Um exercício especulativo, meramente heurístico. O Rassemblement National vence de forma retumbante as eleições presidenciais francesas. Na Alemanha, a AfD de Weidel ultrapassa a barreira dos 40%, conquista 15% do eleitorado da CDU/CSU, com quem posteriormente forma uma coligação governamental majoritária (55%). Imaginemos que estas duas vitórias eleitorais ocorrem no mesmo ano, em 2026. A ascensão in tandem da AfD e da RN impossibilitaria, entre outras coisas, a “melonização” do radicalismo franco-germânico. Ursula certamente não poderia ameaçar Le Pen/Bardella e Weidel como fez com Meloni no dia 15 de Setembro de 2022, numa entrevista concedida à Reuters em Kyiv. Naturalmente, a sociedade civil alemã e francesa insurgir-se-iam contra a ascensão dos ditos neo-fascistas. A militância política nestes dois países tende a ser bastante mais assertiva e contundente do que a italiana e, note-se, os Alemães e os Franceses ainda se lembram de viver desafogados, uma memória que aguça o apetite e alimenta o desencanto. Os sindicatos celebrados por Sorel, como seria de esperar, paralisariam a economia gaulesa, a esquerda radical mobilizaria os famigerados banlieues com o agitprop da insurreição democrática e da política de identidade, quiçá incitando uma jihad uber cosmopolita com techno-punks hijabados. As elites libchic, envoltas no mais sublime altruísmo liberal e movidas por ontologias exóticas que só eles fingem compreender, tratariam de diabolizar as maiorias democráticas como deploráveis e, claro, a própria democracia como um regime vulnerável, ou até repreensível, que tem de ser defendido por uma minoria iluminada por um pós-modernismo esquizoide que, na esfera política, se manifesta na inconstância infernal do oportunismo mediático.
O imperativo da persuasão e as mirabolantes coreografias por ele inspiradas suplantaram há muito a (mítica) deliberação democrática. Na Alemanha, la même chose, mas possivelmente com maior ferocidade, dado o tormento do trauma nazi e o amestrado apego aos valores liberais. O trauma, há muito ritualizado como estigma eterno, não raramente é convertido em faustosas compensações históricas. A culpa pode ser contabilizada como juro infinito. A redenção passa inevitavelmente pela monetização, naturalmente. Não são poucos os alemães que estão fartos da “democracia militante” que os castiga e os cala ad aeternum por serem alemães. Bardella, que nada mais é do que um nacionalista conservador pragmático, provavelmente teria de colocar a Legião Estrangeira nas ruas de Paris, ao contrário da simpática lésbica Weidel que está constitucionalmente impedida de usar a força militar para suprimir insurreições civis. Seja como for, não é de todo improvável que na Alemanha e na França reine o caos após a eleição da RN e da AfD.
Podemos e devemo-nos interrogar: quais seriam os principais efeitos da hipotética caocracia de que Vos falo? As maiorias que votaram na AfD e no RN seriam persuadidas pelos tumultos a enveredar pelo sempre cordial bom-senso? Os esquerdistas que escolheram a RN de Le Pen e de Bardella regressariam, quais filhos tresmalhados, ao decrépito partido comunista francês? Quem os poderá liderar na esquerda francesa? Mélanchon? Não me parece. Os Alemães que votam na AfD porque se revoltaram contra a moralpolitik totalitária que ignora e desdenha as preocupações do homem comum e que expurga do espaço mediático qualquer discussão substantiva e genuinamente aberta de questões deveras importantes (Migração, geo-política) arrepender-se-iam do seu radicalismo nacionalista e da sua russofilia? É claro que não, sobretudo após a destruição do Nord Stream II e da crescente canibalização da outrora esplendorosa economia alemã por um aliado. O caos, maestro da persuasão, radicalizaria ainda mais as maiorias fustigadas pelas minorias derrotadas e, claro, as lideranças do RN e da AfD. Os nacional-conservadores-populistas a quem a esquerda e boa parte da direita normie hoje chama de fascistas seriam suplantados pelos artigos genuínos. Meloni, Weidel, Le Pen e Bardella poderão ser meros preâmbulos ou, quiçá, talvez possam ser transfigurados pelas circunstâncias. Uma coisa é certa: o caos e a condição “liminal” (Zygmunt Bauman) que engendra é o padrasto cruel do autoritarismo. A verdadeira definição do fascismo não é meramente filosófica ou ideológica. É essencialmente existencial ou, melhor dizendo, o fascismo é a solução de uma aflição profunda e dilacerante.