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A história oficial do International Thermonuclear Experimental Reactor (ITER, Reator Termonuclear Experimental Internacional) começa em novembro de 1985, onde, durante a Cimeira de Genebra, os chefes de Estado Ronald Reagan e Mikhail Gorbachev abriram uma nova era na relação entre os Estados Unidos e a União Soviética. No dia 21 desse mês, foi emitido um comunicado, onde ambos os estadistas concordaram na necessidade de melhorar as relações EUA-USSR e a situação internacional como um todo, sendo enumerados 13 pontos essenciais. O último ponto tem como título “Investigação em Fusão” e realça o potencial da fusão nuclear controlada, como fonte de energia segura e virtualmente inesgotável para o benefício de toda a humanidade. A ideia da construção de uma nova máquina a fusão nuclear estava lançada. Onze meses mais tarde, esta ideia foi confirmada na Cimeira de Reykjavik, onde a Comunidade Europeia da Energia Atómica (EURATOM, da qual Portugal faz hoje parte) e o Japão se uniram para tornar a ideia de uma Grande Máquina (“Big Machine”) realidade: o atual ITER. Este representa o culminar da cooperação entre vários países mundiais (incluindo os EUA, a URSS e depois a Rússia e o Reino Unido) desde a conferência “Átomos pela Paz” em Genebra, em setembro de 1958, onde a investigação em fusão nuclear começou oficialmente a ser desclassificada.

Apesar da existência de uma diversidade de opiniões científicas e políticas, a fusão nuclear tem-se revelado um tema de convergência, união e paz à escala mundial, mesmo durante um contexto de Guerra Fria. Um exemplo concreto desta convergência inesperada ocorreu no ano de 1969, o famoso ano da chegada do homem à Lua. Desde os anos 50, que foram propostos vários desenhos de reatores possíveis para uma máquina a fusão. Nesta lista estão incluídos o Stellarator (EUA), o Z-pinch (UK) e o espelho magnético (EUA/USSR). Contudo, na terceira conferência internacional em física de plasmas e fusão nuclear controlada de 1968, os cientistas russos apresentaram os resultados da sua última invenção: o tokamak. De acordo com a equipa de Kurchatov, a temperatura no seu interior havia chegado aos 10 milhões de graus e o tempo em que eles conseguiram conter o material quente no seu interior foi dez vezes superior ao da concorrência. Caso estes resultados estivessem corretos, isto poderia ser uma viragem profunda na investigação em fusão, podendo lançar uma nova esperança nos resultados desanimadores da altura. De modo a corroborar estes resultados, no auge da Guerra Fria, os cientistas russos fizeram uma proposta audaz: levar os cientistas britânicos e os seus novos detetores a laser até ao tokamak russo, na então União Soviética, para estes poderem medir a temperatura da máquina de maneira independente. Na primavera de 1969, a equipa britânica e as suas cinco toneladas de equipamento aterraram na Rússia, tendo recebido um tratamento cordial e amistoso por parte das autoridades e do povo russo. Após a realização de cerca de 88 experiências, confirma-se: a máquina atinge consistentemente os 10 milhões de graus. Esta descoberta abriu um novo período na investigação em fusão nuclear, levando, eventualmente, à decisão de construir o ITER, seguindo o modelo russo: o tokamak. Nas décadas seguintes, a investigação em fusão e, em particular, a utilização de tokamaks iria proliferar nos quatro cantos do planeta, inclusive em Portugal, com a máquina ISTTOK – o reator de fusão de investigação do Instituto Superior Técnico.

Esta semana, a 28 de julho 2020, em Saint-Paul-lès-Durance, depois de mais de uma década de desenho e construção, ocorreu a cerimónia oficial que celebra o início da montagem da máquina ITER. Aqui, o presidente francês Emmanuel Macron, em conjunto com o diretor-geral do ITER, Bernard Bigot, e líderes governamentais dos vários países cooperantes , discursou e enfatizou a importância do projeto. Macron assinalou que o “ITER é uma promessa de paz”, recordando o passado de convergência que levou a comunidade até aqui. De facto, o ITER advém da contribuição não só dos EUA, Rússia, Europa e Reino Unido, como da China, Japão, Índia e Coreia do Sul, mostrando que um avanço científico real com colaborações à escala mundial é, de facto, possível. Além disso, Macron relembrou que o “ITER é uma promessa de progresso”. Na realidade, já passaram várias décadas desde a Cimeira de Genebra e a fusão nuclear continua a necessitar de investimento e investigação de modo a poder ser encarada como uma possível energia do futuro. Contudo, é com a perseverança da comunidade científica, com a confiança nos resultados dos seus pares e com o acordo entre Estados que o progresso caminha a passos largos. Caso tenha sucesso, o ITER demonstrará que a humanidade tem a capacidade de gerar energia não poluente, livre de carbono e segura.

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