À medida que o mundo procura formas mais inclusivas e eficazes de enfrentar desafios comuns, Portugal e o Escritório das Nações Unidas para a Cooperação Sul-Sul (UNOSSC) apresentam argumentos convincentes a favor da cooperação triangular. Juntos, apelam aos parceiros — desde governos e agências de desenvolvimento até ao setor privado e à sociedade civil — para que partilhem conhecimento, recursos e inovação para guiar um desenvolvimento sustentável. A sua mensagem é simples, mas poderosa: numa era caracterizada pela complexidade e pela interdependência, o progresso depende de parcerias construídas com base na confiança, na solidariedade e na responsabilidade partilhada.
Cooperação triangular em ação
Nas montanhas do Parque Nacional da Gorongosa, as plantas de café estão a ajudar a reverter a desflorestação e a restaurar a biodiversidade natural, enquanto aumentam o rendimento e a segurança alimentar das comunidades rurais da Gorongosa. Agricultores, especialistas em agricultura e investigadores de três países de língua oficial portuguesa reúnem-se regularmente — não apenas para cultivar os grãos, mas para cultivar confiança e conhecimento. A iniciativa chama-se Tricafé — uma parceria entre Moçambique, Brasil e Portugal. Baseada nos princípios de benefício mútuo, da solidariedade e da responsabilidade partilhada —princípios fundamentais da cooperação Sul-Sul —, o projeto Tricafé é um exemplo concreto de como um novo tipo de cooperação internacional está a ganhar raízes, demonstrando o papel vital da confiança na construção de parcerias relevantes e duradouras.
Como gostam de dizer os envolvidos, «é através da união que o projeto avança» (Agência Brasileira de Cooperação, 2023). Esta união trouxe resultados tangíveis: nos últimos oito anos, o projeto Tricafé melhorou a vida de mais de 1 000 famílias de agricultores, direta ou indiretamente envolvidas na cadeia de valor do café. Na sua segunda fase, desde 2024, o projeto expandiu o seu foco geográfico para incluir o Parque Nacional Chimanimani, parte da Área de Conservação Transfronteiriça com o Zimbábue.
No âmbito da iniciativa, o Instituto Superior de Agronomia, através da Agência Portuguesa de Cooperação, Camões – Instituto da Cooperação e da Língua, I.P., oferece financiamento, formação e ligação aos mercados europeus. Especialistas brasileiros partilham o seu conhecimento e melhores práticas na produção de café tropical e em gestão cooperativa, enquanto os agricultores moçambicanos lideram os esforços na adaptação dos métodos agroflorestais sustentáveis ao seu solo e clima. Juntos, formaram centenas de agricultores, publicaram estudos de investigação e guias práticos, e permitiram que o café cultivado em Gorongosa chegasse aos mercados regionais e internacionais, incluindo da Europa (Celebrando «A Nossa Gorongosa»).
Nesta parceria, cada parceiro aprende, investe e partilha responsabilidades técnicas e financeiras. Uma dinâmica circular de conhecimento partilhado, respeito mútuo, e de benefícios e objetivos coletivos está no cerne da cooperação triangular.
Repensar a cooperação num mundo em mudança
Durante grande parte das últimas oito décadas, a cooperação internacional seguiu um padrão comum: os países do Norte Global prestavam ajuda aos do Sul Global. Embora a globalização, um fenómeno central desta era, tenha trazido progressos inegáveis também aprofundou desequilíbrios de poder e ampliou as desigualdades — tanto dentro dos países como entre eles.
O mundo mudou, especialmente desde a COVID-19. Muitas nações antes rotuladas como «destinatárias» ou «beneficiárias» tornaram-se mais fortes, com uma governação baseada em instituições estáveis. Ao mesmo tempo, os desafios globais — desde as alterações climáticas até às desigualdades sociais, migrações e à ascensão da inteligência artificial — exigem soluções adequadas, colaborativas e baseadas nas realidades de cada contexto.
