Vejo mais um dos debates presidenciais com um dos meus rapazes. No fim sei que não estivemos a ver política. Se houver algum minuto que quisermos dedicar-lhe tem de ser uma conversa que comece depois de tudo aquilo. Triste ilusão da nossa época: é tão raro tratar de política nos seus ciclos eleitorais.
Se fosse de política que as nossas eleições tratam não perderíamos os nossos modos nelas. Não precisamos de recuar até Aristóteles, Platão ou Heródoto para recordar que política, tendo a ver com o cuidado da polis, a cidade, tem a ver com os outros. Logo, fazer política com maus modos é não fazer política.
Não idealizo discussões políticas feitas sem convicção e sem excessos. Acho saudável que políticos diferentes se vejam como adversários respeitando que as suas distinções se confrontem assumindo antagonismos—pensar em quem ganha e quem perde nem me parece completamente desajustado. Mas esse jogo do contraste serve um objectivo último de deliberação racional, como diria Alasdair MacIntyre.
Se a política se tornar em afastar-me do outro a morte dela é certa. A política é o que acontece quando gente passou a acreditar em conviver com outra diferente. Numa tribo talvez não seja necessária muita política. E se o futuro for voltar a tribalizar a nossa existência então parece-me que os nossos debates estão a ir no sentido certo.
Voltando àquele que vi com um dos meus rapazes, não nego que cedi a alguns instintos deselegantes. Houve partes em que apoiei uma intervenção como se fosse uma claque e houve outras em que chamei palhaço à mesma pessoa que tinha acabado de apoiar. Nestas alturas duvido que enquanto pai esteja a ajudar grande coisa. Provavelmente o mais seguro é que os meus filhos cresçam com o mesmo grau de indecisão e pessimismo que já acumulo.
Agrada-me que os meus filhos encarem a política como uma continuação de tudo o que já é complicado na fé deles. Ser cristão é difícil porque nós próprios somos os primeiros a desiludir-nos. Quando os outros nos desapontam, já não é propriamente uma surpresa. A política é dedicar-me a gente que me vai desiludir do mesmo modo como eu desiludo essa gente. E no meio desse processo meio louco, não desistir dele.
Política também é encarar o outro até quando ele pode ser perverso ou palhaço. Política também é o outro encarar-me até quando eu posso ser perverso ou palhaço. É lidarmos com as nossas perversidades ou palhaçadas para irmos além delas. Perdermos os modos em política é ficar pela triste metade em que a perversidade ou palhaçada alheia é o argumento perfeito para abandonar a cidade e regressar à tribo. Acho que não serei um mau pai por desejar que os meus filhos não troquem a cidade pela tribo.