A notícia de que a Polícia Judiciária localizou e apreendeu “um importante acervo” de documentação da PIDE/DGS veio levantar de novo a questão da envergadura do desvio de documentos dessa polícia política após o 25 de Abril de 1974.

Desta vez trata-se da colocação à venda na Internet de 700 negativos de clichés fotográficos aparentemente de fichas de indivíduos identificados pela antiga polícia, classificados por nome e alcunha.

Este caso é mais uma prova de que não foi impossível o desvio de arquivos da PIDE para a União Soviética com a participação dos serviços secretos soviéticos e do Partido Comunista Português, afirmação baseada em documentos e testemunhos.

As primeiras denúncias deste roubo foram feitas por dois importantes agentes secretos soviéticos que decidiram desmascarar algumas das mais importantes operações do Comité de Desefa do Estado (KGB) da URSS: Vassili Mitrokhin e Oleg Kaluguin.

Kaluguin, general que dirigiu a contra-esponiagem soviética no estrangeiro, escreveu: «Quase ao mesmo tempo, terminei o trabalho de criação de um livro de informação com o nome de Quem é Quem na CIA dos Estados Unidos. Ele foi feito por um grupo de especialistas e analistas. Fizeram um trabalho colossal para organizar milhares de funcionários e agentes da PIDE, polícia política da era do ditador Salazar. Em meados dos anos 70, quando em Portugal reinava o caos revolucionário, o Partido Comunista local, com a ajuda dos seus correligionários nos serviços de segurança, roubou parte dos arquivos da PIDE e entregou aos agentes do KGB em Lisboa um camião carregado de fichas da PIDE. Ao analisar as fichas dos agentes da CIA, descobri numa delas o apelido de uma dama que conseguiu, na Colômbia, envolver numa história de amor e, depois, de espionagem, o diplomata soviético Ogorodnik, mais tarde desmascarado em Moscovo como espião americano”.

A direcção do Partido Comunista Português tentou desvalorizar essas revelações, alegando que esses antigos agentes soviéticos não passavam de “traidores”.

No meu livro “Cunhal, Brejnev e 25 de Abril”, revelei, com base em documentos, que a citada “dama” era Pilar Suarez Barcala, mas ainda antes do livro ter chegado às livrarias, o PCP reagiu a propósito da sua publicação, dizendo que “não merecem comentário afirmações desqualificadas assentes em velhas e recorrentes falsificações”. Outra reacção não se esperava.

Publiquei também as memórias de um jornalista soviético, Guenrikh Borovik, que, com ajuda de “camaradas portugueses” passeou livremente na sede da PIDE/DGS em Lisboa.

O jornalista José Pedro Castanheira publicou igualmente o testemunho do tenente-coronel José Aparício,  comandante da PSP de Lisboa, que testemunhou o desvio da documentação.

Foi também curiosa a reacção à publicação do livro da parte do coronel Sousa e Castro, que substituiu Rosa Coutinho em 1975 no serviços de apoio ao Conselho da Revolução e na Comissão de Extinção da ex-Pide/DGS e Legião Portuguesa. Ele escreveu no Facebook um longo comentário, onde, entre outras coisas, ironiza: “Mas a questão essencial, é que este heterogéneo grupo político civil que passou a fazer companhia aos militares [na Comissão de Extinção da PIDE/DGS] exerciam uma vigilância mútua de tal ordem que é absolutamente delirante pensar nas colunas de Berliets (camiões) que a coberto da noite carregaram toneladas de documentos e se puseram a caminho da União Soviética, numa operação Jamesbondiana sem paralelo cá no burgo !!!!!”.

Afinal, as coisas parecem não ter sido bem assim. Se juntarmos a revelação actual da Polícia Judiciária aos factos e argumentos acima referidos, pode-se concluir que os Arquivos da PIDE que se encontram na Torre do Tombo estão longe de estar completos e a afirmação de que parte dos documentos da polícia política foram desviados para Moscovo ganha ainda mais força.