Há quem diga que o tempo cura tudo. Que as décadas lavam as feridas e que a distância histórica nos liberta das maldições do passado. Mas quem escuta com atenção o murmúrio dos corredores de São Bento sabe que há dores que não cicatrizam — que apenas se escondem sob novas roupagens. A Primeira República morreu oficialmente em 1926, mas o seu fantasma nunca saiu de cena. Continua por ali, espreitando por detrás dos discursos inflamados, pairando sobre as promessas de estabilidade que nascem e morrem ao ritmo dos ciclos eleitorais.
A cada nova legislatura, a cada governo que tenta equilibrar-se no fio da navalha política, ouve-se novamente o ranger do palco onde, há mais de cem anos, se representava o mesmo enredo inquieto: o da esperança que se esfarela em disputas estéreis, o da liberdade que se perde em ruídos inúteis, o da democracia que se torna refém dos seus próprios protagonistas — tão convencidos do seu papel histórico que se esquecem de ouvir quem os elegeu.
Hoje, Portugal aguarda o 18 de maio com uma ansiedade que vai além da política. É uma espera tensa, quase supersticiosa. Não se espera uma solução definitiva, mas sim um sinal. Um pressentimento. Um oráculo que nos diga se ainda há chão ou se estamos, mais uma vez, à beira do abismo. A fragmentação dentro do Parlamento não é nova — é, na verdade, um velho reflexo do mesmo espelho partido que já refletiu os rostos da Primeira República: entusiastas, idealistas, por vezes corajosos, mas muitas vezes surdos ao apelo da responsabilidade comum.
Os partidos — cada vez mais numerosos, cada vez mais distantes uns dos outros — desfilam ideias que se atropelam umas às outras como folhas secas levadas pelo vento de um outono precoce. Há barulho, há movimento, mas falta direção. E cá fora, na rua, o povo começa a sentir o que os velhos republicanos também sentiram: que uma democracia sem diálogo é só uma miragem bonita. Que a liberdade sem responsabilidade é só desordem embalada em retórica solene. E que o excesso de vozes sem escuta transforma o Parlamento num eco ensurdecedor.
Tal como em 1910, as palavras nobres continuam a ser ditas com convicção. Mas tal como então, continuam a flutuar no vazio. Falta-lhes chão, lastro, consequência. E, mais inquietante ainda, começa a pairar no ar uma vontade perigosa de “ordem”. Um desejo surdo de que alguém venha “pôr fim ao caos”, mesmo que isso custe a própria democracia. Foi esse o fado que, há um século, abriu caminho a um regime de silêncio, de censura e de medo. E é bom lembrar: os fantasmas da história alimentam-se precisamente disso — da alienação dos vivos, da sua indiferença e cansaço.
Se a República quer sobreviver ao seu passado, precisa de o encarar de frente. Sem máscaras, sem romantismos. É preciso reconhecer que a verdadeira força de um Parlamento não reside na quantidade de partidos que o compõem, mas na sua capacidade de dialogar, de construir pontes onde todos parecem preferir trincheiras. O pluralismo político só tem valor quando serve para unir esforços, e não para multiplicar bloqueios.
O 18 de maio não será o fim do mundo — mas pode ser mais uma linha escrita na crónica de uma democracia que anda esquecida de si mesma. Ou, quem sabe, o início de uma nova página. Uma oportunidade rara de repensar, reformar, reconstruir. Mas isso, como sempre, dependerá de nós — de todos nós. Dos que governam e dos que votam. Dos que falam e, sobretudo, dos que ainda escutam.