A República Democrática do Congo é um país africano com um índice populacional que  ultrapassou, no ano de 2024, os 109 milhões de pessoas, segundo dados do Banco Mundial. O  país é um dos mais abastados do mundo no que respeita aos recursos minerais, designadamente  em diamantes, ouro, cobre, cobalto, coltan, estanho e terras raras. Contudo, apesar das suas  riquezas, a República Democrática do Congo constitui um dos países mais pobres do mundo,  tendo ficado em 2025, na sétima posição do ranking estabelecido pela revista Global Finance.  A exploração de recursos minerais é a principal causa de disputa entre grupos armados e  aglomerações étnicas. O potencial geológico da República Democrática do Congo torna o país  num alvo igualmente atrativo para as grandes potências mundiais, sobretudo num período de  transição energética.

Hoje vamos até ao Congo-Kinshasa. Saudades do avô Samuel. Percorreu e viveu estas terras.  Aí trabalhou durante a colonização belga e também depois desta. Aos seus descendentes terá  deixado o “kit de sobrevivência” do suaíli e o amor por África. Já o seu pai por lá andara, mas  num modo de vida mais “liberal”. Explorava as florestas, meio aventureiro, meio alquimista,  até ao dia que “por lá ficou”. Certamente, padecia do encanto pelo que brilhava. O fascínio do  Homem pelo minério é milenar pela História das civilizações. Num contexto mais atual, à  vontade de posse, junta-se a necessidade global. Numa época de Transição Energética, Green  transition, a procura por terras raras e outros recursos minerais essenciais à produção  tecnológica revela-se uma questão imperativa da geopolítica. Sendo a República Democrática  do Congo um dos países do mundo mais ricos em recursos minerais, estes servem de atrativo  não só para as grandes potências, mas também para organizações locais.

Proponho, nesta fase inicial, um brevíssimo resumo geopolítico da RDC. Após a independência  da ocupação belga, em 1960, segue-se um período prolongado marcado por uma política  ditatorial autoritária (1965-1997), consequência do regime de Mobuto Sese Seko. Na  publicação de 2013 do Departamento dos Estados Unidos, Foreign Relations of the United States, 1964–1968, Volume XXIII, Congo, 1960–1968, é possível conhecer o seguinte relato de  David Robarge, antigo Chefe Historiador da CIA: “Ao longo dos anos, Mobutu provou ser o melhor amigo geopolítico que os Estados Unidos tivera no continente, mas também tornou-se  num dos cleptocratas mais odiados do mundo, conduziu o seu país à ruína económica e,  finalmente, ao caos político”. Ainda durante a sua presidência, a zona leste do país seria afetada  por tensões étnicas derivadas da Guerra Civil do Ruanda (1990-1994). Sucede-se um período  de conflitos internacionais, a Primeira Guerra do Congo (1996-1997) e a Segunda Guerra do  Congo (1998-2002), já num período de transição da política interna. Mais recentemente, a 30  de setembro de 2025, conheceu-se a condenação à morte do também antigo presidente da República Democrática do Congo, Joseph Kabila (presidiu entre 2001 e 2019), pelo Supremo  Tribunal Militar do país, notícia avançada pela BBC a 1 de outubro de 2025. A condenação  resultou da acusação de crimes de guerra e traição à pátria, Kabila terá apoiado a ação do grupo  rebelde M23 durante o exercício das suas funções.

Presentemente, o país vive uma importante crise humanitária consequente do conflito armado  e da concorrência territorial da sua zona oriental. Salienta-se o apoio humanitário fornecido  pela missão MONUSCO e as demais estruturas das Nações Unidas (OCHA, UNIEF, WFP…),  igualmente por Organizações Não Governamentais como a Acted, Médecins du Monde, CARE  France, etc. Neste artigo, darei ênfase à forma de atuação dos atores locais. Os conflitos a leste  da República Democrática do Congo perduram há mais de 30 anos, particularmente por razões  de origem étnica, tendo o país tido repercussões do genocídio de 1994 do país fronteiriço  Ruanda contra a tribo tutsi. Em 2021, o grupo rebelde tutsi, M23, com o apoio do Ruanda,  efetuou um retorno conflituoso à RDC. O M23 representa um dos principais atores do conflito  armado no leste da República Democrática do Congo, não só por ser uma organização já bem  estruturada, mas também pela sua influência ocupacional sobre importantes territórios, como é  exemplo a cidade de Goma, na região do Qivu do Norte. Segundo o relatório S/2025/446 do  Conselho de Segurança da ONU, datado de 3 de julho de 2025, “os líderes militares e políticos  da AFC (Alliance Fleuve Congo)/M23 continuaram a receber instruções e apoio do Governo  do Ruanda e dos seus serviços de informação”. No mesmo documento, é evidenciada a trafega  por contrabando do minério extraído ilegalmente da RDC, realizada pelo grupo M23 e com  destino ao Ruanda: “A exploração mineira ilegal nos territórios controlados pelo AFC/M23,  o contrabando para o Ruanda de minerais não comercializáveis, a sua mistura com a produção  ruandesa e a sua posterior exportação para atores situados a jusante, atingiram níveis sem  precedentes.”. Dado o momento oportuno, poderei aqui citar Eça de Queirós, que nas suas  Cartas familiares e Bilhetes de Paris (1893-1897), escreveu: “Onde aparece o ouro, o terrível  ouro, imediatamente os homens em redor se entreolham com rancor e levam as mãos às  facas.”.

