Anda meio país preocupado com o fim dos debates quinzenais na Assembleia da República – esse meio país, que faz descansar os neurónios entre a chegada de Jesus (fora da época natalícia) e a(s) mudança(s) da Cristina nos programas de entretenimento. Indignam-se, não sabem muito bem porquê, mas está na moda e, necessário, é fazer prova de vida nas redes sociais. À míngua de fotos em trajes de banho, desaconselhados pelo Covid, e da ausência de livre trânsito para os bacanais na Comporta, é importante que os outros (n)os saibam vivos e, sobretudo, indignados. O outro meio país, a juntar à máscara que agora se quer obrigatória, colocou a outra – a de palhaço – que usa enquanto a banda toca… Indumentária por inteiro, de quem já se resignou, já que, se é para gozarem connosco, então que o façam a preceito.

O tal rebanho acéfalo que debita likes, partilhas e lugares a um ritmo mais frenético do que se debitam gases depois de farta feijoada, acha, com toda a propriedade intelectual auto-reconhecida e louvada, que a democracia está em crise pelo facto de o nosso Primeiro não dar contas aos representantes do povo a cada duas semanas. O tal rebanho, que nunca viu um debate e que não sabe, ou não quer saber, que naquela casa se prestam (a) tudo menos (a) contas… A carneirada da democracia do Facebook, cala a indignação perante os atropelos governativos à lei, às nomeações familiares, aos compadrios políticos, aos ventiladores que teimam em não aparecer, aos diletantes ministros que ameaçam alterar o edifício legislativo quando este não lhes convém, às censuras de opinião e monitorização dos discursos livres, às sucessivas tentativas de manipulação da comunicação social, feita sem pudor e às claras… Aqui, a democracia não está em crise, justificando-se os meios… A estultícia não justifica tudo e, (felizmente para eles) as falhas de carácter passam incólumes na peneira das redes sociais. É uma hipocrisia não consciente, porque o exame autocrítico há muito se encontra ausente em parte incerta…

E não, a democracia não está em crise… está praticamente moribunda, a caminho de uma morte há muito anunciada. Desde logo, porque da casa do povo, apenas resta o edifício. Nem povo, nem os seus representantes. E nem a permanência dos políticos, subjugados a interesses próprios ou colectivos, faz daquilo uma casa…

A Assembleia da República demitiu-se das suas funções. Abdicou do seu poder legislativo para o entregar, de mão beijada, ao Governo do qual serve de muleta. O último baluarte da democracia fiscalizada, responsável, orientadora e popular, caiu. O Governo, que deveria ser executor, é agora planeador, decisor, legislador, omnipotente e irresponsável, tendo na bancada parlamentar o séquito de acólitos das suas políticas. Ou seja, a AR não cumpre a sua função, servindo apenas de palco circense para o digladiar de egos e o destilar acusações inflamadas. No demais, reduz-se à burocracia dos gabinetes pejados de inúteis, em tirocínios pós-jotas e pré-reformas douradas, num anátema despesista…

Costa é inteligente e logo mordeu a oportunidade de silenciar e retirar palco a quem lhe fazia sombra: Ventura e Cotrim de Figueiredo, os quais, seja pela virgindade política, seja por pueril crença no funcionamento das instituições, ou por verticalidade de conduta, não anuíram ao status quo e rebelaram-se na oratória, mais ou menos acertada. Ainda assim, fizeram o seu papel: questionaram, desnudaram, confrontaram, pediram explicações, exigiram acções e responsabilidades… tudo o que Costa não quer e não precisa!

Rio foi o espelho de si mesmo. Aguarda que a maçã caia de podre e tudo fará para sobreviver até lá. A qualquer preço, ainda que o custo seja o partido. É exímio nesse jogo, que mais não é do que um projecto pessoal. Quer ser líder de um país, ainda que isso custe o próprio país. E, antevendo esse cenário, não há incómodo maior do que prestar (-se a) satisfações ao comum dos mortais. Quer uma governação à antiga, por decretos e comunicados, intangível na sua sabedoria, a qual não (se) pretende sindicável. Atalhou caminho, oferecendo de bandeja aquilo que Costa nem se atreveria a pedir… E, porque riscos não corre e os traços despóticos são-lhe incindíveis, impôs disciplina de voto. Como se a questão fosse de natureza partidária e os agendamentos parlamentares baluarte da social-democracia…

Assim, enquanto nós, palhaços, uns por roupagem adequada à situação, outros por natureza, calando ou bombardeando diatribes ou impropérios, a banda continua a tocar. À medida que nos aproximamos parece, cada vez mais, um requiem