A proposta de vigilância totalitária das comunicações privadas, o chamado Regulamento ChatControl, ficou sem maioria no Conselho da União Europeia, depois de a Alemanha recusar  o apoio. É uma vitória para a privacidade digital. Mas também um alerta: alguns governos,  incluindo o português, insistem num modelo que envergonha a Europa digital.

Introdução 

Durante três anos discutimos uma ideia perigosa: obrigar plataformas de comunicação a inspecionar  mensagens privadas, incluindo serviços encriptados, para procurar material de abuso sexual infantil.

A intenção é justa. O método, esse, é profundamente errado.

A proposta conhecida como ChatControl previa a monitorização sistemática das comunicações privadas.  Era, na prática, uma forma de vigilância preventiva aplicada a toda a população europeia.

E foi justamente essa deriva que a Alemanha decidiu travar, no dia 7 de outubro, retirando a maioria  qualificada necessária à sua aprovação. Patrick Breyer, ex-eurodeputado do Partido Pirata, descreveu o  desfecho como “uma grande vitória da mobilização cidadã” e uma mensagem clara: a segurança das  crianças não pode ser usada como pretexto para destruir a privacidade de todos.

Mas a vitória alemã expôs também as divisões internas da União e a fragilidade política de alguns  Estados.

Desenvolvimento 

O bloqueio alemão desmontou o plano da presidência dinamarquesa, que pretendia submeter o texto a  votação nos dias 13 e 14 de outubro. Sem Berlim, o projeto ficou sem chão político. Foi o poder da  matemática, e da consciência democrática, a funcionar em defesa dos direitos fundamentais.

A decisão alemã não surgiu do nada: resultou de uma forte mobilização europeia de cidadãos,  especialistas e organizações de direitos digitais que denunciaram o risco de vigilância generalizada. A  sociedade civil mostrou que a Europa digital é também feita de resistência e lucidez.

Mas nem todos os governos partilharam dessa visão.

Portugal manteve-se entre os países que apoiaram o ChatControl.

Confesso que sinto preocupação e vergonha por ver o meu país alinhar com uma proposta que  contraria princípios básicos do Estado de Direito digital. Um país que se quer inovador e defensor da  privacidade não pode, em Bruxelas, votar a favor de um modelo que introduz mecanismos de vigilância  totalitária digital, o que é a antítese de qualquer projeto político de centro-direita.

É um paradoxo difícil de ignorar: um governo que se apresenta como defensor das liberdades individuais  apoiar um modelo de vigilância totalitária. A história tem, por vezes, um sentido de ironia apurado.

O debate, de resto, nunca foi entre proteger crianças ou proteger a privacidade. Essa é uma falsa  escolha.

A alternativa existe e chama-se segurança por design, remoção célere de conteúdos ilícitos,  cooperação internacional eficaz e educação digital. Não é preciso destruir a encriptação para proteger.  Pelo contrário, é preciso reforçar a confiança. E a confiança é, cada vez mais, o ativo estratégico da  União Europeia.

Como já escrevi aqui no Observador a propósito do poder dos dados pessoais e da regulação da  Inteligência Artificial, regular tecnologia é mais do que criar leis: é compreender os seus fundamentos  técnicos e éticos. O ChatControl falhou precisamente por ignorar ambos.

Conclusão 

O fim (para já) do ChatControl é uma vitória de todos os que acreditam numa Europa livre e segura. Mostra que a democracia digital ainda funciona quando os cidadãos exigem transparência e  responsabilidade.

Mas o episódio deixa uma ferida política: governos que escolheram o caminho mais fácil, o do controlo  em vez da confiança, terão de explicar as suas decisões aos cidadãos.

O futuro digital da Europa será decidido por quem compreender que a privacidade é o alicerce da  segurança, não o seu oposto.