As eleições presidenciais de 2026 não serão apenas uma escolha de pessoas. Serão um teste simbólico ao tipo de país que Portugal quer ser. A Presidência da República não governa, mas molda o clima moral, o tom do debate público e o horizonte de expectativas da nossa sociedade. Nesse sentido, o que está em causa não é apenas quem vence, mas o que essa vitória comunica ao país. Uma nação não escolhe apenas um Presidente mas também uma narrativa sobre si própria.
Luís Marques Mendes representa, de forma quase caricatural, a ideia de que a Presidência é um prémio de carreira. Um cargo de consagração para quem passou décadas no comentário político, no aparelho partidário e nos corredores do poder. Não tem uma visão transformadora, não tem ambição nacional, nem qualquer tensão criativa. Padece apenas da normalização da política como profissão e da Presidência como reforma dourada. O problema não é pessoal, mas estrutural. Um país que escolhe este tipo de figura está, implicitamente, a dizer que não quer ser desafiado, apenas tranquilizado. Que prefere previsibilidade e uma anestesia ao desconforto, passado e futuro.
António José Seguro encaixa numa lógica semelhante, embora com uma diferença, a de simbolizar não tanto o cinismo do sistema, mas o seu cansaço. É a política em modo de repetição e um nome que remete para um tempo que já não responde às perguntas do presente. Seguro representa a ideia de que a moderação, por si só, é virtude suficiente, ignorando a total ausência de uma visão de futuro. A sua eleição seria uma mensagem de retorno a uma zona de conforto emocional, mas sem qualquer proposta de reconfiguração estrutural do país. Não é um problema de caráter ou seriedade, é um problema de ambição.
O Almirante Gouveia e Melo representa a tentação tecnocrática e disciplinar. A ideia de que, perante o caos e a ineficiência, a solução é importar autoridade. A sua imagem pública foi construída sobre competência, rigor e comando, que são virtudes reais, mas insuficientes para definir um projeto de país. A Presidência não é um quartel-general nem um submarino. Não se trata de impor ordem mas de inspirar um rumo. O risco aqui é transformar a liderança num fetiche e confundir eficácia operacional com visão civilizacional. Um país não se transforma por ordens mas sim através de ideias.
André Ventura, por sua vez, representa um fenómeno diferente: o voto de raiva, de saturação e de ruptura emocional. Não é um projeto de país, mas um sintoma. A sua candidatura é a expressão de uma sociedade cansada, desconfiada das elites, ressentida com o imobilismo e disposta a apostar na confrontação como forma de catarse. O problema é que a catarse não constrói instituições, não desenha políticas públicas e não cria prosperidade. Apenas consome. Ventura não representa um caminho, representa um grito, e esses, não governam nem orientam.
Preocupante é ainda o estado da esquerda portuguesa. O que outrora foi uma força estruturante da democracia transformou-se numa combinação de moralismo performativo, maximalismo retórico e incapacidade estratégica. Ao abandonar a centralidade do crescimento económico, da mobilidade social e da criação de riqueza, a esquerda refugiou-se num discurso cada vez mais identitário, punitivo e autorreferencial. O risco não é perder eleições, pois já as perdeu. O risco é tornar-se estruturalmente irrelevante. Ao radicalizar-se, afasta o eleitorado moderado, entrega o centro político e arrisca-se a décadas de marginalidade parlamentar. A esquerda deixou de disputar o futuro e passou a gerir ressentimentos da luta de classes.
É neste contexto que surge João Cotrim de Figueiredo. O que Cotrim representa não é apenas uma pessoa, mas uma ideia raríssima em Portugal: a de que se pode ganhar eleições com uma agenda reformista, racional e não populista. A de que é possível dizer aos portugueses que o país precisa de mudar estruturalmente, que é necessário fazer sacrifícios e que, ainda assim, é possível obter legitimidade democrática. Isso, por si só, seria revolucionário.
Imaginem a mensagem. Alguém que aparece com um discurso adulto, sem promessas mágicas, sem paternalismo, sem demagogia, e vence. A mensagem não é “concordem comigo em tudo”. A mensagem é: é possível querer diferente. É possível votar diferente. É possível romper com o fatalismo português de que nada muda, de que somos pequenos, de que temos de nos contentar. É possível trocar a cultura da queixa por uma cultura de responsabilidade e progresso.
Portugal sofre menos de falta de compaixão e mais de falta de racionalidade. Falta-nos um debate sério sobre como criar riqueza antes de a distribuir. Como desenhar instituições que não penalizem quem produz. Como transformar o Estado num facilitador e não num obstáculo. Como combater a pobreza de forma estrutural e não apenas assistencial. Um Presidente liberal-social não seria alguém que abandona os mais pobres, mas sim alguém que entende que a melhor política social é uma economia que funcione.
Cotrim é frequentemente acusado de arrogância. É verdade. Mas a história mostra que quase todas as ideias que mudaram sociedades começaram por parecer arrogantes. Se acreditar que Portugal pode ser mais produtivo, mais ambicioso, mais moderno e mais livre é visto como soberba num país treinado para a modéstia forçada, então espero que sejamos todos arrogantes. As ideias fazem o seu caminho e são sempre mais importantes do que os tiques de personalidade de quem as carrega.
A verdade é que lá fora, Portugal não é representado pelo presidente, mas por Ronaldo. O que me importa é cá dentro. Como vivemos, quanto ganhamos, que oportunidades temos e que futuro oferecemos aos nossos filhos para que cá possam viver. Um Presidente não resolve tudo isto, mas pode definir o eixo moral do debate nacional. Pode puxar o país para a frente, ou pode embalá-lo para dormir mais umas décadas.
O que está em causa em 2026 é se queremos continuar a eleger figuras de conforto, de protesto ou de ruptura vazia ou se queremos, finalmente, testar a hipótese de que um país pequeno em área pode ser grande no pensamento.
Um Presidente liberal não seria uma solução milagrosa, mas seria um sinal de maturidade coletiva. Um país que escolhe alguém que lhe diz a verdade, mesmo quando esta dói, é um país que começa, finalmente, a respeitar-se.