Os transportes em comum das grandes metrópoles são uma quase metáfora das  Relações Internacionais e da Diplomacia. Nestes espaços e num mundo  globalizado, os movimentos demográficos, contextos socioeconómicos, posições  políticas, religiões e culturas são diretamente postos em causa. Face à presença de  diferentes atores, neste caso a multiplicidade de passageiros, os conflitos são  presentes, e forças opostas entram em confronto. O uso da Diplomacia nem  sempre se mostra eficaz, sobretudo numa situação de desequilíbrio de poder. A segurança dos passageiros é imediatamente posta em causa quando, numa simples  quezília, um dos atores e transeuntes se recusa a dialogar e passa assim a uma  afronta direta, podendo para tal recorrer a um instrumento ofensivo. As regras da  sociedade que abrange os meios de transporte em comum, neste caso teatro de  operações, são frequentemente transgredidas e vai restando uma espécie de “lei comum” popular que vai regendo as condutas.

Estudava em Paris numa universidade pública parisiense aquando do estado de alerta  máximo de terrorismo no país, e dos inúmeros atentados. Ter de abandonar um local  público por suspeita de ameaça, ou no dia a dia cruzar militares da “Opération  Vigipirate”, armados e em grande número, foi a realidade vivida a longo termo por mim e  grande parte da população do território. A história de hoje passa-se na linha 13 do  Metropolitano de Paris, meio de acesso mais direto ao campus universitário, embora de  grande risco.

Amanheceu, talvez seja hoje o meu último dia. Eu até já passara a fase de viver  assombrada pela morte. Talvez ela chegue sem que eu me aperceba, talvez nem sinta frio. Farei como os colegas, levo uma manta na mochila, em qualquer dos cenários, esta  dar-me-á algum consolo. Tenho que me apressar, de Versailles a Saint-Denis ainda é  uma longa viagem, obriga-me a atravessar Paris e a apanhar a linha 13.

Foram construir um centro empresarial e uma universidade nos arrabaldes. Há umas  décadas, houvera uma segregação dissimulada de populações além-fronteiras, que  incluiu portugueses, italianos, magrebinos e tantos outros. Puseram-nos a viver em  cidades-betão, daquelas imaginadas à moda de Le Corbusier, grande parte situadas no  cimo das colinas, mas decerto afastadas do mundo urbanizado e das populações locais. No pouco tempo livre que dispunham, estes imigrantes nem precisavam de se  deslocar até ao centro das cidades, pois comércios de bens essenciais foram previstos  no interior dos imóveis. As pessoas também puderam beneficiar de pequenas entradas  de luz natural no interior das suas habitações, uma quase bênção desta “maravilhosa  arquitetura”. O importante era que as pessoas conseguissem, ainda que de forma dificultosa, quase epopeica, chegar ao local de trabalho, para assim poderem cuidar e manter as moradas dos atores locais e mesmo educar os filhos destes últimos. Tom de  ironia à parte, os anos passaram, decisões políticas foram tomadas e nos dias de hoje o caos social é um facto.

Entretanto, já cheguei à linha 13, espero encontrar um assento vago do lado da janela,  nunca desperdicei uma oportunidade de descanso. Foi o que aconteceu, mas o sossego  foi “de pouca dura”. Entrara na 13 uma jovem de burca, de origem francesa, com a pele das mãos tapada. A senhora de idade marroquina que estava sentada ao meu lado fez  logo “cara feia”. Usava um lenço colorido na cabeça que lhe cobria o cabelo,  mas deixava transparecer a simpatia do seu rosto. Os ânimos exaltaram-se, havia no  vagão uma atmosfera pesada e sentida, as pessoas, a maioria de confissão muçulmana, viram naquele traje um ato provocatório, sobretudo no contexto em que se vivia. Na  faculdade, eu ouvia histórias sobre estas jovens apreciarem o facto de serem  completamente submissas aos maridos, homens estes que muitas vezes dispunham de  um arsenal de armas automáticas, sobretudo armas Kalashnikov, dentro da própria  casa, casa-social diga-se. Centenas destas mulheres partiram rumo à Síria e juntaram se ao Estado Islâmico. A burca era na altura associada ao extremismo religioso, daí a  reprovação na 13.

