Ao fim de uma semana de debates, julgo que já todos ficámos com uma noção mais ou menos rigorosa das diferentes ideias que têm vindo a ser divulgadas. Depois destas 15 rondas, só um espectador muito distraído poderá dizer que ainda não conhece o posicionamento político dos protagonistas. Quando falo em protagonistas refiro-me, como é óbvio, aos comentadores que, em todos os canais, efectuam o pré-debate, o pós-debate, a autópsia do debate e, quando necessário, a exumação do debate para efeito de tira-teimas póstumo.
Até agora, têm-se mantido ideologicamente fiéis. Ainda não apanhei um comentador que, chamado a avaliar os intervenientes num debate, não considere que aquele com quem por hábito concorda politicamente venceu por larga margem aquele com quem costuma discordar. Quando não está em jogo o seu candidato predilecto, atribuem a vitória ao que dele se aproxima mais no espectro ideológico. Quanto mais politicamente afastados estão os debatentes, maior a coça com que o vencedor esmagou o adversário.
Cá em casa tenho jogado com o meu filho ao “Que nota dará este comentador?” Não é para me gabar, mas estou a dar-lhe uma abada. O facto de o miúdo ainda só dominar os números até 6 não é desculpa. Eu tenho estado mesmo muito preciso. Um debate entre um candidato da esquerda e um da direita? É certinho que a comentadora de cabelo loiro comprido, conhecida por simpatizar com a esquerda, vai dizer que o candidato da esquerda venceu 8-5. E que o comentador careca de óculos, conhecido por simpatizar com a direita, dirá o oposto, foi um 4-7 sem espinhas.
Este viés é humano, dirá o leitor. Não, não é, respondo eu. Pelo meno, não é apenas humano.
Recorri à ferramenta da moda para o cronista preguiçoso, que é utilizar a Inteligência Artificial para tornar o texto mais interessante. Pedi ao ChatGPT para me dizer, sobre todos os debates, quem é que tinha vencido. Perguntei duas vezes sobre cada um: pedi-lhe, na primeira vez, que imaginasse ser um eleitor que costuma votar à esquerda, e, na segunda, que imaginasse ser um eleitor que costuma votar à direita. Surpreendentemente, continuei a ganhar o “Que nota dará este comentador?”
A questão, parece-me, é que, na verdade, os comentadores não estão a dar notas aos políticos, estão a explicar porque é que o seu candidato favorito tem razão naquilo que diz. No fundo, estão a explicar porque é que aquilo que eles próprios pensam como melhor para o país é sem dúvida o melhor para o país.
Se calhar, para poupar a agenda dos candidatos – que precisam de tempo para filmarem vídeos para o tik tok – em vez dos debates. podemos ouvir só as avaliações pós-debate. E, claro, as avaliações pós-pós-debate, com comentadores de comentário a darem notas à performance dos comentadores políticos. No fim, votamos no comentador que queremos a representar-nos na televisão nos próximos 4 anos.