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O preço da eletricidade no mercado grossista (preço spot), que serve de referência para o valor do kWh que pagamos na fatura, é estabelecido através de leilões diários em que participam, como vendedores, os produtores de eletricidade e, como compradores, os consumidores (comercializadoras e indústria). Devido à natureza dinâmica da oferta e da procura, à configuração das redes e ao facto da eletricidade não ser armazenável, o seu preço é extremamente volátil, mais do que o mercado de ações ou o Bitcoin. É difícil prever (e mais ainda acertar) o preço da eletricidade para o dia seguinte. Mas e em relação a um futuro mais distante, será que é possível sabermos hoje quanto vamos pagar de eletricidade em 2050?

Em 16 de setembro de 1954, o presidente da Comissão de Energia Nuclear dos Estados Unidos da América, Lewis Strauss, afirmou, que graças às centrais nucleares as gerações futuras iriam beneficiar de eletricidade tão barata que os contadores elétricos se tornariam inúteis (too cheap to meter). Passados 65 anos, sabemos que a energia elétrica não é gratuita e que a fatura que pagamos depende dos consumos registados pelo contador que temos em casa. É verdade que não existem centrais nucleares em Portugal, mas na vizinha Espanha, mercado elétrico com o qual estamos ligados e partilhamos o preço da eletricidade no mercado grossista, existem cinco centrais nucleares em exploração. No entanto, as tecnologias que hoje marcam a agenda são as renováveis, nomeadamente a solar e eólica. Estas, ao utilizarem recursos virtualmente gratuitos e inesgotáveis, têm um custo marginal de produção igual ou próximo de zero. Significa isto que, com a cada vez maior produção elétrica renovável com custo marginal nulo, tenderemos a pagar um valor negligenciável pela eletricidade e que em 2050 podemos finalmente dispensar o contador de eletricidade em nossa casa?

Se analisarmos o preço da eletricidade nos mercados grossistas da Europa observamos que, tendencialmente, quanto maior for a contribuição das renováveis num dado período, menor é o preço. No entanto há que ter em conta aquilo que o economista alemão Leon Hirth defende no artigo Energy Policy, publicado em 2013, que o valor económico da energia solar e eólica tende a diminuir à medida que aumenta a sua contribuição para o mix de geração, devido à sua natureza imprevisível, intermitente e volátil. Mas se olharmos para as curvas forward nos mercados de futuros de eletricidade, a verdade é que a tendência é mesmo de descida, reflexo da crescente penetração de renováveis prevista nos planos de energia e clima dos países. Os preços nos leilões de renováveis que têm acontecido um pouco por toda a Europa apontam também, cada vez mais, no sentido descendente.

O mercado elétrico atravessa uma transformação profunda e em breve teremos novos atores que trazem consigo uma nova dinâmica. As comunidades locais de energia, as baterias, a bombagem e o veículo elétrico vão introduzir uma camada de flexibilidade no sistema, na medida em que podem reduzir consumos, quando a carga na rede for elevada, e aumentá-los quando o preço for favorável, o que irá contribuir para aliviar os picos de carga na rede e, por conseguinte, diminuir a pressão sobre os preços. Tudo isto só será possível com contadores inteligentes, que já não servem apenas para registar consumos e passam a monitorizar, em tempo real, as condições do mercado, permitindo adaptar o consumo e otimizar recursos. À data de hoje é difícil prever quanto é que vamos pagar de eletricidade em 2050, mas provavelmente vamos pagar menos do que hoje. A única certeza, é que vamos ter um contador de eletricidade em casa.

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