2020 terminou com boas notícias para o sector elétrico português. Ao longo do ano passado, a produção renovável representou 59% do consumo de eletricidade (em 2019 tinha sido 51%), um valor assinalável, impulsionado pela queda de 3% no consumo, pelas temperaturas de inverno superiores ao normal e pelos níveis de produção hidroelétrica e eólica robustos, em linha com o regime médio. No final de dezembro, durante quase cinco dias seguidos, não se queimou gás natural ou carvão nas grandes centrais térmicas.

Em Portugal, o contributo das renováveis no consumo de eletricidade tem vindo a aumentar de forma sustentada, graças ao investimento feito em nova potência instalada. Perante este facto, podemos ser tentados a pensar que a solução para a descarbonização do sistema elétrico é, afinal, bastante simples. Basta continuar a trajetória de investimento em novas renováveis, até que estas representem a totalidade do consumo, altura em que nos podemos finalmente livrar das centrais térmicas a gás natural (as centrais a carvão, entretanto, encerram mesmo, qualquer que seja o cenário). Este caminho pode ainda ser acompanhado pelo investimento em baterias, para armazenar eletricidade quando a produção renovável for superior ao consumo, e teremos então um sistema elétrico 100% renovável, com os mesmos níveis elevados de qualidade de serviço a que estamos habituados.

Mas como bem sabemos, a natureza é inconstante, volátil e o início de janeiro é prova disso mesmo. Se no final de 2020, os ventos estiveram (literalmente) de feição para o sistema elétrico, 2021 começou de forma bem diferente. As temperaturas nos primeiros dias de janeiro foram entre 5 e 10º C inferiores ao normal, o que fez aumentar o consumo, e a produção renovável foi baixa. Por exemplo, nos dias 4, 5 e 6 de janeiro, a eólica e a fotovoltaica asseguraram apenas 8% e 1% do consumo, respetivamente. A grande hídrica deu uma importante ajuda para que a energia elétrica tenha chegado a nossas casas sem perturbações, com 40%, mas o maior contributo para a segurança de abastecimento veio mesmo da grande térmica a gás natural e carvão, com 44%.

Imaginemos agora que estes três dias de janeiro ocorriam numa sequência de anos secos, num cenário em que o parque electroprodutor é constituído exclusivamente por renováveis. O armazenamento nas albufeiras poderia ser mobilizado, mas num período de seca prolongada não permitiria cobrir toda a procura. Com uma ponta de 10 GW, como ocorreu a 6 de janeiro, a boa capacidade de interligação com Espanha e as baterias também não seriam suficientes. Esta últimas podem ser mobilizadas por períodos de horas, para alisar picos de produção e consumo, mas tecnicamente não têm capacidade para assegurar o abastecimento de um país durante dias. Teríamos, assim, uma situação crítica, em que muito provavelmente teriam de ser cortados consumos para não colocar em risco a estabilidade do sistema elétrico.

Como este início de ano veio demonstrar, as centrais de ciclo combinado a gás natural são fundamentais para garantir a segurança de abastecimento do país. É possível mantê-las em funcionamento, mesmo tendo como meta um sistema elétrico neutro em carbono, complementando-as com tecnologias de captura e armazenamento de carbono ou compensando as suas emissões com as emissões negativas de outras fontes renováveis, como a biomassa. Podem também ser mantidas em paralelo com outras iniciativas, como a plantação de árvores em áreas desflorestadas. Encerrar as centrais termoelétricas e abandonar o gás natural em Portugal, sem estudos técnicos e económicos que o sustentem, baseando essa decisão em preconceitos, seria um erro que, mais cedo ou mais tarde, todos iríamos sentir.

As economias mundiais mais desenvolvidas apresentaram as suas estratégias para o hidrogénio e suas aplicações, nomeadamente no armazenamento de energia elétrica de fontes renováveis e tecnologias de captura de carbono. Sabemos hoje que é possível transportar até 20% de hidrogénio nos gasodutos existentes sem adaptação ou substituição de componentes e já se testa a conversão de gasodutos para transportar hidrogénio puro. No futuro, será possível converter centrais de ciclo combinado a gás natural para hidrogénio, e uma das áreas de investigação é a utilização de amoníaco como combustível. Em Portugal, onde a Estratégia Nacional para o Hidrogénio também já foi apresentada, dispomos de infraestruturas de transporte e distribuição de gás natural, que em grande parte já foram pagas, pelo que excluir o gás natural e o hidrogénio da equação da transição energética seria um erro estratégico.

Os objetivos para a transição energética, sustentabilidade e segurança de abastecimento de energia do futuro requerem um mix de soluções disponíveis para responder a diferentes contextos, nomeadamente meteorológicos. Não existe uma tecnologia ou grupo de tecnologias que, de forma isolada, consiga responder, em segurança, a todos os cenários possíveis. O sistema energético do futuro deve ser desenhado com base em rigorosos critérios técnicos, económicos e ambientais, sem excluir à partida nenhuma fonte primária. O investimento em mais capacidade renovável será, sem dúvida, um dos pilares desse sistema, mas deve ser acompanhado por outras tecnologias que forneçam a flexibilidade, disponibilidade e capacidade que as renováveis, em alguns períodos, não conseguem garantir.

Portugal tem sabido tomar boas decisões no campo da energia. A partir de 1950, começámos a aproveitar o potencial hídrico e iniciou-se a construção de centrais hidroelétricas. Umas décadas mais tarde, com o aumento dos consumos de eletricidade, apostou-se na construção de grandes centrais térmicas e foi tomada a decisão de introduzir o gás natural em Portugal, concretizada em 1997. No início deste século começou a aposta nas renováveis. A partir de 2005, investiu-se na eólica e, posteriormente, na fotovoltaica. Mais recentemente, foram assumidos objetivos ambiciosos para a transição energética e descarbonização da economia, com metas exigentes até 2050. O país tem todas as condições para as alcançar, de forma economicamente eficiente se, uma vez mais, forem tomadas boas decisões.