Portugal vive ainda sob o peso de uma legislação laboral herdeira  de uma visão ultrapassada do trabalho e da economia. A proposta  de reforma apresentada pelo Governo é, apesar de tímida em  vários aspetos, um passo na direção certa: flexibilizar o mercado de  trabalho, dar mais liberdade às partes envolvidas e adaptar a lei às  exigências da realidade económica contemporânea.

No entanto, à medida que se conhecem os detalhes das medidas  propostas, cresce o debate público e político em torno de uma  pergunta central: esta reforma representa um avanço na valorização  do trabalho ou é, antes, uma porta aberta à precarização das  relações laborais?

A possibilidade de alargar contratos a termo, de recorrer a  outsourcing após reestruturações ou de implementar modelos de  banco de horas individual são instrumentos essenciais para  dinamizar o tecido empresarial. São também sinais de que se  começa, finalmente, a abandonar a visão paternalista do Estado  que tutela relações privadas como se todos os empregadores  fossem predadores e todos os trabalhadores, vítimas.

Naturalmente, estas propostas geram oposição por parte dos  sindicatos e dos setores mais conservadores do debate laboral.  Mas não há crescimento económico sustentável sem  responsabilidade individual e liberdade contratual. O que se exige é  transparência, boa-fé e um sistema judicial que funcione. A  estabilidade no emprego deve resultar da produtividade e do mérito,  não de rigidez legal imposta por decreto.

É desejável que o Governo mantenha o rumo e que a discussão  parlamentar não dilua a ousadia inicial da proposta. Portugal não  pode continuar refém de uma legislação laboral que trava a  competitividade, desincentiva o investimento e empurra os jovens  qualificados para o estrangeiro. A reforma é, antes de mais, uma  questão de futuro.