Numa tentativa de salvação da dignidade do Partido Social Democrata, assinamos este texto cientes da ameaça de “morte” proferida por “destacados dirigentes do PSD”. Assumimos o risco com a convicção de que a morte que é necessário evitar é a do PSD como o conhecemos.
Causa-nos estupefação o silêncio de um partido inteiro, por sinal o maior de Portugal, perante uma situação de gravidade política inqualificável. Toda a narrativa montada em torno deste caso, por pessoas que têm grandes responsabilidades na defesa da Democracia, é chocante. Causa-nos vergonha assistir um primeiro ministro assumir confortavelmente que seria candidato enquanto arguido.
Num momento crítico para a Europa e para o País, é inadmissível que revelem uma total falta de sentido de Estado, colocando os interesses pessoais à frente dos interesses das pessoas ao criar esta crise política, que surge única e exclusivamente por culpa do presidente do PSD e primeiro-ministro.
O que vemos acontecer em distritais como as de Aveiro, Porto e Braga, nada mais é do que o reflexo daquilo que acontece um pouco por todo o país, onde estruturas locais são dominadas por caciques que, por sua vez, aproveitam essa esfera de influência para benefício das próprias vidas profissionais.
Sejamos claros: Luís Montenegro não é um empresário que virou político, é um político que fez negócio possibilitado pelas suas conexões políticas. Como disse Hugo Soares, a situação é uma “pescadinha de rabo na boca”. De facto, sem o Montenegro político, é impossível existir o Montenegro empresário.
A atual direção do PSD tem sido eficaz a montar a máquina que a sustenta. Os job for the boys estão agora distribuídos por esse país fora pelos mais diversos dirigentes distritais e concelhios.
Para embaraço da história e dos valores do partido, Luís Montenegro é hoje o maior impulsionador daquilo que mais criticou enquanto líder da oposição, no que é mais um assassinato do PSD perante a opinião pública.
A direção do partido teima em não inverter as más práticas, perdendo votos para a extrema-direita, que nada tem a oferecer, mas que é, aos olhos de quem nela vota, uma tentativa de mudança e uma fuga do PSD. Será esta uma leitura tão difícil para os dirigentes do PSD?
Ao contrário do primeiro-ministro, que parece querer transformar as possíveis eleições antecipadas num plebiscito e numa absolvição, nós não formamos uma opinião de base criminal, pois tal não nos compete (nem, francamente, a ninguém senão ao sistema judicial). Esta é uma situação unicamente do foro político, exclusivamente causada pela conduta pessoal de Luís Montenegro.
Exige-se seriedade e racionalidade na política. A militância não deve ser vivida com espírito clubístico. A todos os militantes pede-se bom senso e espírito crítico. Aos dirigentes nacionais e atores políticos pede-se responsabilidade. Um partido forte é aquele onde há discussão de ideias e, sendo a nossa casa, devemos protegê-la e impedir a degradação de valores.
Estivemos na primeira linha da denúncia dos casos protagonizados pelo Partido Socialista. Devemos, com ética e seriedade, demonstrar que prezamos as boas práticas na nossa própria casa. Só isso nos credibiliza e reforça.
Podemos ficar à mercê da ameaça de “quem tentar, morre”, mas temos mesmo de tentar manter a dignidade do maior partido político de Portugal.