Os resultados eleitorais mais recentes são, em bom rigor, profundamente negativos para a estabilidade do regime. Revelam um país dividido, um sistema partidário fragilizado e uma classe política que parece, demasiadas vezes, mais preocupada em gerir o imediato do que em pensar o futuro. A ideia de que se pode brincar às eleições, como se tudo fosse apenas uma encenação mediática ou um exercício de cálculo político, vai sair-nos muito caro.

Mais do que nunca, é tempo de responsabilidade. PS e PSD, os dois partidos que têm sustentado a democracia portuguesa nas últimas décadas, não podem continuar reféns da politiquice, das agendas internas ou das lógicas de curto prazo. Com um novo líder à frente do Partido Socialista, talvez exista uma janela – ainda que estreita – para que ambos se sentem à mesa e, com coragem e sentido de Estado, avancem para um governo de coligação. Um governo que não seja apenas de sobrevivência, mas de reforma.

Os nossos líderes vivem ao sabor da espuma dos dias, com medo do Chega e do populismo, presos aos ciclos mediáticos e às redes sociais. E, assim, o país continuará a perder oportunidades.

Esse medo, aliás, só funciona a favor do próprio Chega. A cada passo mal dado, a cada ausência de visão, a cada resposta reativa e não estratégica, os partidos do centro perdem mais do que votos: perdem autoridade moral e política.

O problema é que PS e PSD ainda não compreenderam que o desafio não é apenas evitar que o Chega cresça. O verdadeiro desafio é reconquistar o país com um projeto sério, reformista, mobilizador. Em vez de jogarem o jogo da eleição seguinte ou do debate do dia, deviam estar a construir soluções sustentadas para os próximos 20 anos.

Talvez este momento de impasse e fragmentação seja, paradoxalmente, a oportunidade de que precisamos. Uma oportunidade para, sem interesses pessoais ou jogos de poder, avançarmos com a ousadia de reformar o país. De apostar, com seriedade, num futuro melhor, recuperando o espírito e a essência da nossa nação: reformista, pioneira e conquistadora. Como costumo dizer: faz falta Portugal a Portugal.”