Há uma regra não escrita que rege os corredores do poder: quanto menos se podia, mais se prometia; e quando finalmente se pode, esquece-se tudo. É uma lei silenciosa, mas férrea, gravada nos alicerces da política portuguesa como se fosse destino. E, no entanto, nada há de destino nisto: há apenas cálculo, oportunismo e uma cobardia revestida de pragmatismo.

O governante moderno é um sacerdote do esquecimento. Da oposição ergue-se inflamado, com a voz dos justos e o punho dos indignados, prometendo mundos, futuros, proteções e reformas. Mas no instante em que toca as rédeas do poder, transforma-se no seu contrário: já não fala em urgência, mas em prudência; já não invoca princípios, mas limitações técnicas; já não denuncia falhas, mas distribui culpas e desculpas.

Este esquecimento não é uma falha de memória: é um ato deliberado. Esquecer tornou-se forma de governar. Promete-se para conquistar e esquece-se para permanecer. O povo, assim, é tratado como arquivo morto: consulta-se apenas em campanhas, arquiva-se logo depois.

Mas a tragédia não está apenas no esquecimento deles. Está na resignação nossa. Assistimos a cada ciclo de promessas e traições como quem contempla uma peça de teatro já sabida de cor. Aplaudimos, indignamo-nos, murmuramos. Depois, esquecemos também. E nesse pacto tácito entre governantes que esquecem e governados que toleram o esquecimento, consuma-se a mais profunda decadência: a da esperança.

É assim que as grandes palavras perdem valor. Compromisso, responsabilidade, serviço público: expressões gastas, repetidas até à náusea, mas que já não significam nada. São apenas ornamentos de discursos que não resistem à primeira prova do real. E quando a realidade exige grandeza, o poder responde com papéis timbrados e conferências de imprensa.

Dizem-nos que é inevitável, que o mundo é complexo, que não há soluções fáceis. Talvez. Mas o que não é inevitável é a mentira inicial: a impostura de quem promete sabendo que não cumprirá. A diferença entre governar e governar-se está precisamente aí. E nós, enquanto aceitarmos este ritual de esquecimento como se fosse normalidade, condenamo-nos a viver governados por atores e não por estadistas.

O poder que esquece é um poder sem honra. E um povo que se habitua a ser esquecido é um povo sem exigência. Entre ambos, só sobra o vazio: e o vazio, como sabemos, consome tudo.