa intenção e do espírito natalício, que com 3 meses de atraso, invadiu o exercício do cargo. Foram tão céleres, preocupados apenas em dar pronta resposta à crise que nos batia à porta, que muitos se esqueceram de as aprovar em sede de executivo municipal.  Cada caso é um caso.

Disparate o meu, em tempo de “guerra” (que jeitinho dá o uso do termo) não se suspende a democracia, mas relativizam-se os seus preceitos a favor do povo, claro!

É tempo de dizer que andam por aí alguns políticos a tomar decisões como se a democracia estivesse suspensa, mas não está.

Quero convocar para este texto alguns exemplos municipais deste país, independentemente da cor política dos Presidentes de Câmara adiante mencionados, e que não podem deixar de nos emocionar:

– em Lisboa, “a câmara informa que as desocupações estão paradas no Bairro Bensaúde e em todos os bairros municipais de Lisboa desde quinta-feira da semana passada”;

– pelo Porto, anuncia-se a compra de 50 ventiladores;

– no concelho do Fundão, a autarquia cria uma linha especial de apoio psicológico;

– a Câmara de Idanha-a-Nova criou três linhas de apoio destinadas às famílias, instituições particulares de solidariedade social e atividades económicas do concelho;

– em muitos concelhos anuncia-se a injeção de dinheiro em diferentes medidas. Em Sintra, território que conheço bem (onde fui, sou e continuarei a ser um fiel representante das comunidades locais), o programa a desenvolver para suster o impacto da pandemia em que vivemos conta com 7,5 milhões de euros, destacando-se a redução da fatura da água em 35%.

Desse lado, o leitor pode ser tentado a concluir que estou a desvalorizar a ação das diferentes autarquias no contexto em que somos desafiados a repensar a nossa ação enquanto cidadãos ou governantes.

O quero salientar é que o conjunto das iniciativas que identifiquei lá atrás são importantes não só agora neste período, mas ao longo dos 365 dias de cada ano.

É que as instituições de solidariedade precisam de crescente reforço financeiro para cumprirem a sua missão para estarem junto de quem servem; dos mais novos, dos mais idosos, dos deficientes e dos mais frágeis.

A rede pública de saúde tem fragilidades permanentes que dificultam a sua ação e precisa de apoio todos os dias, muitas delas só superadas pela entrega dos seus profissionais.

Há vastos setores da sociedade que precisam de acompanhamento diário, presencial ou não, para encontrarem soluções para os desafios que diariamente lhe são impostos.

Entre nós vivem concidadãos que não tem forma de pagar as rendas das habitações em que vivem, e não apenas neste período excecional.

As famílias, muitas delas precisam de ver os seus orçamentos aliviados dos encargos mensais. Não agora, mas durante todo o ano.

Não quero ser mal interpretado e julgo que fui claro. As situações identificadas balizam bem o meu pensamento sobre tudo isto. Gostava de ver o empenho dos poderes públicos para lá do tempo do Covid-19.

Acresce, aliás, que existe disponibilidade orçamental do Estado, central e local, para concretizar os anúncios que fizeram sem recurso a financiamento bancário. Significa na prática que fazem agora aquilo que poderiam já ter feito e que devem continuar a fazer após superarmos a crise.

Sei do que falo e para o demonstrar recorro-me do concelho que bem conheço.

A Câmara de Sintra tem nas suas diferentes contas bancárias mais de 170 milhões de euros, fruto da opção de redução do investimento nas infraestruturas municipais durante a o primeiro mandato do Dr. Basílio Horta e do crescimento das receitas.

É, ou não, legítimo questionar a sua ação agora?

As famílias sintrenses, o tecido empresarial, os diferentes setores sociais e as suas instituições poderiam ou não já ter beneficiado do apoio camarário?

E devem, ou não, beneficiar no futuro?

São questões que não se aplicam exclusivamente a este ou àquele território nacional, mas a todos. E isto aplica-se tanto ao governo central como às autarquias. Esta é a oportunidade para se repensarem as opções e que este seja o tempo também de reflexão sobre o que fizemos, como fizemos e com que prioridade. A partir de agora, neste tempo de “guerra” em que o Comandante Supremo das Forças Armadas foi o primeiro barricar-se, deixa de haver argumentos para que não seja feito mais e muito mais.

As medidas de urgência são muito importantes, mas o que temos todos de refletir é porque não são aplicadas durante todo o tempo, porque para milhares de famílias todo o tempo é tempo de guerra.