A política externa portuguesa tem sido frequentemente marcada por prudência e um certo conformismo com o status quo. Esta abordagem permitiu evitar conflitos diplomáticos desnecessários, mas também tem levado Portugal, por vezes, a reagir mais do que agir, perdendo oportunidades de reforçar a sua posição internacional. A relação com Taiwan é um desses casos. Enquanto a União Europeia e os seus Estados-membros mais influentes têm vindo a estreitar laços com Taipé, Portugal permanece numa posição de distância, sem representação e sem uma estratégia clara para aprofundar as relações com uma das economias mais dinâmicas da Ásia. O problema não é apenas simbólico – esta falta de envolvimento tem consequências práticas para os cidadãos portugueses, para as empresas nacionais e para a própria relevância do país no cenário internacional.

Taiwan tem um peso estratégico que vai muito além do seu tamanho geográfico. Com uma população de 23 milhões de habitantes e uma economia altamente desenvolvida, a ilha é o centro global da indústria de semicondutores, um sector absolutamente crítico para o funcionamento das cadeias de abastecimento mundiais. Quase todos os dispositivos electrónicos modernos dependem de semicondutores produzidos em Taiwan, desde computadores e telemóveis até automóveis e equipamentos médicos. Para qualquer país que procure garantir autonomia estratégica e reduzir dependências excessivas de mercados menos previsíveis, como o chinês, Taiwan é um parceiro incontornável. Não é por acaso que economias como a alemã, a francesa e a britânica têm investido no reforço das suas relações com Taipé, reconhecendo que ignorar Taiwan é ignorar uma peça-chave do futuro tecnológico e industrial global.

Mas Taiwan não é apenas um gigante económico – é também um bastião de democracia e liberdade numa região onde os regimes autoritários têm vindo a consolidar o seu poder. Num contexto internacional em que as democracias enfrentam desafios crescentes, manter uma relação próxima com parceiros que partilham os valores do Estado de Direito, da transparência e dos direitos humanos deveria ser uma prioridade para qualquer país que se queira posicionar do lado certo da história. No entanto, Portugal continua sem qualquer presença institucional em Taiwan, mantendo uma abordagem distante que o coloca em desvantagem face a outros países europeus.

A ausência de uma representação portuguesa em Taiwan não é exclusivamente uma questão diplomática abstracta – tem implicações directas para os cidadãos portugueses que vivem e trabalham na ilha. Actualmente, qualquer questão consular envolvendo portugueses residentes em Taiwan tem de ser tratada em Macau, um território sob jurisdição da República Popular da China. Isto significa que processos simples, como a renovação de documentos, o registo de casamentos ou de nascimentos, implicam deslocações a um território estrangeiro, com todos os custos e riscos que isso acarreta. O cenário torna-se ainda mais complexo quando se considera o aumento da tensão entre Pequim e Taipé, o que pode, a qualquer momento, tornar ainda mais difícil o acesso a esses serviços para os cidadãos portugueses.

No plano económico, a situação não é melhor. Portugal tem procurado diversificar as suas relações comerciais, especialmente num momento em que a União Europeia aposta em reduzir a sua dependência da China. No entanto, sem uma presença, ainda que informal, em Taiwan, as empresas portuguesas encontram barreiras adicionais ao tentarem exportar para o mercado taiwanês ou estabelecer parcerias com empresas locais. Em contrapartida, outros países europeus que já criaram representações em Taiwan beneficiam de um maior fluxo de comércio e investimento, garantindo às suas empresas um apoio institucional directo no terreno. O mesmo acontece com investidores taiwaneses interessados em Portugal, que se deparam com entraves administrativos que poderiam ser facilmente evitados com uma estrutura diplomática adequada.

A contradição na política externa portuguesa torna-se ainda mais evidente quando se compara a abordagem a Taiwan com a relação com a Palestina. Portugal, à semelhança da maioria dos países europeus, não reconhece formalmente o Estado da Palestina, mas concede aos seus representantes em Lisboa um estatuto especial que lhes permite tratar dos seus processos administrativos através do Ministério dos Negócios Estrangeiros. Taiwan, por outro lado, que é um dos principais motores da economia global e um parceiro comercial relevante para Portugal e para a União Europeia, não beneficia do mesmo nível de reconhecimento. Esta disparidade não tem qualquer justificação lógica ou estratégica e apenas reflecte a falta de um rumo claro na abordagem portuguesa a este dossiê.

No entanto, esta situação pode ser corrigida sem que Portugal tenha de romper com compromissos diplomáticos já estabelecidos. O recente Projecto de Resolução apresentado pela Iniciativa Liberal propõe um conjunto de medidas que modernizariam a abordagem portuguesa a Taiwan, sem comprometer os princípios da política externa nacional. O estabelecimento de uma Representação Portuguesa em Taiwan não implicaria um reconhecimento formal da soberania da ilha – nenhum país europeu o faz –, mas garantiria um acompanhamento mais próximo das relações económicas, culturais e institucionais, promovendo os interesses nacionais e facilitando a vida dos cidadãos portugueses que lá residem. Em paralelo, a transferência dos assuntos consulares actualmente tratados em Macau para Tóquio permitiria reduzir a dependência da jurisdição chinesa, garantindo maior acessibilidade e segurança para os portugueses e taiwaneses que necessitam desses serviços.

A política externa portuguesa deve ser guiada por pragmatismo e visão estratégica. O reforço das relações com Taiwan não é um capricho diplomático nem um gesto meramente simbólico – é uma necessidade concreta para garantir que Portugal mantém relevância num mundo em transformação. A Europa já está a trilhar este caminho, diversificando as suas alianças e reconhecendo a importância de Taiwan como parceiro económico e político. Portugal tem aqui uma oportunidade clara de seguir o mesmo rumo e evitar ficar para trás.

Ignorar Taiwan não protege os interesses portugueses nem fortalece a posição do país na arena internacional. Pelo contrário, perpetua um estado de inacção que apenas beneficia aqueles que preferem manter Portugal numa posição secundária no xadrez global. Os momentos de definição estratégica não surgem todos os dias, e este é um deles. Se Portugal quer afirmar-se como um país que defende os seus interesses e os seus valores, tem de agir. A escolha não é entre manter a neutralidade ou envolver-se em conflitos desnecessários – a escolha é entre permanecer irrelevante ou posicionar-se no lado certo da história.