A caloira chegou ao Instituto Politécnico de Setúbal com uma grande questão: devo participar na praxe? Uns dizem que é humilhação, outros que é união. Vi veteranos de preto, sérios, mas para mim pareciam pinguins desajeitados. A semana foi dura: As flexões doíam, a sujidade colava-se à pele, e cada ordem soava como a picada irritante de um estefanilho. Mas também houve gritos pelo nosso curso, cânticos que ecoavam pelo campus e gargalhadas partilhadas. Entre o bom e o mau, caloiros e veteranos tornámo-nos um só. Mais tarde, também me tornei num pinguim desajeitado.

Foi assim que a praxe entrou na minha vida: com uma questão e muitas picadas de mosquitos. Olhava para aquele grupo vestido de negro com a mesma expressão que se tem quando se vê um cão raivoso a correr para nós — um misto de medo e vontade de fugir. A palavra “praxe” vem carregada de lendas: que se esfregam ovos na cabeça dos caloiros, que os obrigam a marchar de gatas e os humilham. Mas também se dizia que dali nasciam amizades para a vida.

No primeiro dia, os veteranos fizeram-nos alinhar no recinto e cumprimentaram-nos com um entusiasmo teatral. E nós, ainda ensonados e confusos, respondemos num coro tímido. Chamavam-nos “estefanilhos”, como se fôssemos pequenos insetos nervosos. À medida que os dias passaram, percebi que a praxe é uma espécie de teatro académico. Cada trajado tem um papel: o charroco sério (que nunca ri, mas chora de tanto rir quando ninguém vê), a madrinha protetora, o veterano das piadas secas, e o bocageano dos cânticos improvisados. E nós, caloiros, éramos o público e os protagonistas involuntários.

Claro que houve mais além de risos e flores (até porque flores murcham com tanta sujidade). Houve momentos em que questionei tudo. Quando gritaram “flexões”, percebi que os meus braços fraquejaram sob o orgulho do curso. E quando me chamaram “caloira bailarina” em vez do meu nome, perguntei-me se estava a trocar a minha identidade por um traje.

Mas, entre uma ordem e outra, comecei a perceber a lógica do caos. Quando rebolei numa lona coberta com coisas que até hoje desconheço, alguém me estendeu a mão– era mais que um colega, era um cúmplice. Quando desfilámos por Setúbal, a cantar cânticos, passámos a “cada um por si” para uma família com cheiro a vómito e orgulho académico. E quando vi os pinguins desmancharem-se a rir atrás das capas, percebi que aquilo ia além do poder, era tradição, era passagem de testemunho.

A praxe é um território de contrastes. Para uns, é uma tortura disfarçada de brincadeira. Para outros, é um ritual de integração. Vi os dois lados. Houve colegas que saíram a meio, fartos da opressão. E houve quem ficasse a viver cada grito como se fosse um hino à liberdade. O mais curioso é que ninguém tem a mesma história da praxe: cada um leva dela o que viveu. Uns levam trauma, outros levam um grupo de amigos que ainda hoje se juntam para rir dos disparates daquele ano.

Com o tempo, deixei de ser caloira e passei para o lado negro. Vesti o traje e pratiquei a arte de parecer séria enquanto engolia o riso das figuras que fazíamos todos. Senti a responsabilidade de evitar excessos, de fazer a praxe um espaço acolhedor e sem medos. Porque a verdade é esta: a linha entre integrar e humilhar é mais fina do que as fitas dos grelos que carregamos na capa. Um passo em falso, e aquilo que podia ser união transforma-se em trauma.

No final, já ninguém mandava em ninguém. Deixou de existir veteranos e caloiros. Só estudantes que tinham vivido a mesma experiência. Percebi a praxe como uma música desafinada: nem todos gostam, mas quem canta junto dificilmente esquece.

Hoje, quando passo pelo campus e vejo os novos caloiros, reconheço-me neles. Naquele olhar de quem pensa se deve fugir ou entrar na roda. E quando vejo os veteranos —ainda pinguins desajeitados — sorrio. A praxe continua a evoluir, como tudo, mas guarda a sua essência: a capacidade de transformar estranhos em aliados.

Sim, a praxe tem excessos. Há quem ultrapasse limites, há quem a veja como poder. Mas também há quem a use como palco para a amizade nascer. E é nessa fronteira delicada que mora a sua verdade: não é perfeita, mas é inesquecível.

De caloira suja a veterana orgulhosa, percebi que a praxe é uma questão sem resposta certa ou errada. É uma escolha. E, para mim, foi a escolha de entrar num grupo que ainda hoje chamo de “família universitária”.