Rádio Observador

Educação

Professores, precisam-se

Autor
  • Marco Almeida
2.454

Sem capacidade para atrair novos docentes, o Estado revela a sua incapacidade para enfrentar o desígnio mais importante para o desenvolvimento sustentado e sustentável, o desígnio da Educação e Ensino

Em que ponto estamos?

Os relatos que a comunicação social nos faz chegar, centrados na reivindicação em torno das questões salariais do corpo docente e da recuperação do tempo de serviço congelado, é apenas uma ínfima parte do cenário real que a escola pública hoje vive. Não tenhamos dúvidas, este governo contribuiu em muito, não sendo o único responsável, para a degradação do valor determinante que a Educação terá no nosso progresso social. O valor que a Educação deve e tem de ter na sociedade do presente e no país futuro.

A crispação que fomentou com sindicatos e docentes a propósito da carreira docente e da sua remuneração esconde uma triste realidade: turmas sobredimensionadas, avaliação envolta em burocracia que serve apenas a estatística, currículos desadequados, escolas decrépitas, falta de assistentes técnicos e operacionais, ausência de formação adequada face aos novos desafios tecnológicos, ausência de técnicos especializados para a inclusão e professores desmobilizados, com a consequente manutenção de taxas de insucesso, são apenas alguns dos pontos que traduzem o estado da educação.

É este o estado concreto da Educação.

É sobre esta realidade que recai esta reflexão e para a qual gostaria de convocar a vossa atenção.

Certamente nem todos estarão de acordo com a exigência dos professores relativamente à recuperação integral do tempo de serviço, que o atual governo prometeu contar e não cumpriu. Dissipem-se as dúvidas, com estes ou com outros, não se produz ensino à margem daqueles que entram nas salas de aula para enfrentar todos os dias, acreditem, desafios exigentes.

A sala de aula, cada sala de aula por si própria, é um mundo completamente diferente em cada um dos tempos letivos.

Oiço e leio tristemente os comentários produzidos a propósito do desempenho do corpo docente, mas apenas aqueles que o exercem são capazes de contar as histórias que por ali vivem. Em rigor, o expoente é o crescimento dos atos de violência praticados por alunos e encarregados de educação, validados por um sistema disciplinar escolar, que é permissivo e receoso, e por padrões familiares e sociais que os fomentam.

É por estas, mas também pelas outras razões apontadas, que a vocação de professor deixou de ser procurada como profissão e, quando o é, o recrutamento faz-se através de médias de candidaturas mais baixas, que põem em causa a competência e a qualidade do ensino. No ano letivo de 2018/2019, a nota de candidatura do último colocado pelo Contingente Geral no curso de Educação Básica na Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Viseu foi de 10,84 e na Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Lisboa de 10,43.

Subsistem dúvidas?

Mas não ficamos por aqui. Os dados não mentem por muito que os torturemos.

O corpo docente está envelhecido. Segundo o último relatório do Conselho Nacional de Educação, mais de 40% dos professores têm 50 anos e apenas 0,4% têm menos de 30. Não tenhamos ilusões: sem renovação não há mobilização para transformar a escola pública em novas dinâmicas de aprendizagem, assentes em modelos mais atrativos para os alunos, com base na formação digital do professor, e que deve ter como objetivo alcançar um ambiente inovador e de qualidade, com a inserção das novas tecnologias nos processos de ensino-aprendizagem.

O resultado está à vista. Até há meia dúzia de anos não faltavam professores. Falava-se de atraso administrativo na sua colocação mas não na falta deles. Hoje, a realidade é bem diferente. No arranque do ano letivo, há turmas sem professores colocados e as bolsas nacionais de recrutamento esgotam-se, de uma forma geral, no final do 1º período. A partir daí, as substituições arrastam-se meses, muitas vezes com recurso a contratação de escola ou, no limite, através do pagamento de horas extraordinárias.

É como estamos: não há professores, nem intenção de os formar, numa ótica de qualidade do ensino que se pretende direcionado para o futuro da economia global; e, se formação de qualidade existe, nem sempre é gratuita, por isso suportada pelos docentes, com esforço acrescido para o seu orçamento familiar, já por si, tantas vezes deficitário.

Sem capacidade de atrair novos docentes, pelas razões apontadas, o Estado revela a sua incapacidade para enfrentar o desígnio mais importante para o desenvolvimento sustentado e sustentável, o desígnio da Educação e do Ensino.

Por outras palavras: passados 45 anos do 25 de Abril de 74, o Estado ainda fracassa na promoção da igualdade de oportunidades, que a escola pública já deveria ter, efetivamente, atingido. Procura, sim e sistematicamente, escamotear a sua incapacidade, tentando voltar contra os docentes a opinião pública, centrando a questão na luta política, alicerçada nos sindicatos, da recuperação do tempo de serviço congelado e de constrangimentos orçamentais para o ultrapassar; mas nunca assume que um dos ministérios que sofre mais cativações é precisamente o da Educação.

Perante este cenário, o Estado falha no cumprimento das metas que assume, descurando a sustentabilidade e a qualidade do ensino, comprometendo o futuro das gerações mais jovens. A base de uma sociedade mais justa, comprometida e solidária, qualificada e socialmente participativa assenta em patamares de ensino de excelência, que formem adultos qualificados nas mais diferentes áreas, que promovam uma economia sustentável e cidadãos mobilizadores. Caso contrário, continuaremos a assistir, diariamente, às contínuas notícias que denigrem o sistema educativo português, mas, que, acima de tudo envergonham o Estado, por ser incapaz de fazer cumprir, eficazmente, um dos direitos constitucionais mais importantes – o direito ao Ensino e à Educação.

Se todos estamos de acordo que a Educação é determinante no nosso país futuro, todos teremos também de concordar com a necessidade de investir com seriedade na formação dos professores e no apoio à escola pública, sem questionar a existência de outras ofertas, assumindo compromissos que ultrapassem as lógicas politiqueiras. Diria até: um compromisso geracional e transpartidário que recoloque os alunos no centro das nossas prioridades coletivas e para as quais os professores assumem papel determinante.

Merecemos todos muito mais, 45 anos depois da conquista da Democracia.

Professor, Vereador Câmara Municipal de Sintra

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros de órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)