Há coisas surpreendentes. Por acaso, de momento e por azar, só me ocorre a coisa menos surpreendente do mundo, logo a seguir a “em que direcção segue uma maçã quando se desprende da árvore: para a estratosfera ou para o chão?”. A segunda coisa menos surpreendente do mundo foi o último discurso de António Guterres enquanto secretário-geral da ONU: anti-Israel e aldrabão, como manda a tradição. O que, sejamos justos, acabou por ser óptimo. Num mundo em permanente convulsão, é reconfortante saber que há coisas que nunca mudam.
É mais ou menos como as ilhas Tuvalu. Há uns anos, Guterres apareceu por lá de calças arregaçadas, com ar de quem chega a casa após a pescaria e descobre que a amêijoa está toda podre, a garantir o desaparecimento do arquipélago anteontem. Passados estes anos todos, Tuvalu parece querer fazer pirraça ao “melhor de todos nós” (nas palavras de Marcelo Rebelo de Sousa, o melhor reencaminhador de cunhas de todos nós): as ilhas mantêm-se bem acima da linha de água, enquanto a ONU de Guterres se afundou em corrupção, qual Manchester City das organizações internacionais. E a concorrência é forte.
Agora, o próprio Guterres devia ter percebido que vaticinar subidas de marés era péssima ideia. Afinal, ele é um dos mais reputados especialistas em parar subidas. Ou não tivesse sido o grande timoneiro do governo que, sucedendo a uma série de anos de convergência da economia portuguesa, se tornou o grande precursor da estagnação de que Portugal ainda hoje padece.
Quem também padece, mas de paixões súbitas à la Guterres, é o mais recente de uma linhagem de brilhantíssimos líderes do PS, José Luís Carneiro. Desculpem o aparte, mas como não recordar a sequência Guterres–Ferro Rodrigues–Sócrates–Seguro–Costa–Pedro Nuno Santos–José Luís Carneiro? Isto é um verdadeiro royal flush. Mas mais no sentido em que dá uma vontade real de puxar o autoclismo.
Dizia eu que, há dias, o Glorifica-Maduros e Venera-Sánchez revelou ter uma “paixão pela habitação”. Pareceu-me estranho: pensava que, em termos de líderes do PS, a “paixão pela habitação” era o pelouro de José Sócrates, a julgar pelo empenho que o “engenheiro” demonstrava nas escutas quanto às escolhas do soalho, ou lá o que era, da casa (que não é sua!) em Paris.
Uma coisa é certa: Carneiro não partilha da “paixão pela educação” dos anos 90 de Guterres. Talvez também porque, passados estes anos, se tenha tornado óbvio que a paixão era muito especificamente pelas escolas financiadas pela UNRWA, onde os meninos de Gaza, ainda antes de se aguentarem sentados, já têm seis horas por dia da cadeira “Odiar Judeus I”.
Bom, de volta a Carneiro e aos governos socialistas de Costa. Afinal, quem podia prever que penalizar o investimento com burocracias e impostos, ao mesmo tempo que se escancarava a porta a mais de um milhão de imigrantes em meia dúzia de anos, criaria escassez de casas? Dirão vocês: “Qualquer pessoa que tivesse tirado cinco minutos para estudar Economia.” Sim, mas calma. Que economia? A da Escola Austríaca, por exemplo, ou a do programa de doutoramento do ISCTE dirigido por Mariana Mortágua? Ah, pois é.
Cheira-me que José Luís Carneiro tem uma queda quase tão grande pela segunda opção quanto a sua “paixão pela imigração” que inspirou a extinção do SEF. Uma coisa é certa: ter de contar com Carneiro à frente da economia portuguesa seria mais ou menos como contar carneiros — a única diferença é que a economia pareceria estar a dormir quando, na verdade, já teria falecido. É mais certo do que a maçã, ao soltar-se da árvore, cair no chão.
Siga-me no Facebook (@tiagodoresoproprio) e Instagram (@tiagodoresoproprio)