A escola portuguesa atravessa uma crise silenciosa e profunda. Por detrás dos discursos simpáticos sobre “inclusão”, “equidade” e “sucesso escolar” esconde-se uma realidade desconcertante: o nivelamento por baixo, a promoção automática mascarada de pedagogia moderna, e uma degradação sistemática da exigência. Está na altura de dizê-lo com todas as letras: o modelo educativo em vigor está a falhar redondamente aos nossos alunos, às famílias e ao futuro do país.
Comecemos pelo modelo permissivo de transição entre anos. Hoje, um aluno pode chegar ao ensino secundário com vários anos sucessivos de negativas a disciplinas nucleares como matemática ou português. A progressão automática — eufemisticamente chamada “promoção do sucesso” — é uma farsa pedagógica e uma tragédia social. O que se transmite a estes jovens é simples: o esforço é opcional, o mérito é indiferente, e o fracasso académico será sempre ignorado em nome de uma ideia distorcida de inclusão.
A falta de exigência alastra como uma doença crónica. O “eduquês”, essa língua morta falada apenas por burocratas e formadores de professores, insiste em relativizar tudo: conteúdos, avaliação, autoridade do professor e até o próprio conhecimento. Inventaram uma pedagogia que se baseia mais em palavras ocas do que em resultados reais. No altar do relativismo pedagógico, sacrificaram-se o rigor, a excelência e a preparação dos nossos jovens para o mundo real.
Parte da culpa pela erosão da exigência reside também na forma como os diretores escolares são hoje avaliados — não pela qualidade do ensino, mas pelos números que apresentam. O sucesso é medido em taxas de retenção próximas do zero, mesmo que isso signifique diplomar alunos sem conhecimentos mínimos. O resultado é uma pressão constante sobre os professores para que “não chumbem”, “não perturbem as estatísticas”, “não comprometam a imagem da escola”. Esta lógica perversa transforma líderes escolares em gestores de imagem, mais preocupados com ‘rankings’ do que com a verdade pedagógica que se vive nas salas de aula. A escola não é uma empresa de comunicação — é um lugar de formação séria e, por vezes, dura. Fingir sucesso é a maneira mais eficaz de garantir o fracasso.
Mas sejamos claros: as dificuldades económicas e familiares existem — e devem ser consideradas com responsabilidade e sensibilidade. Há alunos em contextos extremamente duros que precisam, sim, de apoio, reforço, e até de planos personalizados. Mas isso não pode servir de desculpa para a ausência de trabalho, de disciplina e de empenho. Reduzir o percurso escolar ao contexto social é paternalismo condescendente e perigoso. Os miúdos não precisam de desculpas: precisam de ferramentas e exigência. Precisam de adultos que lhes exijam mais, não de um sistema que espera menos deles.
O problema vem de cima. Durante anos, sucessivos governos — de várias cores — preferiram diplomas vazios a aprendizagens sólidas. Criaram uma narrativa de “progresso educativo” baseada em indicadores artificiais e empolaram as estatísticas de sucesso escolar, sem nunca perguntar o que realmente sabem os alunos que saem do sistema. É mais fácil celebrar taxas de conclusão do secundário do que enfrentar a realidade de que muitos diplomados não dominam operações básicas, não compreendem textos complexos e não têm ferramentas para pensar com autonomia. Isto não é inclusão — é ilusão. E esta política de maquilhagem educativa é uma traição silenciosa à próxima geração.
Acrescente-se a isto uma Lei de Bases do Sistema Educativo desatualizada, concebida em pleno século XX, e que já não responde às exigências do nosso tempo. A escola de 2025 não pode continuar a funcionar com os alicerces legais de 1986. É urgente uma reforma estrutural da Lei de Bases, com foco no mérito, na autonomia das escolas, na responsabilização dos alunos e na liberdade de escolha das famílias.
Do mesmo modo, o PASEO — Perfil do Aluno à Saída da Escolaridade Obrigatória — continua a ser um documento vago, com intenções nobres, mas sem operacionalização concreta. Fala-se em “cidadania ativa” e “pensamento crítico”, mas esvazia-se o currículo de conteúdos exigentes, de matemática rigorosa, de literatura desafiante, de ciência com profundidade. A escola pública não pode ser um espaço de entretenimento institucionalizado. Tem de voltar a ser uma escola de saberes.
Não se trata aqui de um manifesto ideológico, mas de um apelo urgente à razão e à responsabilidade. O debate sobre a educação em Portugal não pode continuar refém de trincheiras ideológicas, nem capturado por discursos técnicos que ignoram o essencial. Está na hora de colocar todos à mesa: professores, pais, diretores, partidos, alunos. Está na hora de discutirmos o que queremos realmente da escola — sem dogmas, sem chavões, sem medo de tocar nas estruturas instaladas. O que está em causa é demasiado importante para continuar a ser gerido com silêncio cúmplice ou ‘slogans’ partidários. A exigência na educação não é uma obsessão liberal — é uma necessidade nacional.
Portugal precisa de uma reforma educativa centrada na exigência, na valorização do professor e na devolução da autoridade à sala de aula. É tempo de nivelar por cima. O sistema não pode continuar a servir os interesses do facilitismo político, das estatísticas ilusórias de sucesso e da retórica ideológica do eduquês. Um país sério exige escolas sérias. E uma escola séria não passa alunos para agradar a relatórios — forma cidadãos exigentes, capazes e livres.
É essa a escola que queremos, e é essa a escola pela qual lutaremos!