Continuo a defender que a alegada falta de habitação em Portugal só serve os interesses do lobby da construção, já que a venda de imóveis é a principal fonte de lucro das construtoras, que praticam preços muito superiores ao custo real de construção. Construir casas sem critério não resolve a crise habitacional. O verdadeiro problema é a escassez de habitação a preços acessíveis, não a falta de casas em si. Mesmo que se construíssem milhares de novas habitações, os preços dificilmente desceriam, já que continuaria a existir procura por parte de estrangeiros com elevado poder de compra e investidores portugueses, com o mesmo poder. Importa lembrar que esta tendência de subida dos preços se verifica em muitos países ocidentais, não apenas em Portugal.

Apesar da construção ser um setor fundamental para o PIB, é essencial apostar mais na reabilitação e manutenção de edifícios e infraestruturas, pois são áreas que também impulsionam a economia. Infelizmente, este tema raramente é discutido de forma aprofundada pelos principais candidatos ao Governo português. Ora vejamos alguns factos:

  1. Em Portugal, há mais casas do que famílias;
  2. O parque habitacional tem crescido consistentemente nos últimos anos;
  3. As plataformas imobiliárias estão repletas de imóveis para venda;
  4. Nunca houve tantos vendedores de imóveis;
  5. As casas são maioritariamente compradas por estrangeiros ou por portugueses para investimento, não para habitação própria.

Acima de tudo, parece que poucos se lembram de um problema crucial: a falta de infraestruturas que suportam o crescimento residencial. Na verdade, o crescimento de um setor habitacional está diretamente ligado à disponibilidade e adequação das infraestruturas. Problemas relacionados com as estradas, trânsito automóvel, serviços públicos (água, eletricidade, saneamento) e transportes públicos, já começam a não dar resposta às necessidades da população. Abordar as lacunas existentes será crucial para um desenvolvimento bem-sucedido. Veja-se o exemplo de Braga. A cidade tem crescido de forma descontrolada em população e construção. Experimentem atravessá-la de carro nas horas de ponta — é caótico. E se a alternativa for o transporte público? Ainda pior, pois consegue-se demorar ainda mais tempo do que numa grande cidade.

As infraestruturas são um dos principais pilares para o desenvolvimento económico e social de uma região, impulsionando a criação de empregos e o crescimento da economia. E é aqui que é necessário apostar: construção e manutenção de infraestruturas e reabilitação dos edifícios existentes.

Mais nova construção, não! Sem falar, obviamente, nos impactes ambientais que lhe estão associados. É escandaloso ouvir promessas de construção em massa como solução para um problema que, na verdade, não afeta nem a classe média, nem a classe alta, mas sim quem não consegue sequer manter a casa onde vive, quanto mais comprar uma nova. Em período eleitoral, é imperativo apelar à responsabilidade dos decisores políticos para que reconheçam plenamente esta realidade e implementem medidas eficazes e sustentáveis. Não se deve persistir na promessa de habitações inacessíveis, que apenas irão agravar, no futuro, um já evidente problema de insuficiência de infraestruturas, como já se observa atualmente em alguns casos.