O Governo já decidiu. Portugal designou a ANACOM como autoridade de supervisão do regulamento europeu da  inteligência artificial (AI Act), tornando-a regulador do mercado e ponto de contacto para  empresas e cidadãos. O Executivo justifica a escolha com a “experiência regulatória” da  ANACOM em setores digitais e de consumo.

A lição europeia: três modelos em confronto 

Nos últimos meses, três grandes países da União já avançaram com os seus modelos de  governação da IA:

Portugal aproxima-se do modelo alemão, mas sem ainda mostrar como a ANACOM será  dotada das competências necessárias.

O verdadeiro desafio 

Regular inteligência artificial (IA) não é o mesmo que regular telecomunicações. A regulação  da IA exige um conjunto alargado de competências técnicas, designadamente, na  governação dos dados, na rastreabilidade, robustez e gestão da qualidade dos dados ou na  cibersegurança de sistemas IA de risco elevado. Estes requisitos estão já a ser traduzidos em  normas europeias pelo JTC 21 do CEN-CENELEC, no quadro do pedido de normalização M/593  da Comissão Europeia e brevemente irão estar disponíveis de forma a apoiarem as  organizações a desenvolverem e implementarem sistemas de IA seguros.

O desafio para as organizações – e para a própria ANACOM – é interpretar com clareza e  aplicar com rigor técnico estes documentos regulatórios e técnicos. Sem isso, não haverá  sistemas de IA fiáveis, nem regulação eficaz.

Portugal precisa de equipas multidisciplinares e de uma abordagem técnica séria, que una  engenharia, ciência de dados e, em complemento, o direito. Só assim as regras europeias se  transformarão em prática real – com impacto, confiança e resultados.

Confesso, no entanto, que a minha experiência profissional com esta autoridade de  supervisão evidencia dificuldades relevantes: morosidade processual, decisões  excessivamente complexas e falta de resposta a solicitações. Estes fatores sugerem a  necessidade de uma renovação institucional profunda, incluindo a atualização da liderança,  para que a ANACOM esteja verdadeiramente à altura das exigências colocadas pela regulação  da Inteligência Artificial.

Risco ou oportunidade? 

Se tudo ficar pela formalidade, teremos apenas mais um ponto de contacto burocrático. Mas  se houver visão, recursos e liderança renovada, Portugal pode juntar-se ao grupo de países  que serão uma referência europeia na supervisão de IA confiável.

O futuro da IA no país depende desta escolha.