É aqui que entra a cooperação triangular.
Ao reunir dois países em desenvolvimento e um terceiro parceiro — muitas vezes outro governo e/ou uma organização internacional — para projetar e implementar conjuntamente as iniciativas, esta modalidade de cooperação preenche lacunas e promove sociedades mais pacíficas e mais prósperas. A cooperação triangular não substitui a cooperação Norte-Sul ou Sul-Sul; em vez disso, complementa-as e muitas vezes aumenta o seu impacto. Promove o multilateralismo e baseia-se em parcerias com múltiplos atores e múltiplos níveis, enraizadas no intercâmbio e orientadas pela solidariedade.
Ancorado na Estratégia de Cooperação Portuguesa 2030, Portugal reforça o seu compromisso com a cooperação triangular, tanto a nível institucional como operacional. Este reforço traduz-se em parcerias com países do Sul Global e do Norte Global que partilham os mesmos valores e num envolvimento crescente com o sistema multilateral, nomeadamente com o Escritório das Nações Unidas para a Cooperação Sul-Sul (UNOSSC), que desempenha um papel fundamental na promoção da cooperação Sul-Sul e na cooperação triangular como vias para uma cooperação mais equilibrada entre as nações e um progresso mais rápido para o cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).
Tanto Portugal como o UNOSSC acreditam que, no atual contexto de múltiplas crises e de rápida transformação, o presente e o futuro dependem da construção da confiança que a cooperação triangular encarna da melhor forma.
Traduzir os compromissos políticos em prática
Portugal está a investir na cooperação triangular de forma significativa.
Através da Agência Portuguesa de Cooperação Camões, I.P., o país criou o Fundo de Cooperação Triangular Portugal-América Latina-África, gerido pela Secretaria-Geral Ibero-Americana (SEGIB). Este mecanismo apoia iniciativas em que parceiros destas regiões concebem e implementam em conjunto projetos que respondem a necessidades locais reais.
Portugal também apoia com orgulho a Janela de Cooperação Triangular no âmbito do Fundo das Nações Unidas para a Cooperação Sul-Sul (UNFSSC). Através dela, estamos a avançar com um projeto-piloto de Economia Azul com Angola, Chile e Jamaica — ligando a ciência, as políticas e as comunidades académicas e da investigação, e construindo resiliência nas três regiões.
Estes esforços posicionam Portugal como facilitador da cooperação inter-regional — reforçando os laços entre a América Latina e África, construindo conhecimento com estas parcerias e ajudando a construir as bases institucionais para um mundo mais colaborativo e resiliente.
Por que é importante e o caminho a seguir
A cooperação para o desenvolvimento encontra-se num momento decisivo.
Num panorama de cooperação cada vez mais complexo — que alguns descrevem como um «Mundo pós-ODA (Ajuda ao Desenvolvimento)» — a cooperação triangular nunca foi tão relevante. Oferece um caminho prático e eficiente a seguir, embora nem sempre rápido ou isento de desafios. Ao combinar recursos, conhecimentos técnicos e abordagens inovadoras de vários parceiros, esta modalidade de cooperação ajuda a garantir que os esforços de todos os parceiros envolvidos têm maior alcance e impacto.
A cooperação triangular também reforça a apropriação: quando os países concebem e implementam iniciativas de forma colaborativa, é mais provável que as sustentam no futuro.
Numa era marcada pela fragmentação, a cooperação triangular demonstra que a cooperação não se resume a questões financeiras, mas tem na sua base a confiança, a solidariedade e responsabilidade partilhada.
É precisamente com este espírito que Portugal e o UNOSSC estão a trabalhar em estreita colaboração com outras organizações multilaterais, como a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), e que Portugal está a coorganizar, com esta última, o 9.º Encontro Internacional sobre Cooperação Triangular, em Lisboa, nos dias 29 e 30 de outubro.