É por vezes difícil constatar a influência que a ciência tem no nosso dia-a-dia, e ainda bem. Dar avanços tecnológicos como dados adquiridos significa que a ciência funcionou e é aceite por todos. Como exemplo prático temos as vacinas. Nem todos possuímos um mestrado em saúde pública, mas a maior parte de nós aceita com facilidade o consenso científico nesta matéria e aprova um programa de vacinação generalizado. Ora consensos científicos como este não são fáceis de obter. São necessários anos de investigação entre vários grupos espalhados pelo mundo, publicação de artigos com revisão por pares em revistas especializadas e apresentação de resultados em conferências internacionais. Este processo tem vindo a ser refinado desde o aparecimento do método científico e tem sido, de um modo geral, extremamente bem-sucedido.

Nas últimas décadas, este processo produziu avanços incríveis em inúmeras áreas do conhecimento. Na área da epidemiologia, são em tempos como o de hoje que os resultados deste processo são não só perceptíveis como extremamente visíveis e escrutinados pela população em geral. Como respondem os cientistas? Aumentando as suas horas de trabalho e trabalhando em prol da sociedade. Mesmo assim, esta crise mostra-nos uma vez mais que a investigação não é instantânea, que os seus resultados apenas poderão influenciar o nosso rumo a médio e a longo prazo. E a curto prazo? Aqui, o rol da ciência é ainda mais importante. As nossas respostas aos desafios de hoje baseiam-se nos avanços científicos do passado recente. Caso contrário, em casos de crises que desafiam o senso comum, como poderíamos reagir? Isto mostra a importância da ciência nos tempos de crise.

Contudo, qual a importância dos tempos de crise na ciência? Alguma. As crises fornecem dados importantes para os cientistas e podem também servir de critério para financiamento de diferentes grupos. Mas a ciência não se move unicamente por crises. Os avanços científicos mais conhecidos mostram-nos isso. Alexander Fleming, o inventor da penicilina, trabalhou como médico militar numa das grandes crises do século XX, a Primeira Guerra Mundial. A partir daí, Flemming ficou determinado a encontrar algo que permitisse combater infeções no corpo humano. O resultado veio dez anos mais tarde através de duas descobertas acidentais. Primeiro, notou que o muco do nariz proveniente de um espirro poderia matar bactérias. Segundo, ao deixar um prato de bactérias à janela, o prato começou a acumular bolor. Flemming reparou que bactérias em contato com o bolor eram destruídas por uma espécie de mould juice (sumo de bolor). A este sumo ele chamou penicilina. O exemplo de Flemming mostra-nos que, apesar de poderem existir motivações iniciais para a investigação decorrente de crises, os avanços podem ser feitos puramente por motivação de cientistas aliada à sorte.

Felizmente, como sociedade, aprendemos a valorizar a ciência em tempos fora da crise não só na saúde como em outras áreas. Nas últimas décadas, foram levados a cabo vários empreendimentos científicos movidos pela curiosidade humana em compreender o mundo que nos rodeia. Como exemplo temos o acelerador de partículas CERN, a estação espacial internacional ISS e o observatório de ondas gravitacionais LIGO. Estas experiências são feitas com investimentos enormes da parte de governos do mundo inteiro, mas possuem um retorno científico incalculável. Outros empreendimentos, como a fusão nuclear, são movidos não só pela curiosidade humana como por crises futuras tidas como a crise energética. Este é um problema que terá de ser enfrentado pela nova geração, mas que a ciência tenta dar respostas hoje. O ITER, um reator experimental de fusão nuclear em construção no sul de França, é o culminar de décadas de investigação nesta área. Através da fusão, os cientistas esperam conseguir responder a um dos maiores desafios do século: o que acontece quando as fontes de energia não-renováveis se começarem a esgotar? A fusão oferece uma alternativa renovável a larga escala, segura e limpa, mas com um grande investimento inicial.

Qual a importância dos tempos de crise na ciência? Em suma, as crises mostram como o investimento na ciência, incluindo vacinas, tem de ser visto a longo prazo e mostram como não podemos dar avanços tecnológicos como adquiridos em tempos normais.