O grupo rebelde M23 é detentor de armamento pesado. O relatório A/HRC/60/80 do Conselho  dos Direitos do Homem da ONU, datado de 5 de setembro de 2025, comprova existência de  “artilharia pesada”, e de ataques efetuados com o auxílio de morteiros e mísseis antitanque, os  ATGM. Relativamente à forma de ocupação territorial, a ofensiva contra civis pode ocorrer de  forma extremamente violenta. O mesmo relatório denuncia atos de barbárie e com recurso a  métodos primitivos: “Em julho, o M23 lançou uma grande ofensiva à chefferie de Bwisha  (Rutshuru)… durante a qual, segundo sobreviventes, centenas de civis, na sua maioria hútus,  entre os quais dezenas de crianças (incluindo bebés), foram executados sumariamente com  uma catana ou um machado.”. Ainda à cerca da invasão de território, percebemos através do  já citado relatório A/HRC/60/80, que a ocupação ilícita acontece de forma rápida, através de  uma organização premeditada, da apropriação de importantes infraestruturas administrativas e  organizacionais e da implementação de um sistema de gestão próprio: “A 27 de janeiro, as  tropas do M23 e das RDF (Forças de Defesa do Ruanda) entraram em Goma… A 14 de  fevereiro, (o M23) apoderou-se do aeroporto de Kavumu e, dois dias depois, da capital provincial, Bukavu… Após tomarem Goma e Bukavu, a AFC e o M23 nomearam  “administradores”… criaram o seu próprio “sistema de cobrança de impostos”, gerando  receitas graças à instauração de novas “taxas” ou ao desvio de impostos existentes, inclusive  sobre as atividades mineiras.”. A influência do M23 neste conflito regional é patente. Mas são  dezenas os grupos armados referenciados por todo o país. Numa localização mais a Sul do  Qivu, a região do Catanga também padece de conflitos armados. O Catanga é uma outra região  extremamente próspera em recursos naturais e, por isso, ambicionada. Por ela passa a  Copperbelt (cinturão de cobre), zona natural extremamente rica em cobre e cobalto. O  surgimento nesta mesma região de novos grupos armados, como os Bakata Katanga, milícia  armada independentista surgida em 2010, e os ataques executados por estes (noticiados pela  Deutsche Welle a 14 de janeiro de 2026), evidenciam mais uma vez, a fragilidade da ação  defensiva das Foças Armadas da República Democrática do Congo. Como estratégia de  reforço, as FARDC acabam por criar alianças com grupos armados locais.

Não podemos ignorar a forma de expansão destes grupos armados, particularmente a do grupo  M23. Observa-se que esta se faz principalmente em direção a sul, tendo influência até ao  momento nas fronteiras do Uganda, Ruanda e Burundi. A perceção de que o Rio Congo reflete uma barreira natural contra a expansão e a pilhagem de outras regiões, nomeadamente em  direção à zona central do país, região florestal “além-rio” rica em diamantes, é, portanto,  inevitável. Podemos aqui evocar a teoria das “fronteiras naturais”, trazida ao mundo pelo  Cardeal Richelieu no séc. XVII, e a influência que este género de barreiras tem na moldagem  da geopolítica e da geoestratégia de um Estado. Estando comprovada a influência do Ruanda  na usurpação territorial da República Democrática do Congo, verifica-se que a fronteira  estabelecida através da “linha imaginária” é constantemente violada e, por conseguinte, o  conflito regional poderá evoluir para um conflito de ordem internacional. Pode-se assim  concluir que o Rio Congo, o segundo maior rio do continente africano, constituiu uma barreira  defensiva da RDC face à invasão do fronteiriço Ruanda.

Dada a insuficiência defensiva do Estado, os conflitos armados no leste da República  Democrática do Congo e a ocupação rebelde tendem a permanecer, a intensificar-se e a alastrar se para outras zonas do país. De acordo com dados divulgados no já mencionado relatório  A/HRC/60/80 da ONU, até ao termo do ano de 2024, os confrontos e a crise humanitária teriam  forçado a partida de 7,8 milhões de pessoas,só nas regiões do Norte e do Sul do Qivu. A disputa  territorial, a concorrência pelos recursos, as tensões multiétnicas e o histórico de dezenas de  anos de desavenças, convertem o leste da RDC e as suas conexões fronteiriças, numa zona do  globo extremamente sensível. Até ao momento, as manobras diplomáticas revelam-se na  prática ineficazes e as sanções recentemente aplicadas ao Ruanda pela sua implicação na  agressão à RDC, não têm surtido efeito de retração. Podemos deste modo concluir que o  apaziguamento deste conflito generalizado depende de uma intervenção mais acentuada da  Comunidade Internacional.