Está exigente, a política portuguesa. Infelizmente não tanto para os políticos em si, mas mais para os eleitores. Hoje em dia o comum votante que pretenda seguir as incidências da política nacional, como esta polémica da recuperação do tempo de serviço congelado aos professores, precisa de bastante mais que a escolaridade obrigatória. Para começar é aconselhável, logo no ensino secundário, seguir a área de Ciências e Demagogias. Depois, uma licenciatura em Engenharia Parlamentar complementada com um doutoramento em Falsidade e Gestão talvez seja a escolha acertada. Mas há quem opte por um percurso académico alternativo. Foi o caso de António Costa. Especialista em artes performativas, ainda há dias encenou a crise da demissão do governo. E embora na conferência de imprensa do primeiro-ministro não me pareça ter ouvido as três pancadas de Molière, a verdade é que a coisa pareceu-me feita às três pancadas.

No meio desta barafunda, Rui Rio garantiu que António Costa acusou o PSD de empurrar o país para uma “orgia orçamental”. À primeira vista pode parecer uma acusação despropositada do líder do PS, mas convenhamos que até tem fundamento: pois se os sociais-democratas foram capazes de se meter naquela autêntica suruba que foi a comissão de Educação — ali, a roçarem-se todos nos comunistas, bloquistas e centristas –, é de admitir que muito rapidamente se juntassem a uma mais costumeira ribaldaria orçamental.

Fica aliás para a história a fotografia tirada nessa mesma comissão de Educação, que eternizará a forma cúmplice como os deputados e assessores do PSD e CDS se entregaram àquela troca de impressões com os seus homólogos dos partidos da extrema- esquerda, todos reunidos a uma grande mesa. Parece uma espécie de Última Ceia, mas com algumas cambiantes face à versão mais famosa do repasto. Desde logo há não um mas vários Judas. Nomeadamente os sociais-democratas e centristas que traíram a confiança dos seus eleitores ao aprovarem aquela proposta despesista. Depois, falta na imagem a personagem central da trama, o Cristo da contagem do tempo dos professores, António Costa, que naquele preciso momento estava na cozinha da Assembleia a preparar o refugado para comer o PSD e o CDS de cebolada.

Aliás, o primeiro-ministro ficou indignado com este arranjinho entre PSD, CDS, PCP e Bloco de Esquerda e tem absoluta razão. Toda a gente sabe que António Costa odeia coligações negativas. Odeia. Não é novidade nenhuma que o líder do PS é um indivíduo que não tolera entendimentos oportunistas com parceiros partidários inusitados tendo em vista o propósito único de alcançar objectivos políticos mesquinhos potencialmente comprometedores para o futuro do país. Eh pá, esse é o tipo de coisa que repugna António Costa. Tenham paciência, deixem o homem desabafar!

Isto já para não referir que o PS, como é óbvio, é o partido das contas certas. Enfim, fica um bocadinho menos óbvio de cada vez que os socialistas levam o país à bancarrota, é facto, mas não sejamos picuinhas agora com isso. O que interessa é que o PS é pelas contas certas. Aliás, basta ver o exemplo das contas de dividir. Cada vez que há cargos na administração pública para dividir o PS arranja invariavelmente o número de familiares e amigos certo para que a divisão tenha sempre resto zero. Nunca sobra um único cargo. A conta é sempre exacta.