O trabalho tem, hoje, um papel central na vida de todos nós. É tão importante que se tornou identitário, distanciando-nos do tempo em que as pessoas se definiam pela sua identidade familiar (eu sou uma Mãe, um Pai, uma irmã) ou pelos lugares de onde provinham (eu sou da cidade tal). O trabalho é uma oportunidade de contribuir significativamente para a vida em comunidade e, sobretudo, para a construção de um sentido diário de existência. Mas que existência será essa quando o trabalho que nos deveria trazer satisfação e realização nos faz mal!?

Digo fazer mal, no sentido em que nos pode fazer adoecer. Não de forma imediata como quando comemos algum alimento estragado ou como quando nos ferimos em algum objecto. Fazer mal como se de uma pequena dose diária de veneno se tratasse, prolongando os seus efeitos nefastos a conta-gotas, insidiosamente.

E como é que iniciamos essa triste trajectória do adoecer no contexto profissional? Quando deixamos de estar satisfeitos com o que fazemos no trabalho e, progressivamente, nos custa mais a levantar da cama de manhã. Quando o que nos é exigido supera aquilo que são os nossos conhecimentos e capacidades e começamos a olhar para nós mesmos depreciativamente ou a sentirmo-nos ansiosos, como que aguardando o próximo facto que confirmará a auto-avaliação negativa. Quando não nos dão autonomia para tomarmos decisões, pequenas que sejam à nossa escala, e trabalhamos sob um controlo desajustado ou pelo contrário vivemos numa aparente liberdade desprovida de rumo, apoio ou feedback por parte de supervisores ou chefias que quase nos leva a acreditar que o que fazemos não tem qualquer relevância. Quando o volume de trabalho que enfrentamos nos obriga a fazer sistematicamente horas extraordinárias, a abdicar de momentos de pausa e a sacrificar as horas de almoço, a não conseguir rever o que produzimos ou sequer pensar em soluções criativas para problemas reiterados, gerando ímpetos para alimentos híper-calóricos e de saciação rápida, confortando-nos emocionalmente através da comida ou experimentando noites e noites de má qualidade do sono, não conseguindo descansar o que precisamos e retemperarmo-nos para um novo ciclo de trabalho, vivendo um cansaço persistente. Quando o stress laboral se transforma em crónico e adicionalmente o ambiente entre colegas é tenso, conflituoso e nada colaborativo, o nosso envolvimento reduz-se à medida que o negativismo aumenta e o cinismo se torna recorrente, afectando também as dimensões pessoais e familiares da nossa vida.

A este adoecer no trabalho dá-se o nome de burnout ou síndrome de esgotamento profissional, fenómeno recentemente introduzido na Classificação Internacional das Doenças (CID) da Organização Mundial de Saúde. Segundo estudo da DECO de 2018, 3 em cada 10 pessoas estão em risco de desenvolver síndrome de burnout, o que expressa bastante bem a qualidade dos locais de trabalho no que à saúde e bem-estar dizem respeito, números estes que também deveriam trazer clarividência sobre os caminhos a trilhar relativamente às lideranças, à organização do trabalho, à gestão dos processos de mudança, às remunerações, aos dispositivos de desenvolvimento profissional e de gestão de carreira, à comunicação e reconhecimento das pessoas, à avaliação e gestão dos riscos psicossociais. E há tanto conhecimento disponível que a Ciência produziu sobre estas temáticas que somente quem anda muito distraído pode ignorar…

É impossível ser feliz o tempo todo no trabalho, tal qual nas outras esferas da vida, mas sendo algo tão identitário, tão intrinsecamente materializado na forma como o espelhamos ou escondemos de nós próprios ou dos outros, convinha que fosse mais compensador do que destrutivo.

Psicóloga especialista em Psicologia Clínica e da Saúde, Psicologia da Educação, Psicoterapia e Psicologia Vocacional e do Desenvolvimento da Carreira