Dia 18 de novembro de 2015, saio mais cedo de casa, é dia de exame e quero chegar  atempadamente. Fico bloqueada na 13, desta vez de pé, não há assento vago. Obrigam-nos a sair na estação “Carrefour Pleyel”, finalmente conheço o tal centro empresarial,  e fico a saber pelos populares que os acessos a Saint-Denis tinham sido barrados, uma  jovem kamikaze fez-se explodir num imóvel do centro da cidade.

A verdade é que eu evitava ao máximo apanhar o metropolitano, sobretudo as linhas  mais mal-afamadas, mas num dia festivo, e só por três estações, testemunhava mais  um evento à altura! Algo degenerou muito rápido sem que eu me tenha apercebido das  causas e acabei por levar com réstias de gás-pimenta pela polícia. De repente, tinha  uma criança aos gritos nos braços. Com toda a força abracei-a, protegi-lhe a cabeça  tentando tapar-lhe com toda a força os ouvidos, a violência ao redor era imensa. Disse-lhe:  “Não te movas, não chores, já já encontro os teus pais”. Era uma família de visita à  capital. Nestas alturas temos uma capacidade de reação imediata, e certos  automatismos em relação às prioridades. Amanhã é outro dia, voltarei a encarar a 13,  pensei.

Na linha 13 viajam estudantes, professores, executivos, modestos trabalhadores e todo  o tipo de criminosos, desde o simples salteador ao sujeito do crime organizado.

Voltei à 13, é uma viagem de regresso. As portas estão fechadas e encontramo-nos  parados a meio de um túnel. A situação prolonga-se. É chegado o então momento de  silêncio em que trocamos olhares uns com outros, olhares de receio. Um ligeiro odor  acido de suor inquieto acresce naquele espaço fechado. Sem qualquer entendimento, a corrente elétrica é cortada, as portas abrem-se e funcionários da RATP, empresa de  transportes, chamam-nos com grandes lanternas. Alerta de bomba. Tivemos que  abandonar o local lá onde o metropolitano se encontrava. Desta vez a viagem fazia-se por caminhos estreitos, escuros e asquerosos. O pânico foi modesto, já estávamos  habituados ao improviso, o sangue-frio era o único que corria nos nossos corpos. Um  ladrão de telemóveis, já o havia topado antes noutras viagens, ajudou-me a sair do vagão  e acompanhou-me no caminho até à estação mais próxima. Carregou-me os livros,  livros eram uma coisa cara! Falou-me das montanhas da Argélia, dos locais a desbravar!  Senti-me segura.

Na 13 existia um “Código de Hora”: não roubarás o estudante. Quantas vezes saíamos  da faculdade, já a noite se fazia. No transporte escondíamos o frio com o que havia à  mão e adormecíamos de tanto cansaço, éramos de verdade zelados por um eventual marginal. Quem tentava violar o “Código de Honra” era imediatamente interrompido  pelo grito de autoridade do estudante quase soldado: “Hei, comigo não!”.

Recordo-me que nas viagens de regresso, entrava sempre alguém aos prantos, um  estudante esgotado, dececionado com uma avaliação ou simplesmente com a  morrinha. Procurava sempre sentar-se perto da “mamã africana”, figura aleatória  de saias bonitas e que com as suas palavras adequadas e curtas o confortava, para além  de ter sempre guardado naquelas grandes malas de mão, um lanche para o aflito  vindouro.

A lição que retiro destas viagens de metropolitano: mesmo no pior dos tiranos reside um  pingo de sensibilidade e por conseguinte, uma possibilidade de negociação  e entendimento. Abandonei a linha 13 com um diploma debaixo dos braços. Acredito  que o “caos” persista e que por isso, a necessidade de respostas revele-se urgente. Saio  com alguma frieza porque a vida assim o quis. Já em Portugal, guardo um coração cheio  de vontade de me dedicar ao bem do próximo. À bientôt.